Nelson Rodrigues usou o futebol para expressar obsessões – 12/06/2026 – Ilustrada
Na galeria de personagens caricatas saídas da imaginação e da reparo de Nelson Rodrigues, destacava-se a “grã-fina das narinas de defunto”, de ar superior e pouco se lixando para os hábitos e diversões da plebe ignara.
Levada à tribuna de honra do Maracanã, ela observa os jogadores, o perito e os bandeirinhas se movendo pelo campo e pergunta a seu companheiro de proeza esportiva: “Quem é a globo?”.
Nelson era o oposto da grã-fina. Severamente míope, sem enxergar recta os lances da partida, dava pouca valia à globo. Seu negócio era o varão que a chutava. No futebol, encontrou um universo perfeito para expressar suas obsessões de artista: paixão, traição, culpa, pânico, heroísmo, vida e morte. O tipo entre a glória e a vaia, diante da plebe implacável.
Na carona do torneio que magnetiza as atenções do planeta, está nas livrarias “As Copas de Nelson Rodrigues”, uma caixa com três volumes. Organizado por Caco Coelho e Crica Rodrigues, neta do jornalista, reúne 150 textos publicados na pilastra “Meu Personagem da Semana”, trazendo ilustrações originais de Marcelo Monteiro.
São mais de 600 páginas, que cobrem os anos de 1958 a 1970. Nem por isso estão datadas. Ao contrário, gritam de atualidade. É um dos milagres da obra de Nelson, permanecer atemporal, moderna, eterna.
O jornalista começa a se destinar assiduamente à crônica esportiva a partir de 1954, quando a seleção brasileira foi derrotada no Mundial da Suíça, aumentando o traumatismo do “maracanazo”, em 1950. Nelson já havia escrito o ciclo das revolucionárias peças de teatro, de “Vestido de Prometida” a “Senhora dos Afogados”. Em 1951, foi ao palco “A Falecida”, que tem o fanatismo pelo futebol porquê tecido de fundo.
Fizera os folhetins, romances cujos capítulos eram publicados na prelo e assinados com o pseudônimo de Suzana Flag —porquê “Meu Orientação É Pecar” e “O Varão Proibido”. Era a estação em que ele dizia que trabalhava mais que “um remador de ‘Ben-Hur’”. Nas décadas de 1950 e 1960, manteve colunas diárias, entre as quais as esportivas, em dois ou três jornais.
O futebol sempre lhe arrebatou. Mario Fruto, seu irmão mais velho e grande influência, foi o inventor da crônica de futebol no país, com estilo único. Mario era rubro-negro; Nelson, tricolor das Laranjeiras. Tinham a coragem de não esconder suas preferências, mas estavam longe de assumir a postura do colunista-torcedor, que virou modismo no Brasil.
A maior qualidade do Nelson Rodrigues articulista era a percepção sátira (e autocrítica) sobre os comportamentos da voga, aliada à estudo do momento histórico. Batucando com dois dedos na máquina de redigir, produziu petardos de humor e picardia, com domínio totalidade da fluidez narrativa, apesar das digressões inesperadas que, em semblante, zero tinham a ver com o tema mediano.
Chegou a escolher porquê seu personagem da semana o “copidesque do Jornal do Brasil”, que, segundo ele, não sabia a diferença entre um escanteio e uma caixa de fósforos.
Loucura das massas, ópio do povo, o futebol mereceu do Nelson ensaísta (sim, suas crônicas tinham pegada ensaística) um tratamento transcendente.
Enalteceu os craques —Zizinho, Pelé, Garrincha, Didi, Nilton Santos, Gérson, Tostão— ao mesmo tempo em que reservou um olhar carinhoso para figuras menores, azaradas, hoje esquecidas, mas, em seu tempo, importantes para a mística dos estádios. Cafuringa, por exemplo. Era um atacante rápido e driblador, capaz de levantar as arquibancadas. Só que não sabia fazer gols, e a notabilidade funesta o perseguiu.
“As Copas de Nelson Rodrigues” mostra, numa sequência de colunas sobre o Mundial de 1958, na Suécia, a gênese do “multíplice de vira-lata”, um dos mais conhecidos e discutidos pensamentos do responsável, segundo o qual o brasílico se sente, voluntariamente, subalterno ao resto do mundo. E não só no futebol.
Nelson era pacheco. Paixões à segmento, não deixava de ter razão em considerar as seleções de 1958, 1962 e 1970 imbatíveis, com a primeira e a última dividindo opiniões sobre qual era a melhor. Pena que não dá para saber o que ele diria do time de Carlo Ancelotti, com ou sem Neymar. O patente é que o historiógrafo nunca tratou o futebol porquê reles entretenimento.





