Entrar na Encontro Marcado, uma pequena locadora de livros no segundo andejar de uma galeria em Ipanema, na zona sul do Rio de Janeiro, é porquê parar o tempo por algumas páginas. A experiência parece desafiar o ritmo depressa das novas formas de consumir livros.
Ocasião em 1996, a locadora mantém há três décadas uma forma de viver a leitura que parece ter ficado para trás. Por R$ 120 mensais, o leitor pode levar quantos títulos quiser, sem prazo. Há também uma modalidade de R$ 60 que permite levar um livro por vez. A teoria é simples: ler, voltar, trocar e estrear outra história.
“Leitura não tem prazo, tem prazer”, diz Ana Klajman, 83, bibliotecária aposentada que criou o espaço para continuar fazendo aquilo de que gostava: emprestar livros, conversar com leitores e ajudar a encontrar a próxima leitura.
É uma curadoria sem algoritmo. Ana conhece os clientes pelo nome, lembra o que já leram e, com o tempo, aprende a reconhecer seus gostos. Rita Benaderet, 74, publicitária aposentada, é uma das clientes. Assídua desde 2009, diz que boa secção do que lê hoje sai das estantes da Encontro Marcado.
“Dificilmente ela me recomendou alguma coisa de que eu não gostei. E tem muita coisa que você não acha mais em livraria, alguns clássicos e autores que eu nem conhecia. Ela foi me desvendando esse mundo todo”, conta.
A cliente afirma que nunca teve curiosidade de trocar o papel por outros meios de leitura. “Eu cresci analógica. O livro é um negócio gostoso que a gente não sabe explicar. Eu cresci com livros. Portanto o Kindle, por exemplo, não me atrai.”
Rita também diz encontrar ali uma vantagem prática: lê muito sem precisar transformar a mansão em livraria. “Se você colocar na ponta do lápis, é mais econômico. E você não tem um acúmulo de livros em mansão, porque chega uma hora em que não tem mais onde botar livro.”
O pilha da locadora tem muro de 12 milénio títulos, entre clássicos, lançamentos, literatura infantil, biografias e obras de história, cinema, teatro e verso. Há livros que já não são encontrados facilmente. Ana acompanha os lançamentos pelos jornais, pelos pedidos dos leitores e nas visitas semanais às livrarias. Hoje, diz ela, a campeã de empréstimos é Freida McFadden, autora de “A Empregada”.
Os livros são organizados pela Classificação Decimal de Dewey, sistema usado por bibliotecas para ordenar o pilha por assuntos e facilitar a localização das obras. Mas, depois de décadas entre estantes, Ana também guarda muita coisa na memória.
Filha de uma família judia que deixou a Europa durante a Segunda Guerra Mundial, ela chegou ao Brasil ainda menino. Aos seis anos, aprendeu a ler e grafar em português. Incentivada pelo pai, passou a ler jornais e livros desde cedo e logo se encantou pelo universo das bibliotecas.
O prazer pela leitura a levou a se formar em biblioteconomia e, mais tarde, à subchefia da Livraria de Copacabana, onde trabalhou por 27 anos. Quando a livraria fechou, Ana se aposentou. Tinha muro de 50 anos e não sabia o que fazer sem os livros e os leitores.
Depois uma sugestão de seu marido, em 20 de maio de 1996, nasceu a Encontro Marcado.
O nome também veio de um livro. Karen Klajman, filha de Ana, tinha muro de 22 anos quando pediu à mãe uma indicação de literatura brasileira. Ana sugeriu “O Encontro Marcado”, de Fernando Sabino. Karen se encantou com o romance, e o título acabou batizando a locadora. Anos depois da inauguração, o próprio noticiarista apareceu ali ao desenredar a homenagem e autografou exemplares de seus livros.
Karen, hoje com 54 anos, cresceu entre os livros da livraria onde a mãe trabalhava. Quando Ana decidiu penetrar a locadora, a filha tinha completo de se formar em engenharia química e descobria que não queria seguir naquela profissão.
“Eu sempre vivi lá na Livraria de Copacabana quando ela trabalhava. Criancinha, já ia muito, gostava muito daquele universo. Quando ela veio com essa teoria de querer penetrar a livraria, eu falei: ‘Eu quero fazer com você’. E foi logo que a gente começou.”
As duas trabalharam juntas por décadas. Há quase três anos, Karen se dedica à proteção bicho e não mantém mais a rotina diária na locadora, mas continua ajudando a mãe.
Durante a pandemia, quando a locadora precisou fechar, a filha entregava livros de bicicleta pela zona sul e recolhia os que já haviam sido lidos. O movimento, porém, nunca voltou ao que era antes.
Para Ana, a pandemia acelerou uma mudança nos hábitos de leitura. “Passou a pandemia, [vem] cada vez menos [gente]. As pessoas leem menos, veem muita TV, vivem o dia inteiro no celular. Jovem, jovem, muito pouco. Párvulo mais, porque a mãe pega livro para a menino. Mas jovem mesmo, muito poucos”, afirma Ana.
Aos 15 anos, Luisa Daylac é uma exceção. Ela começou a frequentar o espaço com mais regularidade no início deste ano e diz ler, em média, cinco livros por mês. Para ela, a experiência do livro físico é um diferencial. “Eu não consigo me apropriar a ler no Kindle, porque, para mim, é uma experiência completamente dissemelhante estar com o livro nas mãos. Você conseguir folhear as páginas, sentir o livro na sua mão, olhar a capote do livro.”
Luísa conta que outras adolescentes de sua escola também passaram a ler mais neste ano. Segundo ela, um grupo de muro de sete amigas costuma se encontrar na livraria durante o recreio e o almoço para ler, trocar livros e indicar uma às outras novas histórias.
A locadora hoje tem muro de 70 clientes fixos. Há leitores desde os primeiros anos e leitores que continuam voltando depois de mais de uma dezena. Segundo Ana Klajman, uma de suas primeiras clientes, hoje com 95 anos e mobilidade reduzida, ainda faz questão de ir ao espaço. Outro leitor, que se mudou para a região serrana do Rio, mantém o hábito por meio da nora.
Rita Benaderet está entre os que não pretendem despovoar o ritual. “Esses anos todos eu trouxe sempre muitos livros para mansão. E vai ser assim: enquanto ela estiver lá, eu estou junto.”
Ana abre a locadora de segunda a sexta-feira, mantendo a rotina de procurar títulos e lembrar preferências. O negócio não é sua nascente de sustento —é ela quem o mantém financeiramente. “Eu não vivo disso, mas é maravilhoso, minha vida. Eu sou plena cá.”





