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Minhocão recebe última sessão do Grupo Esparrama 10/10/2026
Celebridades Cultura

Minhocão recebe última sessão do Grupo Esparrama – 10/10/2026 – Mise-en-scène

Uma árvore no núcleo de São Paulo cresceu o bastante para tapar a visão de um palco que funcionava no peitoril de um prédio. Em vez de recorrer à serra elétrica ou negociar podas com o poder público, os artistas decidiram simplesmente acomodar a mudança da paisagem.

No dia 12 de outubro, às 16h, o Grupo Esparrama realiza a última sessão de “Esparrama pela Janela”, peça que desde 2013 transformou o asfalto do Proeminente Presidente João Goulart, o Minhocão, em plateia. A despedida gratuita encerra um ciclo de 101 apresentações que reuniram mais de 25 milénio pessoas sentadas na pista.

A saída de cena imposta pela natureza soou menos uma vez que um revés logístico e mais uma vez que uma consequência originário da proposta do coletivo. “Não queremos que o teatro seja uma barreira para aquilo que está acontecendo na cidade”, explica o diretor Iarlei Rangel sobre a recusa em disputar espaço com os galhos.

Para ele, penetrar mão do ponto de vista foi um gesto de saudação aos ritmos da metrópole: “Em vez de podá-la ou tentar gerar uma solução para restaurar a vista, escolhemos deixar que ela siga seu caminho. É uma maneira de reconhecer que a cidade também produz acontecimentos que não estavam previstos na nossa dramaturgia”.

A relação com o viaduto nasceu por mero eventualidade, quando palhaços da companhia colocaram o rosto para fora a termo de tomar fôlego entre os ensaios de outro trabalho. “O primeiro momento, o que realmente foi casual e inusitado, aconteceu quando os palhaços pararam para tomar um ar na janela e perceberam que somente sua presença já criava um encantamento que convidava as pessoas a parar em frente à nossa janela”, lembra o encenador.

A partir daquela fagulha, o grupo passou oito meses estruturando uma dramaturgia em que um morador, exausto do estrondo urbano, decide metamorfosear a balbúrdia em melodia, dando passagem a seres fantásticos, monstros e serenatas.

Com o tempo, a pesquisa extrapolou a primeira peça e virou trilogia, confrontando a frieza do concreto com as demandas dos pedestres mais jovens. A própria história do viaduto, historicamente marcado pela degradação, foi posta em xeque pelo olhar infantil. “Esse viaduto é uma obra que violentou o núcleo da cidade de São Paulo e que passou a ser ressignificada, há décadas, a partir do momento em que a população passou a ocupá-la uma vez que se ela fosse seu próprio quintal”, ressalta Rangel, apontando que o teatro serviu para convocar os passantes a “sentar no asfalto, olhar para as arquiteturas e sonhar outras possibilidades de cidade”.

O impacto da experiência foi oficializado em 2021 com a entrega da Placa do Inventário Memória Paulistana pelo Departamento do Patrimônio Histórico. Para o diretor, a láurea chancela a força de uma mediação cênica desprotegida da infraestrutura convencional das salas de espetáculo: “Para nós, é a prova de que o teatro, mesmo efêmero, mesmo precário, tem o poder de mobilizar imaginários e se estabelecer enquanto memória relevante para a disputa pela cidade”.

Segundo Rangel, o contato com o público mirim ensinou que “nós, adultos, muitas vezes deixamos de aprender com as crianças a folgar, imaginar outras possibilidades e testar novas relações”.

A apresentação final no Minhocão pretende transformar o proeminente num relicário coletivo a firmamento cândido, recolhendo os relatos e afetos de quem cresceu assistindo às cenas do lado de fora. O grupo, todavia, já testa outros horizontes: encenou em janelas do Núcleo Cultural Banco do Brasil e do Museu do Ipiranga, e prepara incursões diretamente no piso das praças.

Quanto ao endereço onde tudo começou, o adeus não soa irrevogável. Rangel prefere manter o olhar sereno voltado para o envolvente: “Torcemos para que a árvore tenha muita saúde e, quem sabe, um dia libere novamente a janela para que o Teatro de Janela possa voltar, renovado, com outras perguntas e outras possibilidades de encontro com a cidade”.

Esparrama Pela Janela – A Despedida – 12 de outubro, segunda-feira, 16h. Minhocão (Proeminente Presidente João Goulart), entre as alças de aproximação do Metrô Santa Cecília e da Rua da Consolação. Nestes pontos haverá sinalizações indicando o sítio da apresentação. Em caso de chuva o espetáculo não será apresentado. Classificação: livre. Duração: 40 minutos. Gratuito.


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Folha

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