A trajetória de Nathalia Timberg se mistura à história do teatro brasiliano. Ao longo da curso, estrelou montagens célebres de “Senhora dos Afogados”, de Nelson Rodrigues, e de “Querubim de Pedra”, do americano Tennessee Williams, passando por companhias que ajudaram a redefinir os rumos da dramaturgia pátrio, a exemplo do Teatro Brasiliano de Comédia, o TBC.
É uma relação tão umbilical com a ribalta que a possibilidade de uma aposentadoria parece pouco provável. Aos 97 anos, Timberg continua inquieta, curiosa e incansável. “Quanto mais a gente alcança alguma coisa, mais queremos ir adiante. Acho que é uma particularidade de nós todos”, afirma a artista. “Somos seres em procura.”
No caso de Timberg, essa procura deu origem à peça “Fôlego”, espetáculo em papeleta no Sesc Santo Amaro, na zona sul de São Paulo. Escrito mormente para a artista, o espetáculo faz secção de uma série de projetos que celebram os seus 90 anos de curso.
Entre as iniciativas, estão um tributo que a TV Orbe deve lançar no ano que vem, um documentário dirigido por Hermes Frederico e uma exposição que entrará em papeleta em 4 de novembro, no Núcleo Cultural Correios, no Rio de Janeiro.
Com direção de Ricardo Grasson e texto de Andréa Bassitt, “Fôlego” traz Timberg na pele de Rosa, idosa que comandou um teatro ao lado da mana e do cunhado por décadas.
Em seguida a morte dos dois, ela se vê com dificuldades para manter o espaço de pé em razão de problemas financeiros. O teatro, enfim, não consegue atrair público porquê antigamente.
Diante da decadência desse espaço, a sobrinha de Rosa, personagem de Carla Marins, propõe que a tia venda o imóvel a uma igreja para se livrar do problema. Essa transação é desaprovada por Laura, afilhada da idosa, vivida por Rita Elmôr.
O espetáculo, portanto, mostra um cabo de guerra em que interesses divergentes põem em xeque a sobrevivência física do teatro —tema, aliás, bastante atual.
Nos últimos anos, espaços teatrais em São Paulo fecharam as portas por problemas financeiros ou disputas judiciais. Um dos casos mais célebres foi a demolição do Teatro de Contêiner pela prefeitura, em março deste ano. A gestão municipal afirmou que o terreno onde o espaço ficava será talhado a um hub de moradias sociais.
A ação, porém, gerou protestos e foi meta de críticas por agentes culturais. Diante de situações porquê essa, há quem questione se o teatro continuará sobrevivendo no horizonte. Timberg, no entanto, é otimista em relação a esse objecto.
“Meu querido, o teatro é das atividades humanas aquela que mais discute o ser humano”, afirma a atriz, para quem a dramaturgia é uma arte gregária por vantagem. “Quando nós entramos em cena e fazemos espetáculo, o coletivo vira um só. Todos voam em direção a essa coisa incrível que é conceber do zero alguma coisa que vá mexer com alguém.”
São palavras de uma atriz que deu os primeiros passos na dramaturgia ainda petiz. Filha de um pai holandês e de uma mãe belga, Timberg se aproximou da atuação por influência de Olavo de Barros, diretor que era colega de sua família. Foi ele quem convenceu a mãe da atriz a deixá-la fazer uma ponta no filme “O Grito da Mocidade”, de Raul Roulien. Desse modo, aos seis anos, Timberg conquistou o primeiro papel da curso, em 1936.
No primícias da vida adulta, ela cursou a faculdade de belas artes na Universidade Federalista do Rio de Janeiro, a UFRJ. Decidiu, no entanto, seguir curso na dramaturgia em seguida se aproximar do Teatro Universitário, grupo vinculado à instituição carioca.
