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Michael Douglas disseca papéis, a raiva e o sexo em
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Michael Douglas disseca papéis, a raiva e o sexo em livro – 04/11/2026 – Ilustrada

Seu cabelo tem mais sal do que pimenta. A testa é marcada por sulcos profundos. As sobrancelhas parecem ter vontade própria.

Mas os olhos de Michael Douglas continuam uma vez que sempre foram: azuis e próximos um do outro, com o olhar subtil que ele imprimiu à sua frase mais famosa —”A ganância é boa”—, uma vez que Gordon Gekko em “Wall Street: Poder e Cobiça”.

Outrora símbolo dos excessos dos anos 1980, Douglas, de 82 anos, voltou às raízes hippies —ao menos ideologicamente.

“Obsessões não são saudáveis. Precisamos reavivar uma filosofia baseada em tentar ajudar uns aos outros”, disse ele, inclinando-se para a frente uma vez que se quisesse enfatizar a teoria. “Treine-se para ajudar os outros.”

Estávamos no Estiatorio Milos, um enorme restaurante helênico no meio de Manhattan, para conversar sobre o livro de memórias de Douglas, “One Helluva Ride”, que foi lançado em outubro.

O restaurante ainda não havia lhano para almoço, mas os garçons circulavam atarefados, reabastecendo nossos copos d’chuva em intervalos cuidadosos, e Douglas foi educado, quase cavalheiresco, com cada um deles. Isso pode parecer o mínimo, mas diz um pouco sobre uma pessoa.

“Trabalhei para moca durante 55 anos”, disse Douglas, lançando um olhar orgulhoso para seu livro de 496 páginas, que ocupava uma cadeira própria à nossa mesa. “Isto é uma espécie de culminação.”

Algumas autobiografias de celebridades passam por cima das partes mais interessantes, oferecendo mais uma seleção de melhores momentos do que um retrato aprofundado. “One Helluva Ride” é um arrasa-quarteirão —íntimo e sem increpação, digno de um balde de pipoca com manteiga extra.

Com exceção de Clint Eastwood, Robert Redford e talvez George Clooney daqui a uma ou duas décadas, poucos atores e produtores tiveram a longevidade de Douglas.

Suas memórias abrangem tudo: seis décadas fazendo cinema (incluindo Oscars por “Wall Street: Poder e Cobiça” e “Um Estranho no Ninho”, que ele produziu com Saul Zaentz); duas gerações da realeza de Hollywood (o pai de Douglas, Kirk, abriu o caminho); dois casamentos (um turbulento; o segundo, com Catherine Zeta-Jones, “uma alegria e um conforto”, segundo ele); muitos, muitos casos amorosos (com Brenda Vaccaro, Jeanne Tripplehorn, Kathleen Turner, a colunista de opinião do New York Times Maureen Dowd, uma soldado israelense que ele conheceu à orla da estrada —a lista continua); muitas drogas (incluindo malas de “maconha” que Douglas vendeu para remunerar seus dois últimos anos na Universidade da Califórnia em Santa Barbara e uma farra memorável posteriormente a qual acordou com um canudo para cocaína ainda enfiado no nariz); e a paternidade, relatada com uma franqueza revigorante.

Cameron, o rebento mais velho de Douglas, passou sete anos na prisão por crimes relacionados a drogas, dois deles em confinamento solitário. As descrições de Douglas sobre aquele período —e sobre as batalhas de Cameron contra a submissão de heroína— estão entre os trechos mais poderosos do livro, que é tanto uma história familiar quanto uma envoltório do tempo de determinada estação.

“Eu não estava muito presente, logo também carrego minha culpa em relação a Cameron”, disse Douglas, referindo-se aos anos difíceis em que ele e sua primeira esposa, Diandra Luker, viviam em costas opostas do país.

Alguns minutos depois, ele atendeu a uma chamada de FaceTime da filha de 23 anos, Carys Zeta Douglas, que estava filmando nas Ilhas Canárias. A conversa foi rápida e cativante — “Criancinha? Oi, querida”, disse Douglas, com o rosto iluminado por um sorriso de brancura ofuscante.

Mas, posteriormente desligar com a promessa de retornar a relação mais tarde, ele voltou sem rodeios ao tópico em tarifa: um boato de tabloide de 34 anos detrás, segundo o qual, em 1992, ele teria se internado em uma clínica de reparação por submissão sexual.

