‘Na Sala dos Espelhos’ expõe pressão estética em SP – 19/09/2026 – Mise-en-scène
Sabe quando você acorda, olha no espelho e ele parece te julgar? Pois é. “Na Sala dos Espelhos” pega essa sensação e joga no palco sem piedade. Carolina Manica está lá, sozinha, com um texto que nasce dos quadrinhos de Liv Strömquist, e a gente entende rapidinho que a coisa não é sobre vaidade fútil. É sobre sobrevivência.
A peça não quer dar sermão. Ela quer entreter de pensar. E a reinação é séria. Michelle Ferreira e Maíra De Grandi pegaram o experimento visual da sueca e transformaram numa história de mãe e filha. A mãe está na menopausa, sentindo o corpo mudar de marcha. Nina, a filha, tem 11 anos e já aprendeu a se olhar uma vez que se fosse um resultado com validade curta. Uma no declínio do valor de mercado, a outra entrando na vitrine. As duas presas na mesma insídia.
O cenário é uma moldura estreita, tipo quadrinho vivo. Fábio Namatame fez figurinos que não competem com o corpo, e Caetano Vilela desenha luzes que ora parecem a tela fria do celular, ora um amplexo no escuro. Ava Rocha e Grisa criam um som que pulsa uma vez que notificação. Você sente o celular vibrando no bolso mesmo com ele desligado.
Carolina Manica grita, ri e se desmonta. No auge, vira a madrasta da Branca de Neve. Aquela mesma, do espelho mágico. Só que agora a gente entende que ela não é vilã. É uma mulher que descobriu que só valia enquanto fosse jovem e formosa. Uma precursora das influenciadoras. A peça não pede desculpas por ela. Só mostra o quanto é cruel depender de aprovação alheia para subsistir.
A diferença entre a imagem que você posta e a presença que você é. Esse é o nó. A sociedade dos algoritmos quer que a gente performe o tempo todo. A peça propõe desligar os refletores. Admitir a finitude. Trocar a sublimidade virtual pela imperfeição real. E faz isso sem oração de autoajuda. Com humor erosivo, corpo suado e uma atriz que não tem pânico de parecer ridícula.
No término, “Na Sala dos Espelhos” não te dá um espelho novo. Te dá um martelo. Para quebrar o revérbero e ver o que sobra quando a imagem se desfaz.
Três perguntas para…
… Carolina Manica
Uma vez que nasceu o libido de levar o pensamento de Liv Strömquist para o palco? O que na obra dela te fisgou primeiro?
O que me fisgou primeiro na Liv foi sua capacidade de falar de coisas complexas de um jeito pop, engraçado e atingível, sem diminuir a complicação do tópico. Ela faz você rir e, ao mesmo tempo, perceber que está rindo de um pouco que talvez nunca tivesse questionado sob aquela ótica.
Ao ler o livro, tive um libido momentâneo de levar aquele pensamento ao palco. Tinha uma certeza: queria fazer um solilóquio — decisão muito questionada, já que a HQ tem milhares de personagens. Mas uma vez que?
Na adaptação de Michelle e Maira, havia a preocupação de que o texto não virasse uma lição ou uma palestra. Portanto criaram a personagem da mãe, que costura a história — e aí temos drama, uma vez que diria Caetano Vilela, e teatro. A teoria era que essas questões aparecessem no corpo, no humor e na relação com o público, e não em projeções de imagens.
A sincronicidade da vida na arte é surpreendente. Tenho uma filha jovem e, aos 45 anos, entro na menopausa. Somos obra e vida em revérbero — o que atribuo também a uma grande sacada das dramaturgas e diretoras. “Na Sala dos Espelhos” nasceu desse libido: transformar uma reflexão sobre corpo, venustidade, envelhecimento e nossa relação com a própria imagem em experiência teatral.
O espetáculo trata de espelhos, celulares e algoritmos. Você já se pegou refém desse ciclo de validação do dedo? Uma vez que foi encarar esse revérbero nos ensaios?
Com certeza. Seria hipocrisia fazer a peça uma vez que se eu estivesse imune ao problema. Também olho uma foto e me pergunto se estou formosa, se estou envelhecendo, ou se deveria ter escolhido outro ângulo. Conheço muito a sofreguidão de esperar por uma curtida. Uma vez que artista, a vontade de aprazer é ainda mais latente.
O processo ficou rico justamente porque não existe um “nós contra eles”. Não são somente os algoritmos ou a indústria da venustidade agindo sobre nós; nós também alimentamos essa engrenagem e cobramos de nós mesmas aquilo que aprendemos a desejar. O palco é um espelho desconfortável porque expõe essa incongruência humana: você pode entender racionalmente que um padrão é contraditório e, mesmo assim, continuar querendo se encaixar nele.
Tem qualquer espelho que você ainda não conseguiu quebrar?
Vários. Eu não saio de cena imune a tudo isso. A cobrança para parecer jovem, disposta e formosa continua cá dentro, e seria ingênuo proferir que o espetáculo me curou.
O que mudou foi a rapidez com que percebo a insídia. Eu ainda caio nela, mas agora reconheço o mecanismo na hora. No término, talvez o objetivo nem seja quebrar todos os espelhos, mas aprender a olhar para eles de outro jeito. O transe nunca foi a existência do revérbero, e sim a ilusão de que ele define quem nós somos.
Livraria Mário de Andrade – Rua da Consolação, 94, República, região mediano. Segunda, 19h. Até 5/10. Duração: 60 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Gratuito, com retirada de ingresso 1 hora antes do início do espetáculo.
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