Livro mostra como alcoolismo pode adoecer toda uma família – 16/10/2026 – Ilustrada
O título “Cordão de Aço Não Arrebenta Fácil”, romance de estreia de Bruno Gil Gonzalez lançado pela editora Patuá, já anuncia que estamos diante de uma história sobre vínculos resistentes. Mas o aço não aparece exclusivamente porquê símbolo de força. Ele também pode prender, machucar e deixar marcas.
Cristina, a protagonista, conhece muito esse peso. Enfermeira, moradora de São Paulo e aspirante a uma vaga na faculdade de medicina, ela tenta erigir o próprio horizonte enquanto se sente responsável pelo pai alcoólico.
Li nascente livro do lugar de uma mulher alcoólico em recuperação. Por isso, algumas passagens me atingiram de maneira privado. Conheço a doença pelo lado de quem bebeu e causou preocupação, frustração e sofrimento.
Sei que, em certos momentos, a família inteira adoece junto. O álcool entra na lar pela mão de uma pessoa, mas aos poucos ocupa todos os cômodos, muda os afetos e obriga cada um a viver em estado permanente de alerta.
Cristina foi abandonada pela mãe ainda gaiato e cresceu acreditando que precisava salvar o pai. Divide-se entre o trabalho desgastante no hospital, as longas viagens de ônibus, o cursinho pré-vestibular e as crises provocadas pelo alcoolismo dele.
Seu sonho de ser médica parece sempre diferido por uma emergência familiar. Ela perde oportunidades, quantia, tempo e até o recta de pensar em si mesma. Existe paixão entre os dois, mas é um paixão atravessado pela culpa, pelo terror e por uma responsabilidade que nunca deveria ter sido colocada sobre os ombros de uma filha.
Talvez o maior valor do responsável seja não transformar o pai de Cristina em um vilão sem humanidade. O alcoolismo provoca estragos reais, e o livro não tenta disfarçá-los. Ao mesmo tempo, reconhece que detrás da pessoa alcoolizada existe alguém adoecido, muitas vezes envergonhado, perdido e incapaz de interromper sozinho o ciclo da bebida. Isso não apaga as consequências de seus atos, mas evita o julgamento fácil. Essa escolha torna a leitura mais verdadeira.
Durante muito tempo, pensei que meus problemas com o álcool atingiam somente a mim. Quando bebia, imaginava estar anestesiando uma dor privado. A recuperação me ensinou que a subordinação nunca é inteiramente individual. Nossas ausências, promessas quebradas e recaídas alcançam justamente quem mais nos patroa. Cristina representa as pessoas que tentam proteger o dependente e acabam esquecendo de proteger a si mesmas.
O livro também acerta ao mostrar que parar de ingerir não resolve magicamente tudo o que foi destruído. A sobriedade é um primícias, não um passe de mágica. Quando o pai tenta se reerguer e ajuda Cristina a retomar o cursinho, abre-se uma possibilidade de reconstrução. Ainda assim, ela precisa enfrentar as feridas do pretérito e a difícil tarefa de deslindar quem é quando não está ocupada salvando outra pessoa.
Cristina não é uma heroína perfeita. É cínica, às vezes dura e contraditória. É isso que faz com que desejemos tanto sua vitória. Sua ingresso na faculdade não surge porquê prêmio milagroso, mas porquê resultado de persistência. Ela precisa aprender que amar alguém não significa soçobrar junto com essa pessoa.
O texto de Gonzalez, publicitário de formação, é direto e visual, com ritmo de roteiro. São Paulo também participa da narrativa: está nos ônibus demorados, no cansaço dos trabalhadores e na intervalo entre o sonho e as condições materiais para realizá-lo. Essa dimensão social amplia o drama sem tirar sua intimidade.
“Cordão de Aço Não Arrebenta Fácil” é sobretudo um romance sobre a possibilidade de mudança. Uma vez que alcoólico em recuperação, terminei a leitura com esperança. Não aquela esperança ingênua que promete extinguir o pretérito, mas a que nasce quando finalmente assumimos nossas responsabilidades e permitimos que quem está ao nosso lado também tenha uma vida própria.
Alguns laços precisam ser afrouxados para que deixem de magoar. Outros podem ser refeitos com limites, honestidade e desvelo. O cordão de aço talvez não arrebente facilmente, mas pode mudar de forma. E, às vezes, recuperar-se é aprender que ninguém salva ninguém sozinho.