Nesse grupo, se destacou em “A Mulher da Madrugada”, do dramaturgo espanhol Alejandro Casona. A performance foi tão elogiada que a artista ganhou uma bolsa do governo gaulês para estudar artes cênicas em Paris, onde permaneceu de 1951 a 1954.
A partir daí, Timberg trilhou uma trajetória ascendente, conquistando papéis de sucesso em peças porquê “O Jardim das Cerejeiras”, de Anton Tchékhov, “O Pagador de Promessas”, de Dias Gomes, e “Meu Querido Mentiroso”, de Jerome Kilty. Por esse último trabalho, ela ganhou o prêmio Molière em 1964, a principal láurea do teatro naquele período.
A partir de meados dos anos 1950, passou a se destinar também à televisão, veículo em que viveu papéis memoráveis. Exemplo disso são a mocinha Maria Helena, da romance “O Recta de Nascer”, a vilã Tenacidade Eugênia, de “O Possuidor do Mundo”, e a socialite Celina, mana da Odete Roitman de Beatriz Segall na versão original de “Vale Tudo”.
Apesar da curso extensa na TV, Timberg nunca deixou os palcos de lado. Essa proximidade está expressa, inclusive, no espetáculo que ela agora protagoniza.
A personagem da atriz não exclusivamente trabalha no teatro, mas mora nesse espaço, numa metáfora para o modo porquê Timberg transformou a ribalta em uma secção indissociável de sua vida. É essa devoção à dramaturgia que faz a artista desejar ir além.
“A nossa experiência nunca vai chegar ao seu limite”, diz ela. “Eu acho que isso é uma quesito do ser humano. Em qualquer atividade, o varão quer testar o seu limite. E qual é esse limite? Nem a gente sabe.”
Diante da vontade de ultrapassar as próprias barreiras, porquê tem sido envelhecer? “A dificuldade do processo de envelhecimento é admitir.”
Há pouco ela perdeu duas colegas de profissão, as atrizes Laura Cardoso e Glória Menezes, mortas no mesmo dia, 18 de agosto. Na ocasião, Timberg gravou um vídeo em homenagem às artistas. “Sinto que, no mesmo momento, a vida me privou das duas, mas logo estaremos juntas. Eu também devo estar com a minha bagagem sendo preparada”, disse ela.
Durante a entrevista, Timberg voltou a refletir sobre a passagem do tempo. “A finitude, meu querido, o varão até imagina. Mas, para poder aceitá-la, ele inventou uma povo de deuses e olimpos.”
Diretor do espetáculo, Ricardo Grasson considera que veteranos são pouco valorizados pelos mais jovens. Por esse motivo, o encenador diz ser importante festejar artistas porquê Timberg. “Essa geração foi aquela que a gente labareda de moderna e louca. Mas não era uma loucura que tinha a ver com droga, mas sim com experimentação”, diz Grasson.
A peça que ele dirige reconta, por meio de citações, alguns dos momentos mais importantes da curso da atriz. Um deles aconteceu em 1964, durante a encenação de “Antígona” —peça escrita por Jean Anouilh porquê resposta à ocupação nazista na França.
No papel principal, Timberg gritava “não” para resistir à tirania de Creonte, o implacável rei de Tebas. Em diversas apresentações, a plateia bradava com a atriz essa mesma fala para reivindicar contra a arbitrariedade daquele primícias de ditadura militar.
“Antígona diz ‘não, eu prefiro morrer.’ E é um pouco o que acontece com esses grandes atores”, afirma Grasson. “A gente retrata nessa cena a entrega do artista à morte e aos leões todos os dias.”
Para o diretor, Timberg é um exemplo daqueles que se doam totalmente ao próprio ofício. “Ela acorda pensando no teatro e vai dormir pensando no teatro. Nathalia sobe ao palco porquê se fosse morrer naquele dia”, diz o diretor. “Jogar luz sobre a trajetória dela é jogar luz sobre a trajetória do teatro de maneira universal.”





