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'Onde Repousar Meus Olhos' elogia a beleza da concisão
Celebridades Cultura

‘Onde Repousar Meus Olhos’ elogia a beleza da concisão – 20/10/2026 – Ilustrada

Depois de dez anos, Sang-hee —uma mulher vivida por Kim Min-hee— é levada pelo irmão para visitar a vivenda da mãe na turística Ilhéu de Jeju, na Coreia do Sul. A matriarca prosperou naquele lugar, onde é dona de uma pensão e de um restaurante concorrido, tanto que nem consegue levar sua família para consumir nele.

Mas logo um quarto elemento se anuncia —seu novo marido, um documentarista vivido por Kwon Hae-hyo. Ele é uma das causas para a moça ter prorrogado tanto essa viagem. Outra é a própria relação espinhosa com a mãe, insatisfeita com o trajo de ela ter um trabalho meia-boca e gastar o tempo livre fazendo curtas experimentais.

O hobby faz Sang-hee ter sempre à mão uma câmera do dedo, que empunha ao prever lampejos de venustidade no seu caminho, uma vez que ela conta ao padrasto, num passeio à praia.

Mas ele vai pelo caminho contrário. Seu último trabalho registrou um grupo de estudantes ao longo de dez anos; agora, ele está há dois acompanhando um “chobun”, um ritual funerário em que se deixa o corpo dissolver em um túmulo de palha. É um gesto de gratidão da família do morto, mas o que lhe interessa é o diálogo com os vivos.

O drama familiar e o debate artístico podem parecer desconexos, mas se cruzam com perdão em “Onde Repousar os Meus Olhos”, em exibição na Mostra de Cinema de São Paulo. Com unicamente uma hora e dez minutos, o filme é mais um louvor do diretor Hong Sang-soo à brevidade, evocando, por vezes, a concisão e o mistério de um haicai —ou, melhor dizendo, de um “sijô”, a tradicional forma poética coreana trabalhada em três versos.

O longa também é dividido em três partes, que correspondem aos três dias da estada dos irmãos. Cada segmento é anunciada por um letreiro, que descreve as condições climáticas do dia —nublados ou com qualquer Sol, gelados ou um pouco mais frescos, todos marcados pela possante vento litorânea.

Ainda que seja sucinto, esse talvez seja um dos mais prolixos filmes de Sang-soo, graças à narração em off de Sang-hee. A moça é muito dissemelhante do irmão, Sang-won, interpretado em chave patética por Shin Seok-ho. Gerente de uma grande empresa, ele abaixa a cabeça para os caprichos da mãe e não parece se incomodar com o padrasto.

Uma vez que o caçula, o varão mais velho tem um pouco cômico. Não à toa, na sua primeira cena, ele tropeça numa pequena escada do quintal e passará o resto do filme mancando.

É costumeiro que, nos filmes de Sang-soo, acidentes uma vez que esses se confundam com os rumos da trama. Roteiro e casualidade vão se atropelando em frente à câmera, atenta ao clima das conversas, em que um mínimo zoom pode mudar a percepção do testemunha ao longo de extensas tomadas.

As cenas são escritas à quente, muitas vezes na véspera ou no dia de gravação. Isso garante um fluxo de naturalidade, de introdução ao improviso, sem deixar de lado o rigor que salta aos olhos nos instantes finais.

A maioria delas capta conversas casuais —várias à mesa ou em passeios ao ar livre—, permeadas pelo desconforto. A mãe escuta as decisões da filha, mas dissimula sua reprovação, sugerindo que ela se mude e venha trabalhar na ilhéu; a moça, por sua vez, não é regateira, mas tem opiniões firmes, ao contrário do irmão.

Num almoço, por exemplo, depois de uns tragos, ela critica a produção de documentários parciais sobre o conflito Israel-Palestina. É um gesto de lavagem cerebral, ela diz, em que cada um insiste na sua verdade. Em outra ocasião, conversando com a filha do documentarista, uma aspirante a artista plástica, ela diz que, para se acalmar diante da morte, ela lembra que a perpetuidade é unicamente uma vocábulo —isto é, o que vale é o presente.

É difícil, em momentos uma vez que esses, não ouvir a voz do próprio diretor —até o nome da personagem, Sang-hee, sugere essa fusão entre Sang-soo e Min-hee, um parelha na vida real. Esse é o 13º longa dos dois juntos, uma dezena depois o primeiro, “Manifesto Agora, Falso Antes”, e também o 13º com Hae-hyo, que faz o padrastro, ator também medial em seu trabalho recente.

Talvez por isso a relação entre os dois personagens, mesmo pontual, evoque a força de Sang-soo para além de um herdeiro do cinema do galicismo Éric Rohmer. Prolífico, com uma média de dois filmes por ano na última dezena, ele vem mostrando que seu trabalho se dá não unicamente pela fração, mas pelo acúmulo.

Em retrospectiva, seus trabalhos podem ter elementos similares —atores, enquadramentos, histórias—, mas o prazer reside nas pequenas variações e em uma vez que elas encaminham o testemunha por um multíplice jogo narrativo, em que um título pode nos remeter a outro. E “Onde Repousar os Meus Olhos” é um dos mais comoventes nesse espelhamento, sobretudo quando comparado a “O Filme da Escritora”, de 2022, e “O que a Natureza te Conta”, do ano pretérito.

Na terceira segmento, Sang-hee sai para um passeio matutino sozinha, enquanto a mãe, o padrasto e o irmão ficam em vivenda e decidem ver um dos vídeos da moça. Nessa hora, a câmera permanece neles, mas o testemunha escuta o áudio. Sang-hee narra o encontro com uma flor à ourela da estrada, que teria dito a ela: “Eu aceito tudo. Sou tranquila. Sempre consigo gostar de um pouco, independentemente de tudo”.

Ao final, sem entender, a mãe comenta: “É limitado”. Os dois homens saem, Sang-won decide ir buscar a mana, e a mãe decide rever o vídeo. Nessa segunda vez, a imagem também preenche a tela.

Mais que uma referência a um curta do próprio Sang-soo —”Small Flower”, disponível no YouTube—, essa flor parece remeter à própria natureza do cinema: momentâneo e perene enquanto tivermos olhos livres para ver.

Folha

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