Luiz Carlos Barreto, expoente do cinema brasílio, morre no Rio aos 98 anos
Morreu nesta quarta-feira (22) o cineasta Luiz Carlos Barreto, aos 98 anos, um dos grandes nomes da história do cinema brasílio. Sua atuação ajudou a mudar a forma uma vez que os filmes eram produzidos, financiados e distribuídos no país.
“Barretão” construiu uma trajetória de mais de 60 anos dedicada ao audiovisual, iniciada no Cinema Novo, com “Vidas Secas” e “Terreno em Transe”. Entre as mais de 100 obras que dirigiu ou produziu estão os campeões de bilheteria “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, “O Quatrilho” e “O Que É Isso, Companheiro” — com esses 2 últimos, levou o Brasil ao Oscar.
“O cinema é uma coisa útil, e não uma coisa fútil”, costumava expor Barretão.
Luiz Carlos Barreto estava internado desde segunda-feira (20) no Hospital Despensa Star, em Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Ele tratava uma infecção pulmonar decorrente de uma pneumonia.
O velório será realizado nesta quinta-feira (23), às 11h, no Palácio da Cidade, em Botafogo. Posteriormente a cerimônia, o corpo será cremado no Memorial do Caju.
O cineasta era casado há 71 anos com a também produtora Lucy Barreto. Ele teve 3 filhos, que seguiram a profissão: Bruno, Fábio e Paula — Fábio morreu em 2019, posteriormente permanecer em coma por 10 anos em decorrência de um acidente de sege no Rio, em 2009. Luiz Carlos também deixa 9 netos e 8 bisnetos.
De congraçamento com Paula, a saúde do pai vinha se deteriorando desde 2024, quando ele sofreu uma queda durante uma viagem ao Ceará.
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Luiz Carlos Barreto
Reprodução/GloboNews
Antes do cinema, o jornalismo
Luiz Carlos Barreto nasceu em Sobral, no Ceará, em 20 de maio de 1928.
O primeiro contato de Barreto com o mundo do cinema foi com Orson Welles, de “Cidadão Kane”, que viajou ao Ceará para filmar um documentário sobre jangadeiros que iriam até Getúlio Vargas pedir a regulamentação da profissão.
“Eu nem sonhava, tinha 12 anos de idade. Eu ia tomar meu banho de mar e, daqui a pouco, chega aquela equipe de gringos e se instala ali. Eu fiquei olhando, seduzido”, disse Barreto em entrevista ao programa “Conversa com Bial”.
Mas, antes de se tornar um dos maiores produtores do país, trabalhou uma vez que fotógrafo da revista “O Cruzeiro”, experiência que ajudou a moldar seu olhar para a imagem e para as histórias brasileiras.
Uma vez que repórter-fotográfico, Barretão chegou a correspondente da publicação na Europa, onde clicou celebridades uma vez que Frank Sinatra, o presidente cubano Fidel Castro e a atriz Marylin Monroe.
Início no Cinema Novo
Foi numa viagem à Bahia pela revista que conheceu Glauber Rocha, durante as filmagens de “Barravento”. O diretor, logo, o convidou para trabalhar — e isso foi fundamental para o Cinema Novo.
🔎Cinema Novo foi um movimento cinematográfico brasílio que surgiu no final dos anos 1950 e ganhou força nos anos 1960. Seu objetivo era mostrar a verdade social, política e econômica do Brasil, principalmente a pobreza, as desigualdades e os conflitos vividos pela população. O lema mais divulgado era “uma câmera na mão e uma teoria na cabeça” — mesmo sem muitos recursos financeiros, era provável fazer filmes importantes e transformadores, valorizando a originalidade e a reflexão sátira.
“O Glauber estava montando o ‘Barravento’ com o Nelson Pereira dos Santos e chegou para mim: ‘Você tem que fotografar o ‘Vidas Secas’, não é, Nelson?’. ‘Vocês estão malucos, eu não sei fotografar a não ser com a minha Leica”, narrou.
Segundo Barretão, Glauber insistiu. “‘Você vai fazer uma retrato que ainda não foi feita no Nordeste. Todo filme, o Nordeste parece um jardim.’ Concordei com ele. ‘Eu quero mostrar a intensidade da luz, a luz uma vez que um personagem que destrói a plantação, que incomoda o varão’”, lembrou.Curso de sucessos
Confira a trajetória do produtor Luiz Carlos Barreto
Começava ali uma trajetória de produções que revolucionaram a linguagem audiovisual do país. Depois de “Vidas Secas”, em 1963, veio “Terreno em Transe”, de Glauber, obra fundamental do Cinema Novo, em 1967.
Mas foi na produção que Barretão encontrou sua grande vocação. Tinha a capacidade de reunir talentos, viabilizar projetos e captar recursos para transformar grandes ideias em filmes que marcaram gerações.
Ao longo da curso, esteve primeiro de títulos históricos uma vez que “Garrincha, Alegria do Povo”, de Joaquim Pedro de Andrade; “Bye Bye Brasil”, de Cacá Diegues; e “Memórias do Cárcere”, adaptação da obra de Graciliano Ramos.
Seu maior sucesso de público foi “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, estrelado por Sônia Braga, produzido por Lucy Barreto e dirigido por Bruno Barreto. O filme bateu recordes de bilheteria e permaneceu por mais de 3 décadas uma vez que a produção brasileira mais vista nos cinemas.
Outro fenômeno foi “Menino do Rio”, que levou multidões às salas de exibição e ajudou a solidificar um novo padrão de filme voltado para o público jovem.
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Foto de registro de 18/12/2019 do diretor, fotógrafo e produtor de cinema, Luiz Carlos Barreto, durante sessão de fotos cedida ao jornal O Estado de S.Paulo em Botafogo, na zona sul da cidade do Rio de Janeiro (RJ).
Alex Ribeiro/Estadão Teor
Família dedicada ao cinema
Barretão, Lucy, Bruno, Fábio e Paula criaram uma produtora de cinema, a LC Barreto, e tocaram mais de 150 filmes.
“O cinema é uma doença que, quando dá, dá na família inteira. Eu costumo expor que a minha é a ‘Família Titanic’: se não der claro, vai pro fundo”, brincou.
Em vez do fundo, veio o topo. A família Barreto levou o Brasil 2 vezes ao Oscar: com “O Quatrilho”, dirigido por Fábio, e “O Que É Isso, Companheiro?”, de Bruno.
Quase foi desportista olímpico
O sobrenome “Barretão” veio do noticiarista Nelson Rodrigues, camarada de toda a vida e companhia nos estádios. Luiz Carlos era enamorado pelo Flamengo — e jogava muito.
“Eu era considerado craque. Era juvenil do Flamengo e fui convocado para a seleção que ia disputar a Olimpíada de Londres, em 1948. Éramos 30 atletas”.
Na quadra era o governo que financiava a delegação, e não tinha verba para mandar todo mundo. “Logo fomos cortados, e eu perdi a minha oportunidade de ser um vencedor olímpico.”
Foto de registro de 18/12/2019 do diretor, fotógrafo e produtor de cinema, Luiz Carlos Barreto, durante sessão de fotos cedida ao jornal O Estado de S.Paulo em Botafogo, na zona sul da cidade do Rio de Janeiro (RJ).
Alex Ribeiro/Estadão Teor
Fonte G1





