A semifinal entre Espanha e França, que levou a seleção de Rodri para a decisão da Despensa do Mundo, foi transmitida no Brasil exclusivamente pela CazéTV. Também aconteceu assim com o jogo com desempenho surpreendente de Vozinha, carismático goleiro de Cabo Verdejante, diante dos espanhois ainda na primeira período.
Algumas das partidas mais comentadas deste Mundial, que chegou ao término neste domingo (19), e também algumas das histórias mais curiosas da competição foram transmitidas ao vivo exclusivamente pelo ducto da LiveMode. E só depois os concorrentes, uma vez que a TV Mundo, repercutiram.
Pela primeira vez desde 1970, quando passou a exibir os jogos da Despensa, a Mundo não teve os direitos de todas as partidas do Mundial. Mostrou 55 jogos. O pacote completo, com 104 jogos, ficou com a Cazé. O SBT apresentou 32 disputas.
O desempenho da emissora carioca está longe de ser um fiasco. Até as semifinais, diz o departamento de notícia da empresa em nota enviada à reportagem, foram “140,2 milhões de pessoas alcançadas pela Mundo (TV Mundo, SporTV e GeTV) na Despensa do Mundo, sendo 34,3 milhões de pessoas impactadas exclusivamente pela Mundo”, considerando dados do Ibope.
São números eloquentes, assim uma vez que os obtidos pela Cazé. Essa Despensa marcou uma mudança definitiva no consumo de mídia esportiva no Brasil, segundo Christian Mutzig, um dos sócios da LiveMode.
“Pela primeira vez, o do dedo foi o motor do desenvolvimento de audiência —os jogos da seleção foram mais assistidos do que em 2022, e esse proveito veio inteiramente do público do dedo. Ao longo do torneio, a CazéTV reescreveu o ranking de maiores transmissões ao vivo da história do YouTube: são 29 das 30 maiores audiências do mundo, com o recorde de 23,9 milhões de dispositivos conectados ao mesmo tempo, e 118,7 milhões de contas únicas alcançadas na plataforma”, afirma Mutzig.
Devido à presença mais regular ao longo de todo o Mundial, o ducto fundado por Casimiro Miguel tende a dividir com a Mundo o papel de protagonista no imaginário coletivo brasiliano ligado à Despensa de 2026, uma situação impensável há uma ou duas décadas.
Relatos obtidos pela reportagem vindos do círculo próximo ao comando da Mundo citam “susto” e “revés” para descrever a força demonstrada pela Cazé nas últimas semanas. Houve ainda uma sensação de frustração na espaço de jornalismo, que funciona separadamente do departamento de esporte.
Enfim, quando a Mundo decidiu não comprar o pacote completo de jogos? E por que isso aconteceu?
É preciso voltar a 2020 para entender os primeiros sinais evidentes de distanciamento da emissora em relação à Fifa, dona dos direitos de transmissão. Naquele ano, o Grupo Mundo acionou a Justiça para não remunerar de maneira imediata o valor de US$ 90 milhões (quase R$ 600 milhões, no câmbio atual) previsto no contrato para o período entre 2015 e 2022.
O objetivo da emissora era renegociar os valores do contrato, que contemplava a Despensa do Mundo de 2022, no Qatar, em razão da pandemia, que afetava os rendimentos da empresa.
O embate entre Mundo e Fifa se estendeu por alguns meses até que os dois lados entraram em um congraçamento, e o caso foi arquivado em 2021. Neste ano, um novo revés: a emissora perdeu a exclusividade nos direitos de transmissão pela internet do torneio no Qatar, e a Fifa começou a negociar com a LiveMode.
Nesse processo de retiro, 2022 é o momento-chave, segundo as fontes ouvidas pela Folha. Deu-se neste ano a confirmação de que a Mundo não obteria os direitos digitais para o Mundial seguinte, justamente o que acabamos de seguir.
Também em 2022, a emissora tomou a decisão de não comprar a totalidade dos jogos do Mundial sediado nos EUA, no México e no Canadá.
E por que a emissora não comprou o pacote completo?
Existem pelo menos dois aspectos que devem ser levados em conta, ambos de fundo financeiro.
O primeiro é o efeito da pandemia de coronavírus sobre as finanças do Grupo Mundo. “Uma vez que várias outras empresas, a Mundo precisou fazer muitas demissões em consequência da pandemia. Se não fosse o sucesso de publicidade do Big Brother Brasil [de 2020], teria sido ainda pior”, afirma o jornalista Ernesto Rodrigues, responsável de trilogia sobre os 60 anos da TV Mundo.
Havia àquela profundeza uma meta de trinchar R$ 1 bilhão por ano, segundo Rodrigues.
O segundo ponto, não menos relevante, é a explosão dos custos de transmissão das grandes competições de futebol, mormente da Despensa do Mundo, muito em virtude do gigantismo conseguido pelo evento.
