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Livro esmiúça as casas de Marcos Acayaba no Guarujá
Celebridades Cultura

Livro esmiúça as casas de Marcos Acayaba no Guarujá – 22/07/2026 – Ilustrada

Uma vez que o título indica, o livro “Arquitetura e Natureza, 23 Casas na Serra do Guararu – Marcos Acayaba” apresenta o conjunto completo de casas projetadas pelo arquiteto para essa delicada região do Guarujá, no litoral paulista, uma muito preservada tira de mata atlântica, mangue e restinga, situada entre o oceano Atlântico e o ducto de Bertioga.

Com organização de Marlene Milan Acayaba e editoria de imagens de Nelson Kon, a publicação recolhe uma expressiva produção residencial do arquiteto Marcos Acayaba ao longo de 35 anos de curso, de 1986 a 2021.

Ocupada pelos condomínios de Tijucopava, São Pedro, Iporanga e Taguaíba, a serra do Guararu é uma dimensão de proteção ambiental com casas de veraneio de luxo que, em alguns casos, procuram soluções arquitetônicas não ostensivas, com presenças discretas na paisagem, e cuja implantação e processo construtivo não agridam o meio envolvente. Esse é o caso das obras apresentadas no livro, cuja sequência cronológica nos permite entender seus percursos e transformações.

Com a exceção dos terrenos planos próximos à praia, os lotes mais comuns desses condomínios apresentam grandes declividades e altas concentrações de árvores. Respondendo a esses desafios, Acayaba foi criando volumetrias cada vez menos monolíticas, decompondo as construções em volumes escalonados e organizações expansivas em vegetal.

Nesse sentido, se aproximou do engenheiro Hélio Olga, que já começava a edificar obras com estruturas de madeira industrializada. Assim, em 1986, realizaram juntos a Vivenda AOT, visitando estéticas e materialidades japonesas.

A partir daí, o arquiteto começa a buscar combinações possíveis entre componentes de madeira para estruturas e pisos, de um lado, e paredes de alvenaria de tijolo, por outro. Ao mesmo tempo, nas implantações, alterna soluções em que encaixa os volumes fragmentados nas curvas de nível, ou logo os eleva sobre pilotis, lembrando palafitas, com passarelas elevadas e torres-mirante. Dessa segunda família de projetos nasce a Vivenda Baeta, em 1991, que se tornou uma referência importante na arquitetura paulista e brasileira.

Nesse projeto radical, feito todo de madeira, vidro e painéis leves, com a Ita Construtora, de Olga, o arquiteto leva às últimas consequências o raciocínio feito a partir do material construtivo, soltando a morada inteiramente do soalho e estruturando-a por meio de módulos triangulares de madeira autotravada, com apoios concentrados e encimados por mãos-francesas diagonais que sustentam as lajes.

Uma vez que explica Acayaba, a forma triangular possibilita desenvolvimentos volumétricos mais livres do que o padrão ortogonal, permitindo-se desviar-se mais facilmente de árvores existentes no terreno, por exemplo. Aliás, demanda um canteiro de obras simples e insuficiente, já que os trabalhos no sítio se resumem quase que unicamente à montagem de componentes produzidos fora. Experiência que se prolonga em sua própria morada, em 1996.

Assim, tocando muito pouco o soalho e construindo de modo racional e sustentável, o arquiteto atinge, ao mesmo tempo, um cume proporção de leveza, desafiando a sisudez por meio de tabuleiros de madeira articulados e em balanço.

Alguma coisa que apareceu uma vez que uma opção ecologicamente consistente diante da recente preocupação com a conservação de vigor e o uso de materiais renováveis para a construção social, em um momento de privado conscientização sobre o impacto de desmatamentos e o desenvolvimento de novas técnicas de manejo de florestas.

Para tanto, Acayaba desenvolveu, em colaboração com a Ita, uma linguagem distinta da imagem rústica e pitoresca normalmente associada à madeira no Brasil, aparelhando as peças, reduzindo ao mínimo a espessura dos perfis e concebendo um sistema compósito com peças metálicas de relação, tirantes de aço para contraventamento, coberturas planas com mantas termoplásticas da Alwitra e fechamentos em painéis leves.

Linguagem que se afasta do uso artesanal e regionalista da madeira praticado historicamente no país, apontando para uma serialização industrial sofisticada, mas despojada.

Nessas obras, Marcos Acayaba dialoga em profundidade com a melhor tradição da arquitetura brasileira, baseada no projeto em incisão, pensado a partir da estrutura. Mas o faz substituindo o concreto armado pela madeira industrializada, e com uma poética ascensional, de volumes que parecem decorrer em flor, flutuando sobre os abismos escarpados, e em meio a uma mata densa.

E, ao fazer esse giro técnico e estético desde os anos 1990, e através de casas de praia no meio da mata atlântica, indicou um caminho promissor para a nossa arquitetura. Ambientalmente responsável e, ao mesmo tempo, conectado a uma tradição.

Folha

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