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Mostra revê mulheres que lutaram pelo fim da escravidão
Celebridades Cultura

Mostra revê mulheres que lutaram pelo fim da escravidão – 02/11/2026 – Ilustrada

Vendedora de charutos, Adelina aproveitava a liberdade de circulação proporcionada por seu trabalho para atuar uma vez que informante do movimento libertador do Maranhão nos anos 1870 e 1880. Esperança Garcia, escravizada, redigiu em 1770 aquela que é considerada a primeira petição jurídica do Brasil, ao pedir para voltar para a quinta de origem devido aos maus-tratos infligidos a ela e aos filhos pelo novo feitor.

Muro de um século antes, Aqualtune ajudou a liderar o quilombo dos Palmares, o maior e mais longevo do continente americano —Zumbi, cuja data de morte marca o feriado da Consciência Negra, comemorado neste mês, descende dela, neto de convenção com algumas fontes, sobrinho-neto com outras.

Essas são algumas das oito mulheres resgatadas pela exposição “Abolicionistas Brasileiras”, em papeleta no Museu Pátrio de Belas Artes, o MNBA, no meio do Rio de Janeiro.

A lista se completa com a escravizada Anastácia, que se tornou um símbolo da insubmissão negra; Luiza Mahin, genitora de Luiz Gama; Maria Felipa, pescadora que lutou pela independência do país; Maria Firmina dos Reis, autora do primeiro romance libertador brasiliano; e Maria Tomásia Figueira Lima, uma das fundadoras de uma sociedade cearense contra a escravidão formada exclusivamente por mulheres.

A aspecto de quase todas elas é desconhecida —com exceção da última, que é também a única branca do conjunto. Segundo Ana Carla Soler, curadora da mostra, a escassez de registros pictóricos contribuiu para que elas fossem tratadas por muito tempo uma vez que reles mitos, lendas. “Só sabemos a história dessas personagens por culpa da oralidade, da resistência da população negra”, ela diz.

Soler conta que a exposição teve origem em um pedido de um colecionador à organização em que ela trabalha, o Instituto Artistas Latinas. Incomodado com a baixa representatividade de artistas negras em seu ror, ele solicitou um projeto para comissionar nomes com esse perfil a produzir obras para ele.

A entidade decidiu logo invitar oito artistas brasileiras, cujas pesquisas já envolviam o resgate da história negra no país, para homenagear mulheres que contribuíram para o término da escravidão. Cada artista escolheria uma personalidade feminina numa lista de figuras mapeadas pelo instituto. Em seguida, se comprometeria a narrar sua biografia com uma obra, usando o suporte, a linguagem e a técnica que desejasse.

Quando os trabalhos foram finalizados, o Artistas Latinas percebeu que tinha uma exposição em mãos. Propôs logo ao MAR, o Museu de Arte do Rio, exibir aquela que seria a encarnação inicial de “Abolicionistas Brasileiras”, em 2024.

As obras formam um conjunto bastante diverso, com cada artista buscando imprimir os próprios interesses ao simbolizar sua homenageada. Roberta Holiday, cuja produção frequentemente aborda o tema da mobilidade, mas no espaço urbano, pinta um Atlântico vermelho rodeado de búzios, amuletos de proteção nas religiões africanas, para ilustrar os caminhos de Luiza Mahin entre a África e o Brasil —ela é a inspiração por trás da personagem-título do romance “Um Defeito de Cor”, de Ana Maria Gonçalves.

Mariana Maia, que costuma homenagear suas ancestrais lavadeiras usando cestos e bacias uma vez que suporte para suas pinturas, segmento de retratos falados de Maria Felipa, marisqueira que lutou contra a tentativa de Portugal de manter a Bahia sob seu domínio depois a independência do Brasil, em 1822, para mostrá-la ora uma vez que Iansã, ora uma vez que Iemanjá.

Já Thaís Iroko —que inaugurou recentemente uma mostra ali perto, no Palácio Gustavo Capanema— buscou se aproximar de sua retratada, Anastácia, pela via sensorial. A ilustração mais popular da escravizada a mostra com a boca coberta por uma mordaça, uma punição por possuir se rejeitado a ter relações sexuais com seu senhor. “Assim uma vez que ela teve sua voz silenciada, pensei o que eu poderia silenciar em mim para me aproximar dela”, diz a artista.

Optou, enfim, pela visão, e pôs duas telas lado a lado. Em uma delas, pinta um retrato mais ou menos tradicional de Anastácia, dotando-a de uma língua afiada para simbolizar sua insubmissão. Em outra, procura repetir os movimentos que havia realizado na pintura anterior, mas com os olhos vendados. As duas são exibidas na mostra uma vez que um díptico.

As peças encomendadas para exaltar as abolicionistas estão no cerne da mostra. Mas elas não são as únicas a integrarem a exposição, tendo sido postas em diálogo com trabalhos que refletem sobre o que aconteceu depois da cessação a partir da ancestralidade, dos direitos básicos e da espiritualidade.

Soler conta que essas outras produções foram incluídas na coletiva quando ela começou a itinerar pelo país, um trajectória que incluiu mais três instituições —o Mamam, Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, no Recife; a Moradia de Cultura da América Latina, em Brasília; e o CCSP, o Meio Cultural São Paulo, na capital paulista.

Em cada uma dessas montagens, a seleção anterior foi acrescida de trabalhos de artistas locais, além de itens do ror da instituição anfitriã. Por isso, a versão atual da mostra é também a mais populosa, com 47 artistas participantes.

Soler afirma que esses outros trabalhos mostram, em última instância, uma vez que a cessação continua em curso. Ela ecoa a posição de diversos pesquisadores contemporâneos de que só se poderá considerar que a escravidão chegou ao término quando construirmos uma sociedade verdadeiramente igualitária em termos raciais.

“Enquanto vivermos com o racismo, é uma vez que se ainda estivéssemos na cessação”, diz.

Folha

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