Marcello Quintanilha lembra carreira do pai em nova HQ – 09/05/2026 – Ilustrada
O quadrinista Marcello Quintanilha não guarda nenhuma memória positiva relacionada ao futebol. O esporte era um tabu durante sua juventude. Ele nunca teve reuniões familiares em torno de uma partida e não foi incentivado a torcer para leste ou aquele time. O término precoce da curso de seu pai, Hélcio Carneiro Quintanilha, jogador da equipe niteroiense Quina do Rio Foot-Ball Club, posteriormente uma lesão no termo dos anos 1950, resultou em amargura e ressentimento para ele e todos ao seu volta.
Quintanilha nunca viu glamour no futebol, mas enxerga no esporte “um agente capaz de metaforizar quase todos os aspectos da vida”. Seu álbum mais recente, “Eldorado”, é a peça de um quebra-cabeça pessoal em quadrinhos sobre a formação do Brasil do presente por meio do microcosmo de sua família e das desventuras futebolísticas de seu pai.
“Eldorado” é a primeira HQ longa do responsável desde “Escuta, Formosa Márcia”, lançada em 2021 e, em 2022, vencedora do prêmio Jabuti de melhor história em quadrinhos e do Fauve d’Or, principal prêmio do prestigioso Festival de Angoulême, na França.
O novo álbum retoma personagens e tramas de “Luzes de Niterói”, lançado em 2018, em mais uma história ambientada no mundo do futebol —porquê já havia feito em “Fealdade de Fabiano Gorila”, de 1999, “Sábados de Meus Amores”, de 2009, e “Almas Públicas”, de 2011, os três reunidos, há quatro anos, na coletânea “Alimenta Estes Olhos”.
“Os mecanismos de exclusão e jerarquia social estão no cerne da implementação do esporte no país”, diz Quintanilha sobre as motivações de sua investida no futebol porquê tecido de fundo de algumas de suas HQs.
“Eldorado” abre com um prólogo formado por 81 quadros, distribuídos em nove páginas, inspirados na literatura de cordel, narrando o envolvente social e político no qual a obra é ambientada e seus vínculos com o Brasil contemporâneo. Em seguida, o quadrinho segmento para a Duque de Caxias dos anos 1950 e o arrecadação de seu Alício, pai do jovem Hélcio.
A primeira segmento da obra retrata um dia no estabelecimento familiar em meio a um violação com reverberações a longo prazo, junto ao início de curso de Hélcio e suas expectativas profissionais. A segunda metade avança para 1974, no Brasil ditatorial, e mostra o desenrolar da trajetória do jogador em paralelo ao caso policial não resolvido de 20 anos antes.
Quintanilha diz que a obra é composta por proporções iguais de verdade e ficção. A segmento policial foi toda concebida pelo responsável, enquanto a saga futebolística de Hélcio é ancorada na veras.
“O personagem arquetípico que leva o nome do meu pai reverbera momentos-chave da história brasileira, considerando o impacto que a transformação socioeconômica do pós-guerra teve em certas zonas suburbanas”, afirma o responsável.
Ele caracteriza essa transformação porquê “a emergência financeira e cultural seguida do colapso econômico ocasionado pela mudança do eixo de circulação de mercadorias posteriormente a construção de Brasília, condenando antigos polos industriais ao desarrimo —fator que comprometeu grandemente o entorno no qual cresci, e cuja perspectiva histórica sempre foi uma das minhas principais fontes de inspiração.”
Os trabalhos de Marcello Quintanilha dialogam com a procura pelo retrato social de uma quadra que caracterizou o cinema do neorrealismo italiano. Se em “Escuta, Formosa Márcia” ele se direcionou ao teatro do contraditório e à obra do dramaturgo irlandês Samuel Beckett, em “Eldorado” ele se reaproxima dos ares documentais de “Tungstênio” (2014), “Talco de Vidro” (2015) e “Luzes de Niterói”.
Seu novo álbum é repleto de páginas de jornais que reforçam a ambientação da obra. Trata-se de uma escolha narrativa também ligada à sua formação.
“Meu primeiro contato com os quadrinhos ocorreu através dos jornais, com as tiras diárias e as páginas dominicais.” A prensa, segundo ele, está na origem da construção de sua linguagem pessoal.
“Todo meu conhecimento sobre anatomia humana e representação do movimento decorre exclusivamente das horas e horas que passava trancado em morada, observando as fotos das partidas de futebol nos jornais dos anos 1970 e 1980. Representações impossíveis da figura humana, transmitindo uma plasticidade muitas vezes antagônica à ação que estava sendo executada”, diz Quintanilha.
Os quadros, sempre irregulares e desnivelados, enfatizam sua versão desse elemento porquê “unidade narrativa” e “marco rítmico da leitura”, e soam porquê fotografias autônomas, ressaltando ainda mais esses ares quase documentais. Ainda assim, ele lembra, a ficção está sempre adiante.
“Zero é mais documental na façanha humana do que a ficção”, diz Quintanilha. “E eu tenho demasiadas dificuldades em me manter nos trilhos do documentário para enquadrar minhas histórias porquê a transcrição da vida deste ou daquele. Embora o real seja o ponto de partida, a ficção assume sempre as rédeas.”





