Notícias Favoritas

O seu portal favorito de notícias na Internet

Mulheres sabem votar e governar 08/07/2026 Marcelo Rubens
Celebridades Cultura

Mulheres sabem votar e governar – 08/07/2026 – Marcelo Rubens Paiva

Quando Temer assumiu a Presidência em 2016, ao lado da advogada Marcela, a “bela, recatada e do lar”, a retrato de um ministério exclusivamente masculino parecia a lisura de um portal para o pretérito. Nostalgia é sintoma de fracasso.

Dava-se o alerta de que o tempo de uma mulher ter direitos iguais ou presidir um país passaria a ser questionável. A mensagem subliminar da derrubada da Dilma, considerada arrogante, foi essa —”permitimos” que uma mulher assumisse o comando da nave sem rumo na crise das commodities, a marola da quebra financeira global de 2008 virou tsunami, ficamos à deriva e tivemos que, numa feijoada completa, com Supremo, PIB, agro e tudo, arrumar o convés.

A maioria dos conservadores implica com tudo. Casais homoafetivos, trans em banheiros públicos, peças e exposições que questionam valores cristãos, indígenas, cotas identitárias e, sobretudo, com as mulheres.

A vaga agora é tutorar a instrução domiciliar, uma vez que se mães não trabalhassem. Volta o odor de ideais absolutistas —um tanto supra de tudo, supra de todos. Tem até bolsonarista afirmando que mulheres votam mal.

O problema dos conservadores é com o horizonte. Querem preservar no presente a falta de direitos individuais do pretérito. A Suprema Incisão americana, ao lucrar maioria conservadora, derrubou o precedente constitucional estabelecido em 1973, o recta ao monstro, um dos maiores avanços do movimento feminista.

Se um cidadão tem uma crença religiosa dissemelhante da defendida pelo líder, entra numa quesito invisível. Cultos africanos são bombardeados. Católicos e protestantes continuam em discordâncias há mais de 500 anos.

Os ideais do campo conservador remetem à Idade Média. Um exemplo é a escolha de um ministro do Supremo: sua fé e conhecimento bíblico são checados tanto quanto seu conhecimento jurídico.

Não se usa mais o termo heresia. Não se queimam protestantes, uma vez que na incisão de Henrique 8º. Mas uma guerra santa agita os bastidores da política brasileira.

Henrique 8º passou a vida tentando controlar sucessões e mulheres. Ironia da história: quem deu firmeza ao reino foi justamente uma delas.

Ao morrer, sua filha Maria 1ª, católica, sanguinária, que queimou protestantes e ficou conhecida por “Bloody Mary” —lembrai isso na próxima vez que tomar o drinque—, foi substituída por sua meia-irmã, Elizabeth 1ª, protestante.

E foi Elizabeth 1ª quem organizou um reino dividido, derrotou a Armada Espanhola —do reino mais rico da Europa—, viu o teatro de Shakespeare florescer e governou por 44 anos, na chamada era de ouro do reino.

Outra mulher que brilhou no poder foi Maria 1ª de Portugal. Assumiu num país destroçado por um terremoto, pela depravação e intransigência política. Afastou Marquês de Pombal, libertou presos políticos, reabilitou perseguidos, entre eles jesuítas, e arrumou a economia.

Segundo o livro de Mary del Priore, “D. Maria I”, Portugal recuperou as finanças e voltou a registrar superávits comerciais.

Mas Dilma virou rabugenta, e Elizabeth 1ª tinha problemas com homens, porque se recusava a matrimoniar com monarcas desconhecidos e usar seu corpo uma vez que contrato de alianças políticas. Foram desqualificadas pela história patriarcal.

Uma vez que Maria, “a generosa”, que virou “a louca”, por conta de uma melancolia justificável —em meses perdeu o marido, a mãe, seu fruto mais velho e herdeiro, José, um neto herdeiro do trono espanhol, e soube de decapitações de amigos e parentes na Revolução Francesa.

Se dependesse dos conservadores, Elizabeth 1ª não teria existido, Catarina, “a grande”, nunca teria governado, Angela Merkel não teria comandado a maior economia da Europa, e Gro Harlem Brundtland não teria mudado a forma uma vez que o mundo pensa o desenvolvimento sustentável.

Além do mais, gays são convidados a voltar à invisibilidade. No governo de direita da primeira-ministra Giorgia Meloni, a Itália endureceu as restrições aos direitos parentais de casais do mesmo sexo, limitando o reconhecimento permitido de seus filhos.

Na Flórida, governada por republicanos, uma lei permite que médicos e profissionais de saúde recusem atendimentos com base em objeções religiosas, morais ou éticas, o que resulta na recusa de atendimento a pessoas LGBTQIA+.

Para muitos, o horizonte é terrificante —o da revolução do dedo, robôs, internet das coisas, precarização de certezas, a incógnita chamada lucidez sintético, que deixará milhões obsoletos e, desconfiamos, é melhor do que nós mesmos.

De sobra, tem a crise climática. Não dá para descer do embarcação. Voltemos ao tempo em que meninos vestiam azul e meninas, rosa. Voltemos séculos? Não. A história costuma postergar a quem olha para trás.

Folha

LEAVE A RESPONSE

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *