Livro sobre Gaza mostra que Ocidente não é horizonte moral

Livro sobre Gaza mostra que Ocidente não é horizonte moral – 22/03/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Em “Um Dia Todos Dirão Terem Sido Contra”, de Omar El Akkad, o tema não é somente o do genocídio em Gaza com suas raízes históricas na formação do Estado de Israel ou nos ataques do Hamas de outubro de 2023, mas o lugar a partir do qual o massacre é observado.

No livro premiado com o National Book Award na categoria de não ficção, o narrador fala de dentro das sociedades ocidentais nas quais vive há décadas, que ainda querem se apresentar ao mundo porquê guardiãs de um vocabulário universal fundamentado em direitos humanos, legitimidade internacional e proteção da vida social.

Nascido no Egito da ressaca terceiro-mundista e formado entre deslocamentos que o levaram ao interno do mundo anglo-americano, El Akkad ocupa uma posição uno: simultaneamente dentro e fora do universo que descreve. Pertence a uma geração que enxergava o Poente porquê horizonte moral almejado.

E é justamente dessa posição que ele observa a reação ocidental ao massacre em Gaza: os silêncios, as justificativas e as racionalizações que permitem conciliar a resguardo abstrata dos direitos humanos com a aprovação prática de sua completa suspensão.

O contexto em que o livro foi escrito reforça o contraste. Sob o governo Joe Biden-Kamala Harris, a política norte-americana continua se apresentando na linguagem tradicional do liberalismo: resguardo da democracia, da ordem internacional baseada em regras e dos direitos humanos. Essa retórica permite que o responsável exponha a intervalo entre valores proclamados e práticas concretas.

Em contextos francamente imperialistas, porquê o governo Donald Trump-J.D. Vance, essa tensão aparece de forma mais crua. No envolvente liberal, ao contrário, ela precisa ser administrada incessantemente no oração, o que torna visível a maquinaria de justificativas diárias que sustenta a convívio entre universalismo moral e cômputo político.

A forma do livro acompanha esse diagnóstico. El Akkad alterna com ritmo jeitoso episódios autobiográficos com reflexões sobre a política, de forma que os polos se influenciam reciprocamente, gerando força literária e densidade histórica ao livro.

O resultado é um pouco próximo a uma autobiografia moral do desencanto: a narrativa de alguém que acreditou profundamente na promessa liberal e que agora acompanha, quase com perplexidade, o modo porquê ela se apresenta seletiva diante de um teste histórico extremo.

A estrutura tende a seguir o seguinte roteiro: exposição de um momento de violência ou hipocrisia política, seguido de um pouco que podemos invocar de saturação moral, quando o argumento chega a um ponto em que a repetição de justificativas e racionalizações cria uma sensação de impasse. E, por termo, o deslocamento autobiográfico, quando o responsável retorna a episódios pessoais: puerícia no Egito, transmigração, experiências profissionais, vida cotidiana no Poente etc.

Nesse sentido, o livro se aproxima de uma tradição ensaística que nos Estados Unidos tem porquê um de seus principais representantes James Baldwin. Foi um responsável que escreveu de dentro da cultura ocidental, mas a partir de experiências históricas que tornavam visíveis as fissuras de sua promessa universal.

Para esse seleto grupo de pensadores, a força da sátira não nasce da repudiação pura e simples desses valores, mas do esforço intelectual de pedir conformidade entre aquilo que se proclama e o que se pratica.

Se o impulso dessa atitude tende, em qualquer nível, a confirmar essas sociedades ao almejar seu aperfeiçoamento, Gaza colocaria um termo a esse estranho pacto. Enfim, o morticínio não foi “criado por um sistema desvirtuado, mas por um sistema que funcionou exatamente porquê solicitado”.

Ao se implicar na história, El Akkad também reflete sobre a força da escrita: a vocábulo permite reconstruir nexos, restituir contexto e formular perguntas que a circulação isolada de imagens e vídeos da ruína não sustenta. Surge uma questão mediano do livro: qual é, diante de uma violência amplamente visível e ao mesmo tempo politicamente neutralizada, o papel de artistas e intelectuais?

O título da obra aponta para o horizonte dessa reflexão. Quando certas violências entram definitivamente para a história, instala-se um fenômeno sabido: muitos dos que permaneceram em silêncio passam a declarar que sempre estiveram do lado notório da história.

O livro de El Akkad tenta registrar o presente antes dessa reorganização retrospectiva da memória. Ao leitor, fica o invitação incômodo para pensar sua própria posição moral diante de um genocídio. Não no horizonte, mas hoje mesmo.

Folha

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