O congraçamento para exibir o Mundial sediado pela França, em 1998, custou US$ 19,4 milhões (em valores atuais), divididos por cinco canais brasileiros. Concluída a competição, a Mundo acertou a exclusividade para apresentar os Mundiais de 2002 e 2006 por US$ 413 milhões (corrigidos). Daí em diante, esses custos continuaram crescendo.
A venda dos direitos de transmissão representa a maior fatia das receitas obtidas pela Fifa. Na Despensa de 2022, alcançou US$ 3,4 bilhões, segundo o Sport Insider, veículo especializado em negócios do esporte; no Mundial deste ano, saltou para US$ 4,3 bilhões.
Contribui ainda para essa subida de valores o acirramento da concorrência, com a ingressão em campo das gigantes digitais. É procedente que o preço dos direitos de transmissão suba quando pesos pesados cobiçam esse mercado da mídia esportiva.
Vale lembrar que a Fifa deu o status de “plataforma preferencial” nesta Despensa ao YouTube, que pertence ao Google. E o YouTube fez parceria no Brasil com a LiveMode, dependência dona da Cazé.
Existe ainda um terceiro paisagem lembrado nos bastidores –nesse caso, porém, há divergências. Uma manante ligada à cúpula da emissora diz que áreas tradicionalmente associadas à TV ensejo, uma vez que esporte e dramaturgia, foram sacrificadas a partir de 2017 para que a empresa pudesse destinar mais investimentos ao serviço de streaming Globoplay.
Outra fileira, porém, afirma que são ordens de grandeza muito diferentes. Para um integrante desse segundo grupo, todo o dispêndio de teor do Globoplay somado é menor do que a Mundo paga pela série A do Campeonato Brasiliano, ou seja, não faz sentido confrontar os dois setores.
‘Envolvente de possante concorrência’
Segundo a nota da Notícia da Mundo, a emissora “revisita suas dinâmicas, processos e estratégias frequentemente e, durante a pandemia, quando foram renegociados alguns direitos incluindo os de transmissão da Despensa do Mundo, o principal objetivo foi prometer o estabilidade entre investimento e geração de valor”.
Nesse contexto, continua, “para a edição 2026, a Mundo priorizou a obtenção do pacote formado por todos os confrontos da seleção brasileira, a final e mais a metade das outras partidas do campeonato”.
Ainda de congraçamento com a nota, “é preciso considerar que a Mundo sempre conviveu em um envolvente de possante concorrência. Primeiro na TV ensejo, depois na TV por assinatura e agora também no do dedo. Inclusive em Copas passadas, quando dividiu a exibição do campeonato com outros players. O grande duelo hoje é combinar duas realidades: a escalada dos custos de direitos e a receita que a exploração deles gera”.
Para a Notícia da Mundo, “a discussão é muito mais ampla do que exclusivamente ter o recta de exibir as partidas porque o investimento não termina na compra dos direitos. A Mundo trabalha para entregar a melhor experiência para as pessoas, investindo em qualidade técnica, equipes e talentos, originalidade, tecnologia, inovação e distribuição”.
De congraçamento com Mutzig, da LiveMode, “o torneio revelou uma mudança de comportamento que foi se consolidando jogo a jogo. Chegamos [Cazé TV] nesta Despensa com 6,9 milhões de dispositivos — já o maior pico da história para um jogo de futebol no YouTube. Na estreia da seleção contra Marrocos, o pico quase dobrou e foi de 12,6 milhões. Três jogos depois, mais de 20 milhões de dispositivos estavam conectados simultaneamente”.
Quem decidiu?
De quem foi a decisão de não comprar o pacote completo dos jogos desta Despensa? Também cá há visões divergentes.
Para uma fileira, o grande responsável foi Jorge Nóbrega, presidente-executivo do Grupo Mundo de 2017 a 2022. “Ele começou a pegar pesado contra a TV ensejo. É dessa idade a decisão de não gastar muito quantia com esporte”, diz Ernesto Rodrigues.
Em email à reportagem, Nóbrega diz exclusivamente: “Tenho por princípio não falar de questões internas da Mundo desde que saí de lá”.
Outra manante, porém, defende que uma iniciativa de tamanha relevância para a empresa envolveu debates e não poderia ser conduzida por um varão só. Foi, dizem esses interlocutores, uma decisão colegiada, com participação dos acionistas do Grupo Mundo, além de Manuel Belmar, diretor de produtos digitais, finanças, jurídico e infraestrutura da Mundo, e do próprio Nóbrega.
Seja uma vez que for, a TV Mundo planeja restaurar os direitos de todos os jogos da Despensa de 2030.
“Estamos de olho no novo ciclo e na Despensa feminina, que acontece cá no Brasil no próximo ano. Queremos mostrar que só nós entregamos uma Despensa em volume para a Fifa”, afirmou Renato Ribeiro, diretor de esportes da Mundo, à pilar Outro Meio no início de junho.
Colaborou Paulo Passos





