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Luiz Paulo Baravelli pinta corpos e formas impossíveis 23/05/2026
Celebridades Cultura

Luiz Paulo Baravelli pinta corpos e formas impossíveis – 23/05/2026 – Ilustrada

Nariz, boca e olhos recortados se encontram numa moldura em forma de rosto. Porquê num mosaico, cores diversas preenchem uma das “Caras” de Luiz Paulo Baravelli, série do artista de 83 anos que rompe limites geométricos de telas tradicionais.

Com relevos abstratos, esculturas que misturam materiais variados e nus femininos que aparentam se dissolver, o Núcleo MariAntonia da USP explora vários braços de seu trabalho, sabido por sobrepor técnicas e relações espaciais com o público.

Por isso, diz a curadora Maria Alice Milliet, “Rever Baravelli” não é uma panorâmica, imune a cronologia e simplificações. O fio condutor foi a multiplicidade do brasílico, que em 1970 fundou um influente meio de experimentação artística, a Escola Brasil.

Entre cromáticas da arte pop e traços de HQs, ela descreve um repertório atual, em diálogo com gerações mais jovens. “Ele se apropria de tudo, da história da arte, do cinema, da propaganda. Tudo se embaralha, oferecendo vitalidade e uma assinatura única.”

Nesse sentido, uma das salas põe à prova a formação arquitetônica de Baravelli. O espaço traz maquetes inusitadas, uma vez que a que sugere um bolo amarelo e vermelho, quadros de profundidade confusa, caso do tríptico com colunas planas e arcos tridimensionais, e esculturas que miram o teto.

“Passagem”, por exemplo, usa hastes metálicas para erigir um tipo de portal, que salta da parede e vem até o visitante. No meio, uma estrutura lembra um tronco tímido, revestida por pequenos galhos prateados. Ao fundo, um relevo cinza se estende pela parede.

É semelhante ao que se dá em “Limbo”. Na peça, um quadrângulo dividido em sete partes agride a parede em que se apoia —dele saem riscos pintados em acrílico, uma vez que rachaduras que se impõem pela galeria.

Perto dali, a pintura de uma paisagem distorce uma moldura retangular. A tela deformada se ajusta às pinceladas de Baravelli, que inclusive saltam para fora ao simbolizar uma vegetal.

Apesar da produção efusiva, há décadas o artista trocou o fúria urbano pelas árvores que cercam seu ateliê, em Carapicuíba, nos periferia de São Paulo. Hoje, inverte dias e noites com toda a calmaria e se dedica a exemplares menores, aos quais se refere uma vez que “pinturas-gato”.

São obras que, longe de “cachorros” agitados e que vão até os espectadores, exigem que os últimos se aproximem. Sejam cidades e silhuetas estilizadas, sejam contornos abstratos e ambientes oníricos, o conjunto é um repositório de projetos, com desenhos de locais e espécies que poderiam viver.

“Para vê-las, é preciso reduzir a velocidade”, afirma o responsável sobre o ritmo contemporâneo. “A aproximação precisa ser sutil, já que esses quadros não roubam o público para si. É um pouco análogo à filosofia —você precisa ir detrás dela.”

Ao comentar seu processo criativo, Baravelli cita Henri Matisse e compara a feitura a um jogo, do qual termo vem da roteiro do artista. Daí nascem matérias de naturezas diversas, arquiteturas que flertam com a falta de controle e decisões improváveis que geram trabalhos.

Não por eventualidade, em 1984, Baravelli deixou de usar a tinta e o acrílico com que pintava modelos, recorrentes em seu repertório desde o início. A técnica da vez foi a encáustica, que aproveita o calor da cera derretida para manipular pigmentos. Ela reduz a delicadeza do pintor e o deixa à mercê da superfície e sua temperatura.

O resultado foi uma prestigiada coleção de nus femininos frontais, expostas pela última vez há anos. Milliet destaca a vulnerabilidade dessas figuras, raramente retratadas por esse ângulo —com expressões melancólicas e expostas ao olhar de terceiros, elas preenchem cenários sombrios totalmente sozinhas.

Gotas de tinta dispersas ainda reforçam a imprevisibilidade da encáustica e sugerem corpos prestes a se desfazer. “São trabalhos zero eróticos, trágicos. Esses corpos espelham reflexões existenciais e um duplo do artista, que procura o que é simples e puro”, diz o artista.

No mesmo salão, corpos são estudados de outros modos. Num quadro, por exemplo, silhuetas femininas se confundem no calçadão de uma praia. São cores, formas, perspectivas e texturas que questionam os limites da biologia.

Noutra pintura, um rapaz e uma mulher de pele escura se misturam com o fundo preto. Ao volta, símbolos da Volkswagen tensionam as barreiras entre o varão e seus bens materiais.

“Vejo a superfície da pintura uma vez que ponto de encontro entre duas realidades —o artista e o mundo”, explica Baravelli. “Assim uma vez que questionamos o porquê das mulheres atraírem os homens, questiono o porquê da arte nos atrair.”

Folha

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