Musical de ‘Feliz Ano Velho’ traduz rebeldia dos jovens – 19/09/2026 – Ilustrada
É uma vez que se os corpos estivessem carregados de eletricidade. Sobre o palco, eles dão piruetas, fazem acrobacias e saltam de um lado para o outro. A lentidão com que o suor escorre pela testa dos artistas contrasta com o movimento frenético de pés, mãos e quadris. É uma coreografia tão febril e convulsiva quanto o rock oitentista que ressoa pelo cenário.
Em edital a partir deste sábado (19) no Teatro Sabesp Frei Caneca, na região medial da capital paulista, o músico “Feliz Ano Velho” verte em som e movimento a rebeldia de uma juventude ávida por prazer e liberdade. Ao longo do espetáculo, a força anárquica da dança se mistura ao espírito libertário da música.
Não por contingência, essa liga entre rebeldia e hedonismo permeia o livro de mesmo nome que deu origem ao espetáculo. Escrita por Marcelo Rubens Paiva, colunista da Folha, a obra tem uma vez que ponto de partida o acidente que o deixou tetraplégico aos 20 anos.
O incidente aconteceu em 1979, quando Paiva pulou no comporta de um sítio à extremo da rodovia dos Bandeirantes, em Campinas, no interno paulista. Ele bateu a cabeça no fundo do reservatório, quebrou a quinta vértebra cervical e comprimiu a medula. Depois do salto, a vida daquele jovem boêmio e popular deu uma guinada.
Embora narre as consequências do acidente, o livro é muito mais do que um relato sobre a tragédia.
Ao longo das páginas, o plumitivo deixou de lado o tom lacrimoso para entregar ao leitor uma narrativa lisérgica carregada de sexo e drogas. Com uma escrita direta e coloquial, ele salpicou o texto com gírias e palavrões, prática pouco usual na literatura da idade.
Com essa ousadia temática e estilística, o trabalho se firmou uma vez que um fenômeno editorial. A estimativa é que tenha vendido mais de 1 milhão de exemplares desde o lançamento, em 1982.
O músico tenta reproduzir esse mesmo atrevimento. “O que quisemos trazer para a encenação foi uma novidade forma de fazer teatro músico”, diz Gustavo Barchilon, diretor do espetáculo.
A experimentação cênica, aliás, já estava presente na primeira montagem de outra adaptação para os palcos, que estreou no ano seguinte à publicação do livro na capital paulista. Dirigida por Paulo Betti, com texto de Alcides Nogueira, a produção se tornou célebre ao misturar drama, circo, comédia e romance.
Mais de quatro décadas depois, o texto da dramaturga Marilia Toledo almeja atualizar essa inventividade.
Para isso, o músico deixou de lado o naturalismo e a ordem cronológica para flertar com o teatro pós-dramático. Formulado pelo crítico e acadêmico teutónico Hans-Thies Lehmann, o noção faz referência a obras que rompem com a linearidade em obséquio da fragmentação narrativa.
Isso se faz sentir já nos primeiros minutos, quando vemos a internação do personagem de Paiva, vivido por Hugo Bonèmer. No hospital, os sedativos lançam o jovem em uma lesma de devaneios.
Em meio à suspensão da veras, o porvir se insinua na narrativa por meio da versão de Bruno Garcia, numa versão mais velha do protagonista. O mesmo artista nos conduz ao pretérito quando encarna o ex-deputado Rubens Paiva, pai do plumitivo, assassinado pela ditadura militar, em 1971.
Outro elemento que rompe com o naturalismo é a presença de câmeras, que, em determinados momentos, refletem a ação em telões. Esse meneio ao fazer cinematográfico também remete a uma atmosfera de preservação da memória.
De certa forma, foi isso o que Paiva fez ao registrar em “Feliz Ano Velho” os seus medos, anseios e inquietações. O livro, porém, narra não somente a vida de um jovem, uma vez que de uma geração.
