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Murakami se repete em 'A Cidade e Suas Muralhas Incertas'
Celebridades Cultura

Murakami se repete em ‘A Cidade e Suas Muralhas Incertas’ – 08/07/2026 – Ilustrada

Talvez o maior pavor para um romancista do porte de Haruki Murakami, possessor de uma obra tão vasta e único, seja o risco de se repetir e se tornar uma caricatura. Seu novo romance, “A Cidade e Suas Muralhas Incertas”, põe o leitor diante dessa questão.

Trata-se da reafirmação de uma identidade autoral, uma elegante variação dos temas que marcaram sua obra? Ou de uma insistência nas características que “deram patente” em outros momentos, sinal do esgotamento de uma forma e de uma visão de mundo?

No livro, Murakami encara esse risco e investe na repetição porquê método. O romance secção de uma romance publicada em 1980, depois renegada pelo responsável, e lança um olhar retrospectivo sobre sua própria obra.

O que havia naquela história, escrita há mais de 40 anos, que ainda se sustenta? O que permanece, para o próprio Murakami, porquê uma imagem incontornável? O que acontece quando um jornalista já consagrado retorna a uma narrativa de juventude não exclusivamente para corrigi-la, mas para desenredar o que continuou a acompanhá-lo?

Murakami volta, assim, às cidades muradas, às bibliotecas, aos homens sem nome, às mulheres desaparecidas, aos fantasmas, aos Beatles, aos animais enigmáticos e às passagens entre mundos.

Em seus melhores momentos, o romance reafirma a habilidade de Murakami para erigir atmosferas em que cotidiano e fantástico convivem sem choque. A cidade murada se torna uma imagem do luto: um lugar protegido da dor porque é protegido também do tempo e da mudança. Nela, zero pode ser perdido, mas tampouco um tanto novo pode intercorrer.

A questão é que esse manuscrito de 1980 já havia sido reescrito em “O Termo do Mundo e um Impiedoso País das Maravilhas”, lançado em 1985. Os dois livros partem da mesma cidade, de suas muralhas, de seus unicórnios e da separação entre o varão e sua sombra, mas desenvolvem esse material de maneiras bastante diferentes.

Enquanto no romance mais vetusto encontramos um jornalista vigoroso, de imaginação excessiva, mesclando ficção científica, policial e fantasia num enredo de grande densidade emocional e alegórica, no novo livro vemos um Murakami mais contemplativo, escrevendo com uma lentidão que por vezes se torna enfadonha.

Murakami já não parece interessado na velocidade ou no choque entre gêneros, mas na permanência das imagens e na maneira porquê elas retornam transformadas pelo tempo.

A repetição logo se torna o ponto do livro: o narrador não consegue desistir seu primeiro paixão, não consegue desistir sua cidade, e o romance inteiro se organiza em torno da pergunta sobre porquê trespassar de um mundo imaginário que durante décadas ofereceu abrigo.

O problema é que essa aposta nem sempre produz a intensidade esperada. O romance retoma informações que o leitor acabou de receber e insiste didaticamente no significado de suas principais imagens. Personagens explicam uns aos outros acontecimentos já narrados, refletem demoradamente sobre as muralhas, as sombras e a fronteira entre os mundos, porquê se o livro não confiasse na força de suas próprias metáforas.

A segunda secção se alonga em cenas que prometem contemplação, mas nem sempre acumulam força emocional; a terceira, em contraste, parece curta e abrupta. A sentimento é de que um processo de edição mais firme poderia ter preservado a lentidão sem permitir que se transformasse em redundância.

“A Cidade e Suas Muralhas Incertas” talvez seja, ainda assim, um dos livros mais íntimos de Murakami. O jornalista pergunta que nunca conseguiu deixar aquele texto vetusto para trás. Sua história editorial reproduz sua própria material: um livro sobre a repetição a partir de uma narrativa que retornou repetidamente ao responsável.

O resultado pode ser lido porquê uma variação sinfônica de seus temas, agora executados num curso mais lento. Mas deixa a sentimento de um romance protegido demais dentro do universo que Murakami construiu para si.

Suas muralhas conservam a singularidade de sua voz, ao mesmo tempo que dificultam a ingressão de qualquer elemento verdadeiramente novo. Mais do que se repetir, o risco de um responsável desse porte talvez seja apaixonar-se demais pela própria obra.

Folha

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