Entre as atrações mais fascinantes da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo está a seleção de filmes restaurados, que apresenta às novas gerações tanto obras de diretores mais conhecidos uma vez que Patrício Guzmán e Andrzej Wajda uma vez que outras que merecem ser descobertas.
Nascente texto se concentra no segundo grupo. Nele está, para iniciar, o gaúcho “Vento Setentrião”, de 1951. Dirigido por Salomão Scliar, o longa foi recentemente restaurado pela Cinemateca Capitólio, um cinema de Porto Contente.
É um belo filme tortuoso. Tem uma montagem caótica e atuações engessadas. Mas a força das imagens nunca soa uma vez que um artifício para impressionar. Pelo contrário, é necessário para nos colocar naquele mundo estranho onde um forasteiro bagunça a vida de duas mulheres e, por consequência, de todo o vilarejo.
Filme de pescadores, um ano antes do português “Nazaré”, de Manuel Guimarães, com o qual apresenta semelhanças, “Vento Setentrião” é impactante visualmente, no modo uma vez que mostra a venustidade originário do litoral brasiliano –foi rodado na cidade gaúcha de Torres. Poucos filmes brasileiros se igualam a ele nesse quesito: penso em “Limite” e “Barravento”.
Outro filme que deveria ser mais venerado é “Despedida de Ontem”, o primeiro longa do repórter, professor e diretor Alexander Kluge, nome necessário do cinema moderno, que morreu neste ano. Realizado em 1966, a obra confirmava a força do cineasta e sua posição de ponta no cinema germânico da idade, numa geração que logo revelaria diretores importantes uma vez que Werner Herzog e Rainer Werner Fassbinder.
Kluge foi um dos principais líderes da geração do “Manifesto de Oberhausen”, de 1962, espécie de enunciação de guerra ao cinema feito na Alemanha da idade. Uma das frases comumente associada aos assinantes do manifesto foi transformada em slogan: “O cinema do papai está morto”.
Em “Despedida de Ontem”, fundamentado em seu próprio raconto, investiga a desolação de uma mulher da Alemanha Oriental tentando sobreviver no lado ocidental, entre empregos malsucedidos e pequenos crimes. Filme de explosão da modernidade, num nível de Godard ou Nagisa Oshima, prepara o caminho para outra obra-prima de nome gracioso: “Artistas Sob a Cúpula do Circo: Perplexos”, de 1968.
Do cinema nipónico dos anos 1970, depois da “nuberu bagu”, uma das maiores manifestações de cinema moderno do mundo, vem um dos filmes do cultuado cineasta Junya Sato: “O Trem Projéctil”, de 1975. Filme de ação com investigação policial na traço do “Firmamento e Inferno” de Kurosawa, embora menos talentoso.
Um criminoso coloca uma explosivo por baixo de um trem. Se a velocidade do veículo diminuir até um limite estabelecido, a explosivo é maquinalmente detonada. O longa inspirou o hollywoodiano “Velocidade Máxima”, de 1994, que, ao mesmo tempo, potencializa e vulgariza algumas ideias do filme nipónico.
Numa zona intermediária está “A Moradia do Selva”, de 1971, obra pouco conhecida de um cineasta gaulês festejado: Maurice Pialat. São seis horas filmadas em 16 mm para a ORTF, televisão pública francesa, e exibidas em sete partes de 50 minutos aproximadamente.
Pialat disse em entrevistas que prefere esta minissérie entre tudo que realizou. Não é difícil entender por quê. Trata-se de um tesouro escondido do cinema gaulês. Começa uma vez que uma pintura impressionista: um soldado volta para mansão ao som da música de Maurice Ravel —músico, aliás, considerado impressionista.
Somos apresentados ao professor, vivido pelo próprio Pialat, e a seus alunos, dos quais três acompanharemos com mais proximidade: os meninos Hervé, Michel e Bébert. A pedagogia é clara: é preciso entender a história da França, o porquê das cores na bandeira, o que representam, a prestígio do país.
Conforme escreveu Mathieu Darras no dossiê que a revista francesa Positif dedicou ao diretor em 2004, a minissérie “oferece a chance única de visitar os lugares de memória que fundam a pátria: a igreja, a escola republicana, o moca da povoação, o marquês e seu forte, o tropa em guerra…” Vale a pena reservar algumas horas para ver esta joia de Pialat.
Sobre “Aurora”, de F. W. Murnau, o que mais manifestar? É um filme muito festejado, mas menos do que deveria. Seus admiradores parecem já ter uma boa bagagem da história do cinema, enquanto os cinéfilos das novas gerações nem sempre o consideram, talvez por ter sido lançado há quase século anos.
Trata-se de um filme incontornável de 1927, um dos mais reverenciados do cinema mudo, do cinema germânico e de tantas outras categorias que se queira. Todo mundo que trabalha com cinema deveria ver e rever, pois é uma prelecção que transcende o expressionismo, movimento com o qual Murnau é geralmente associado devido a “Nosferatu”.
Seu cinema era um padrão para Hollywood, sobretudo “A Última Gargalhada”, filme extremamente inventivo de 1924, que ensinou uma vez que se filmar em ininterrupção. William Fox, o maioral da Fox, saiu na frente e convidou Murnau para filmar em Hollywood.
Era generalidade o cineasta receber visitas no pavilhão da Fox em que “Aurora” estava sendo filmado. Mestres uma vez que John Ford e Howard Hawks, além de inúmeros diretores de retrato, queriam ver o gênio germânico em ação.
Na trama em que a moça da cidade vai ao campo encontrar seu amante, um varão casado que deixou a rancho e a família de lado por momentos de luxúria, temos um pouco de todo o drama humano. Em um momento memorável, um cachorro pula o portão e corre em direção ao navio para evitar uma tragédia. É somente uma das sequências inesquecíveis de um filme-farol para o cinema.
Por termo, são imperdíveis as sessões com os oito filmes, entre médias e curtas, do rabi armênio Artavazd Pelechian.





