Memórias da Mostra de Cinema poderiam encher todo o jornal – 28/10/2026 – Ilustrada
Evento importante dos últimos 50 outubros da capital paulista, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo é secção do calendário cultural da maior cidade da América do Sul.
Acompanho a Mostra desde 1990. Ou seja, desde a 14ª edição. Primeiro, vendo um filme ou outro, conforme os compromissos da faculdade deixavam. Depois, com permanente integral comprada para ver os filmes com mais facilidade. E nos últimos 20 anos, porquê jornalista credenciado.
Foram muitas as sessões marcantes que presenciei ao longo desses anos todos. Algumas delas de filmes que hoje são quase impossíveis de se ver, ao menos em boa qualidade de imagem.
“O Rio dos Vagalumes”, 1987, de Eizo Sugawa, por exemplo, passou numa sessão antológica no Cinesesc, dentro da 20ª Mostra, em 1996, e nunca mais, até onde sei. Foi uma sessão que me fez transpor de pernas bambas de tanta emoção. Na trama, menino e moçoila pré-adolescentes se apaixonam. No orgasmo, eles se encontram perto do rio dos vagalumes, e a mágica se faz, mais uma vez, num filme referto de grandes momentos.
Nunca mais consegui rever levante que, na idade, considerei um dos filmes mais lindos que havia visto. “Raros Sonhos Flutuantes”, exibido na mesma edição, é quase tão bom e um pouco menos vasqueiro, pois a própria Mostra o reprisou em 2012, em homenagem ao cineasta Carlos Reichenbach, simpatizante de Sugawa, que acabara de falecer.
Outro filme que desapareceu e não encontrei nem em Buenos Aires foi “El Acto en Cuestión”, do grande cineasta prateado Alejandro Agresti, atração da 18ª Mostra. Agora até deve ter por aí. Mas passei anos tentando rever, sem sucesso, ao menos em cópias decentes.
Visto também no Cinesesc, esse filme meio surrealista de 1993 tem algumas das sequências mais marcantes que vi na Mostra. O conhecimento ulterior de outros filmes do cineasta, porquê “El Viento se Llevo lo Que”, exibido na 23ª edição, me diz que, na revisão, o sentimento seria o mesmo.
Também na 18ª edição, uma das mais importantes para a minha cinefilia, foi exibido o polonês “Corvos”, de Dorota Kedzierzawska, uma das maiores cineastas da Polônia. Uma moçoila de nove anos, negligenciada pela mãe prostituta, tenta reproduzir o que acha que deve ser o paixão materno com uma moçoila de três anos que raptou na vizinhança.
Expor que é tocante e sensível é permanecer só na superfície desse filme rememorável, felizmente disponível no YouTube com legendas em português, embora a qualidade da imagem não seja das melhores.
Esses filmes eram exibidos, pelo menos nos anos 1990, com legendas em inglês ou espanhol. Poucos eram os legendados em português, a não ser que já estivessem comprados por alguma distribuidora brasileira. Aos poucos, ainda nessa dez, as legendas eletrônicas deixaram os filmes mais acessíveis, e com isso o público aumentou.
Nos anos 1990, a Mostra ainda permitiu que vários cinéfilos, porquê eu, tomassem conhecimento de cineastas importantes porquê Theo Angelopoulos, os iranianos Abbas Kiarostami, Jafar Panahi e Mohsen e Samira Makhmalbaf, e os portugueses Manoel de Oliveira e João César Monteiro, entre muitos outros que frequentemente tinham filmes e até retrospectivas no evento.
Nesse vista, nenhuma edição supera a de 2005. Na 29ª edição, uma retrospectiva quase completa de filmes de Manoel de Oliveira distorceu a programação de muitos cinéfilos, que mergulharam nos filmes do gênio português, deixando de lado o gosto por filmes contemporâneos.
Praticamente todas as sessões foram especiais, mas destaco, por enquanto, três delas: as de “Paixão de Perdição”, longa antológico de 1979, com pouco mais de quatro horas de duração, “Francisca”, espécie de prosseguimento do filme de 1979, ambos completando a “Tetralogia dos Amores Frustrados”, e “Vale Abraão”, que me permitiu rever o filme que havia visto na 17ª edição com o mesmo maravilhamento.
Não poderia deixar de lembrar da sessão de “O Sapato de Cetim”, de 1985, dentro da mesma retrospectiva, em que fui um dos heróis que acompanharam a maratona cinematográfica oliveiriana baseada em Paul Claudel, numa sessão que durou oito horas e teve dois intervalos para dar conta dos 415 minutos desse monumento da conjunção entre literatura, teatro e cinema.
Na saída, espectadores na fileira para a próxima sessão olhavam assustados para os sete ou oito gatos surrados que saíam do cinema, estafados e maravilhados ao mesmo tempo. Foi uma sessão rememorável.
Dois anos antes, houve uma homenagem à morte de João César Monteiro, rebelde que desenvolveu com Oliveira uma relação de competição e pasmo mútua. Na ocasião, foi provável saber, entre muitos longas notáveis, sua obra-prima, “Silvestre”, de 1981, e “Branca de Neve”, o seu filme mais incerto —ambos exibidos na edição deste ano.
Esses são alguns dos momentos mais marcantes que a memória me traz, mas existem muitos mais, o suficiente para encher as páginas de todo o jornal.