Na verdade, estava na Sierra Tucson, no Arizona, para se livrar do vício em drogas, e ainda se ressente por ter sido traído por outros pacientes, dos quais falou com desprezo. O mesmo vale para os paparazzi que seguiram seus filhos até a escola quando ele teve cancro.

“Fiquei puto de verdade”, disse Douglas.

Há muito disso em “One Helluva Ride” —Douglas se irrita com Oliver Stone no set de “Wall Street: Poder e Cobiça”; com Steven Soderbergh, quando quase perde para Harrison Ford seu papel em “Traffic”; com Kathleen Turner, quando ela contrata Roy Cohn para representá-la num processo relacionado a “A Joia do Nilo”; e assim por diante.

O livro contém 22 ocorrências da termo “fuck” e uma relato impressionante de palavrões menos pesados. Também não é pudico em relação ao sexo —o que não surpreende, considerando que Douglas contracenou com Sharon Stone no thriller erótico “Instinto Selvagem”. E não nos esqueçamos de “Atração Inevitável”, com sua cena no elevador e aquela que vai da mesa da cozinha à bancada e, depois, ao quarto.

Também há muita nudez nas memórias, tanto diante quanto longe das câmeras; ao que parece, Douglas dispensava as roupas enquanto vivia em uma comunidade escolha durante a faculdade. Seu pai, que o visitou no auge da própria glória, achou perdão ao desenredar que o lugar não tinha vaso sanitário.

Pessoalmente, Douglas parecia mais bem-arrumado do que em vídeos recentes no Instagram, nos quais seu cabelo muitas vezes exibe um ar de investigador maluco à la Doc Brown, de “De Volta para o Horizonte”.

Vestia uma camisa azul impecavelmente passada, e o cabelo estava penteado para trás num estilo que só pode ser descrito uma vez que o chique de um medalhão. Por justificação de um tumor do tamanho de uma noz removido de sua língua 16 anos detrás, sua voz mudou ligeiramente —continua rouca uma vez que sempre, mas agora soa uma vez que se ele falasse com um chiclete Bubble Yum dentro da boca.

O diagnóstico de cancro de gasganete em estágio 4 levou Douglas a encarar a própria mortalidade —”Eu me perguntei se minha sorte havia completo”, escreve ele— e a valorizar de outra forma os amigos que ficaram por perto.

“Há um pouco no cancro que faz as pessoas não quererem permanecer perto de você”, disse. “Fiquei surpreso com o número reduzido de pessoas que entraram em contato. Elas não sabem o que manifestar.”

Uma pessoa de quem recebia notícias regularmente era Shane Salerno, roteirista que ele conheceu no início dos anos 2000 e que lhe enviou uma série de mensagens provocando Douglas por ser um ator de televisão pouco sério e por viver à sombra do pai —duas acusações que o perseguiram no prelúdios da curso.

“Tentei lembrar Michael de que, toda vez que alguém lhe dizia que ele não conseguiria fazer alguma coisa, ele provava que essa pessoa estava errada”, disse Salerno em uma entrevista.

Depois de alguns meses recebendo essas mensagens irreverentes, Douglas finalmente respondeu: “Continue mandando, rebento da puta!!!!”

Ele disse: “Fiquei realmente comovido. Significou muito para mim.”

Quando Salerno levantou pela primeira vez a teoria de colaborarem em um livro de memórias, há uma dez, Douglas recusou. Estava ocupado; não era o momento claro. Mas seu pai havia escrito memórias, assim uma vez que sua mãe e seu rebento Cameron —logo talvez fosse uma tradição de família? Depois, posteriormente interpretar Benjamin Franklin na série “Franklin”, da Apple TV+, em 2024, Douglas deu uma pausa na atuação e começou a pensar em seu legado.

Questionado sobre uma vez que vê esse legado tomando forma, deu de ombros, demonstrando consciência de si mesmo.

“Uma média de rebatidas muito boa”, disse Douglas. “Um revérbero da minha estação. Um revérbero do que estava acontecendo.”

