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Livro revela intimidade de Cortázar entre charme e caos
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Livro revela intimidade de Cortázar entre charme e caos – 23/10/2026 – Ilustrada

Basta procurar no YouTube e Julio Cortázar reaparece. Em “Cortázar por Ele Mesmo”, as entrevistas do grande responsável prateado encontram tradução e contexto em lançamento de Cassiano Viana.

Cabelo mal-ajambrado, roupa sem maior preocupação, dentes sujos de fumante contumaz, muita fumaça no estúdio europeu, ele se acomoda diante de um entrevistador e começa a falar. Durante uma hora, às vezes mais. Ninguém parece ter pressa naquele tempo.

As imagens parecem próximas, mas o mundo que mostram ficou distante. Os entrevistadores conheciam os livros a fundo, uma vez que nunca mais teria ocorrido na televisão a partir de logo, em programas praticamente sem intervalos. As perguntas podiam ser longas e as respostas, também. Não havia a aparente obrigação de produzir uma frase de efeito para um golpe para enviar para o site antes que a atenção do testemunha escapasse.

É segmento desse material que Viana reúne em “Cortázar Sobre Ele Mesmo”, volume da editora 7Letras que transcreve entrevistas do repórter às televisões espanhola e argentina.

Na apresentação, o organizador lembra que a entrevista com escritores, tradição que remonta ao século 19, ganhou outra dimensão com a popularização da TV nos anos 1960. E deixa uma pergunta: por que, em meio à saturação de narrativas sobre a vida alheia, continua existindo o libido de desvendar a intimidade de quem admiramos?

Cortázar, ao contrário de escritores que se recusaram a explicar a própria obra, parecia gostar da conversa. Já era uma notoriedade literária quando participou, em 1977, do programa espanhol “A Fondo”. Tinha publicado “As Armas Secretas”, “Histórias de Cronópios e de Famas” e “O Jogo da Amarelinha”.

O autorretrato que oferece tem um charme que também pertence à outra era. Cortázar diz não ser um repórter profissional, mas “um aficionado que escreve livros”. Não obedece a horários. Às vezes uma teoria o toma e ele passa horas escrevendo, sem consumir nem dormir, até que sua mulher lhe diga que precisa dormir um pouco.

O caos fazia segmento do personagem. Cortázar conta que “Os Reis” lhe ocorreu num ônibus, depois de sentir quase fisicamente a presença do Minotauro; que personagens lhe apareceram no ar durante o pausa de um concerto em Paris. Compara o início de um narrativa ao jazz: primeiro vem a improvisação, depois o trabalho.

Acredita em astromância e não descarta que os astros tenham alguma responsabilidade pelo emergência simultâneo de tantos grandes escritores latino-americanos ao mesmo tempo. Mas se irrita com a vocábulo inglesa “boom” para definir o fenômeno.

É supersticioso. Recusa-se a escolher seus melhores textos porque essa é “tarefa dos críticos” e porque, brinca, poderia fazer a seleção e morrer em seguida. E gosta de gatos. “Não somos nós que os escolhemos. São eles que nos escolhem, porque têm pundonor.”

A espontaneidade esconde uma trajetória longa. Cortázar nasceu em 1914, na Bélgica, e estava perto dos 50 anos quando “O Jogo da Amarelinha” foi publicado, em 1963. Era muito mais velho que outros nomes com os quais seria agrupado no boom latino-americano.

Teve tempo de grafar um primeiro romance que ninguém leu e que ele próprio dizia já não lembrar muito muito. Não tinha ressentimento de ter renegado um livro inicial e chegar lentamente à obra que o consagraria. “Conheci muitos autores jovens com uma pressa imensa de publicar. Depois, se deram conta de que o fizeram muito rápido.”

Cortázar não foi indiferente à política. Defendeu o socialismo e se envolveu cada vez mais com as causas latino-americanas. Desconfiava da chamada “literatura comprometida” quando a mensagem se impunha à arte, mas queria que a política chegasse ao leitor incorporada à estrutura do texto.

“O Livro de Manuel” foi sua tentativa mais evidente. Inspirado pelas notícias da repressão que recebia da Argentina, teve direitos autorais destinados à resguardo de presos políticos. Cortázar já não precisava do engajamento para erigir uma curso. Usou a curso que tinha para se engajar.

É por isso que uma das últimas entrevistas do livro destoa tanto das demais. O responsável não está sentado num estúdio falando de Poe, jazz ou gatos. Está de pé num aeroporto prateado, em 1983, de volta depois de anos a um país que havia deixado devido à ditadura.

Parece entusiasmado. Diz esperar viver muito em seu país, reivindica a vocábulo esquerda, fala em colaborar para a construção da democracia e promete reunir textos contra a ditadura que os argentinos não haviam podido ler.

Julio Cortázar morreu em fevereiro de 1984, um ano depois da redemocratização argentina. Tinha 69 anos.

Folha

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