Natércia Pontes: Pude enfim sepultar minha mãe com livro – 27/06/2026 – Ilustrada
Jocasta, a protagonista de “Vida Mel”, não tem esse nome à toa. Sua força transborda da ficção para a biografia de sua autora.
Jocasta vive a meia-idade “sepultada em seu próprio pretérito”, presa a uma memória calcificada do dia em que a mãe morreu. Ela tinha sete anos e era a rapariga magrelinha que amava Balão Mágico, Xuxa e Sérgio Mallandro. Ainda mal sabia ler. A notícia a atravessou “feito feitiçeira às gargalhadas no indiferente das férias de julho”: nunca mais veria a mulher que a batizou com o nome da rainha que se enforcou em “Édipo Rei”.
É a mesma tragédia grega que a mãe da escritora Natércia Pontes levou ao teatro. Atriz de origem, aquele foi seu primeiro e último trabalho na direção. A filha tinha nove anos quando ela se matou.
“Fiz esse jogo de mortes semelhantes”, diz a cearense que, também pela Companhia das Letras, já havia lançado dois outros livros. “Uma vez que se a mãe de Jocasta já prenunciasse seu rumo ao nomear a filha, deixando grudado nela um estigma porquê piche. O suicídio de uma mãe é um estigma tão brutal que perdura por gerações e gerações numa família.”
Nos últimos anos, Natércia deixou algumas pistas literárias de porquê a carência materna a moldou porquê autora. Já escreveu sobre a sensação de “reprofundar sem escafandro no rio Tietê” quando se propôs a debulhar à força “sentimentos preciosos e cobertos de espinhos”. O tirocínio deu em “Vida Mel”.
Também já falou sobre o retorno de um vocábulo esquecido ao seu léxico cotidiano, quando engravidou das gêmeas Olga e Madalena, nove anos detrás: “Ai, porquê antes eu queria que a vocábulo mãe voltasse a ser um pássaro que sobrevoasse a minha sala”. Voltou a ouvi-la ainda no pré-natal das filhas, quando começou a ser chamada de “mãezinha”.
O luto é ponto de partida e de chegada do segundo volume do que Natércia labareda de Trilogia da Desordem —no primeiro, “Os Tais Caquinhos”, ela lida com lembranças do pai. O meio desse caminho tortuoso é que faz da prosa de Natércia um tanto tão único.
A narrativa contrapõe o traumatismo de uma filha marcada pela perda da mãe e a rotina performática de Jovana, influenciadora do dedo que compartilha uma vida doméstica idealizada.
Jocasta sente uma conexão obsessiva com Jovana, chegando a refletir diante de seu espelho tripartido: “Somos uma? Somos duas? […] Vivas ou mortas? Somos quantas?”.
À primeira vista, as duas não poderiam ser mais diferentes. Jocasta tem uma rotina reclusa na quitinete que divide com seu gato, Argos Panoptes. Mais um batismo zero gratuito: é o nome do mítico gigante de século olhos, que tudo via o tempo todo.
Ela passa boa segmento do dia em seu sofá verde-maçã, arroxeando a boca com vinho barato e catalogando os contos que escreve em três categorias: Muchacho, Bicho e Serra. Guarda-os em caixas de sapato no topo do armário.
Já Jovana, explica a autora, “veio dessas influencers do YouTube, um nicho colossal de tradwives que descobri quando estava tentando engravidar”. São mulheres que emulam em estética e oração a esposa tradicional: bela, recatada e do lar.
“Muitas cenas bonitas e ternas me fisgaram nessa imensa pesquisa que durou muitos anos”, diz Natércia. “Eu, de certa forma, vivia a vida dessas mulheres. Uma mãe lavando e tratando com muito zelo o cabelo crespo das três filhas. Dois bebês de uma influencer dançando com o estrondo do ventilador. Uma youtuber catando quiabos maduros do quintal do assentamento para incrementar o feijoeiro.”
Ela fez sua Jovana imersa num universo onde quase tudo é rosa. Ela envelopa eletrodomésticos com papel contact dessa cor. Utensílios de cozinha, toalhas de crochê, panelas e até sua Bíblia seguem a mesma paleta.
Tem um marido motoboy, sobrenome Mozão, e Duda, a filha, que vira teor para as redes sociais. Uma frase que sempre repete aos seguidores: “Não esqueça de se inscrever no meato, deixar seu like e ativar o sininho de notificação”. Todo mundo conhece uma Jovana.
A influencer exerce fascínio sobre Jocasta, mas também evoca desprezo. É alguém que certamente nunca sentiu “o cheiro de um Chanel Nº 5 original”, que mora num apartamento pequeno e com laje compartilhada, onde se exibe estendendo as roupas no varal. O entorno tem ruas íngremes repletas de fiação pendurado e estabelecimentos comerciais humildes, porquê o salão de formosura Sobrasheilla e uma pet shop “caindo aos pedaços e regurgitando um shitzu de lacinhos”.
A maioria das influenciadoras que a inspiraram eram de classe C, conta Natércia. Talvez por isso Jovana tenha saído assim, e Jocasta também. “O teor das ricas por qualquer motivo não me capturava. No termo serviu para marcar mais ainda o contraste entre as duas. Jocasta tem laivos de classismo, mas um classismo ambivalente, que vem do ressentimento e da ternura.”
Sua obra porquê um todo segmento de um processo que a autora labareda de escrita-colagem, um tanto intuitivo e fragmentado. Não foi dissemelhante com “Vida Mel”. Incorporou textos seus antigos, um de quando tinha 23 anos. Os microcontos que Jocasta reproduz iam abastecer um outro livro que Natércia, hoje com 46 anos, acabou abandonando.
Tem ali também um pedaço do rock dos anos 1990, “em peculiar a figura suicida e magnética do Kurt Cobain”. “E tem a biografia do Nijinski [coreógrafo russo], que foi o livro que minha mãe estava lendo quando morreu. A peça ‘Édipo Rei’, o último projeto dela. ‘Persona’, do Ingmar Bergman.”
Para Natércia, “Vida Mel” foi um meio para “mondar um tanto muito idoso e mal resolvido, que foi o suicídio da minha mãe”. Não foi fácil. “Sofri muito escrevendo leste livro, mas ao terminá-lo sinto que pude enfim sepultar minha mãe. Não fui ao enterro dela.”
“Ironicamente”, repara a autora da Trilogia da Desordem, “escrevo para pôr ordem na minha vida interno”.