Ele e Salerno se uniram a Michael Fleming Jr., jornalista da Deadline e da Variety que havia entrevistado Douglas às vésperas da publicação de uma reportagem do The Hollywood Reporter com acusações de Susan Braudy, ex-funcionária que afirmou ter sido maltratada e submetida a assédio sexual por Douglas décadas antes.

Douglas reconheceu ter usado linguagem obscena na presença de Braudy, mas negou as alegações de que teria se masturbado diante dela e usado sua influência para impedi-lá de trabalhar no setor. Ele não aborda o tópico nas memórias.

Em nossa entrevista, Douglas disse que o item de Fleming o ajudou a “se antecipar à história”.

Os três trabalharam no livro em quartos de hotel, por telefone e em centenas de chamadas pelo Zoom. Salerno e Fleming realizaram mais de 40 entrevistas, com Zeta-Jones, os filhos de Douglas, Danny DeVito, Glenn Close e uma série de outras fontes. Selecionaram 10 filmes nos quais queriam se concentrar, juntamente com a evolução de Douglas, de rebento de uma estrela a protagonista por valor próprio, com muitas dificuldades pelo caminho.

“One Helluva Ride” está repleto de antigos ressentimentos e aventuras —a vez em que Douglas preteriu o pai para o papel principal de “Um Estranho no Ninho”, decisão que levou anos para ser superada; a vez em que Luker flagrou Douglas com uma amante não identificada em um quarto do Beverly Wilshire; a vez em que ele cheirou cocaína por uma nota de dólar enrolada com O.J. Simpson, numa sarau depois da sarau do “Saturday Night Live”; a vez em que insultou Julia Roberts em termos obscenos numa sarau do Orbe de Ouro; a vez em que Debra Winger mordeu seu braço e, com isso, perdeu o papel principal em “Tudo por uma Esmeralda”.

O papel foi para Turner, com quem Douglas teve um romance durante as filmagens.

“Alguns relacionamentos íntimos serão revelados cá pela primeira vez”, escreve Douglas no prólogo de suas memórias. “Liguei para cada uma das mulheres envolvidas e pedi permissão para relatar nossa história.”

Durante nossa entrevista, Douglas pareceu mais romântico do que libertino, conduzindo repetidamente a conversa de volta à família, à qual o livro é devotado.

“Comecei a perceber uma vez que a família realmente é importante”, disse ele. “É isso que nos mantém unidos.”

Falou com carinho da mãe, Diana Dill, atriz bermudense que preenchia com caneta o jogo de palavras cruzadas do Sunday Times, e também do pai.

“Meu paixão por ele cresceu à medida que nós dois envelhecemos”, disse Douglas. “Juntos, papai e eu somamos 80 anos no ramo, 160 filmes. Ele dizia: ‘Michael, se eu soubesse que você teria tanto sucesso, teria sido mais gentil’.”

Douglas falou sobre a fúria que herdou do pai: “Eu costumava recorrer à raiva uma vez que uma falsa nascente de vigor. A raiva dá vigor”, disse. Mas a idade, o sucesso e um casório perpétuo amenizaram tudo isso: “Encontrei muito mais alegria e sossego com Catherine em todos esses anos que estamos juntos e me envolvi menos com o trabalho.”

Ele está infeliz com a situação do mundo —nossa política fragmentada, nosso distanciamento da teoria de muito público que foi um princípio norteador para ele nos anos 1960, mesmo sendo um rebento do privilégio.

“Oriente é o período mais difícil de que consigo me lembrar em toda a minha vida”, disse Douglas, soando mais uma vez que um avô preocupado do que uma vez que o sujeito que costumava festejar com Jack Nicholson e Jann Wenner. “Sou otimista e realmente tento manter a esperança, mas estou profundamente assustado.”

Ainda assim, Douglas tem opiniões firmes: “Deveríamos destinar uma parcela desses orçamentos militares a iniciativas que promovam o muito. Tentar revitalizar o Corpo da Silêncio. Tentar reduzir as desigualdades no chegada a condições de vida dignas e à instrução.”

Logo, ele pareceu se dar conta do que estava dizendo.

“Eu senhoril nascente país”, disse Douglas. “Eu me sinto muito patriota. Mas precisamos convencionar. Simplesmente precisamos convencionar. Isso não está bom. E acho que estou falando uma vez que alguém que sobreviveu ao cancro. Mas o tempo está lindo, não é?”

Folha

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