Era uma juventude que chegava à vida adulta enquanto a ditadura se aproximava de seus estertores finais. Para quem lutou contra o regime militar, esses jovens eram alienados, apolíticos e consumistas. É a tal geração Coca-Cola de que falava Renato Russo na célebre música do Legião Urbana.
Não à toa, a tira é uma das canções que integram o repertório do músico, ao lado de “O Tempo Não Para”, de Cazuza e Arnaldo Brandão, e “Vida Louca Vida”, de Lobão e Bernardo Vilhena.
O diretor, porém, diz que o espetáculo não está circunscrito aos anos 1980. “Por mais que tenham sido lançadas nessa idade, são músicas atemporais.” Para evitar essa verosímil limitação, apostou-se numa cenografia neutra. O principal elemento cênico são as escadas, com as quais o elenco durante as performances.
Em alguns momentos, elas remetem a jaulas e a obstáculos que acentuam o imobilismo e o isolamento do plumitivo. Em outros, são uma vez que plataformas para os atores saltarem. “Isso é tudo o que as pessoas não esperam. A peça é sobre uma pessoa que está na cadeira de rodas, mas o trabalho tem muito movimento.”
Por falar nisso, a escalação de atores não cadeirantes para viver Paiva foi meta de críticas. Artistas com deficiência afirmaram que a decisão reforça a falta de oportunidades desse grupo.
Questionado, o diretor diz que era importante ter no elenco artistas com deficiência. Esses profissionais estão representados por meio de Luciano Mallmann, que é cadeirante, e Sabrina Korgut, que tem baixa mobilidade em uma das mãos—ambos em papéis coadjuvantes. “Mas nenhum deles está restringido a personagens definidos por sua deficiência.”
Barchilon diz ainda que a linguagem teatral da montagem é muito baseada em aspectos físicos. “É uma dinâmica que exige uma grande movimentação dos protagonistas. Por essa razão, eu escolhi esses dois atores para os papéis principais.”
Um dos intérpretes do plumitivo, Hugo Bonèmer afirma que o espetáculo exige dele também um grande cabedal de emoções.
Em uma cena, o ator está tomado pela alegria em uma sarau ou pelo prazer durante um encontro romântico. No momento seguinte, esse pretérito açucarado se dissipa para dar lugar à veras árida do leito hospitalar.
O espetáculo também demanda certa desenvoltura para o humor ácido que permeia o livro. “A gente está fazendo escolhas muito minuciosas de vocábulo para provocar essa risada, que é de constrangimento, mas também é positiva. Ela traz reflexão e empatia.”
Boa secção dos diálogos cômicos acontece quando Bruno Garcia entra em cena para viver o plumitivo em sua período madura. A partir do embate entre as duas versões do mesmo varão, surgem tiradas corrosivas e mordazes.
“Marcelo é um rosto que não romantiza as coisas. Ele traz uma situação trágica, mas mantém a autocrítica e o humor”, diz Garcia. Falta de romantismo, porém, não quer proferir falta de utopias. “A peça fala muito sobre as questões que sempre estarão na voga, ou seja, a rebeldia e o libido por um mundo melhor.”
Essa verve política ganha força com a atuação de Heloísa Périssé, no papel de Eunice Paiva. Mãe do plumitivo, a advogada se lançou em uma procura pelo marido depois que ele foi levado de morada por agentes do regime militar. Retratada no filme “Ainda Estou Cá”, essa jornada é recontada também no músico.
“Ela já perdeu o marido e está com um rebento de 20 anos perguntando se vai voltar a marchar”, diz Périssé, atriz que construiu uma personagem multidimensional. “Ela deve ser possante, mas, ao mesmo tempo, maternal e acolhedora. Pus a Eunice em uma risca tênue.”
Com o suporte da mãe, Paiva passou por um longo processo de reparação para se ajustar à cadeira de rodas. No espetáculo, a revolta pelo que aconteceu aos poucos dá lugar ao libido de se reinventar por meio da literatura. É uma vez que diz um dos personagens da peça. Marchar, finalmente, não é a única forma de caminhar.





