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Eva Baltasar lança 'Mamute', romance de seu tríptico 01/08/2026
Celebridades Cultura

Eva Baltasar lança ‘Mamute’, romance de seu tríptico – 01/08/2026 – Ilustrada

“Não sou uma escritora planta. Sou uma escritora bússola.” A frase de Eva Baltasar parece uma definição de método, mas é antes uma enunciação de subversão. A autora catalã, que lança no Brasil o terceiro volume de um tríptico, diz não ortografar para confirmar uma teoria que já tem na cabeça, mas para desvendar o que ainda não sabe.

“Eu nunca sei o que vou ortografar. Não sei qual será a história, nem para onde ela vai me levar. Simplesmente me entrego ao processo”, diz ela em Paraty, onde foi destaque da Flip. “Às vezes sigo numa direção e descubro que não há zero ali. Acontece de destruir meses inteiros de trabalho.”

É a partir desta incerteza que nasce “Mamute”, terceiro romance da trilogia traduzida pela editora Dublinense e iniciada com “Permafrost”, de 2018, e continuada com “Boulder”, de 2020, finalista do prestigioso International Booker Prize.

Poeta e romancista, Baltasar se consolidou uma vez que uma das vozes mais singulares da literatura catalã contemporânea. Seus livros acompanham mulheres que não são nomeadas, narradas em primeira pessoa, que vivem situações limite e são repletas de desejos, desconfortos e de uma urgência em evadir das formas preconcebidas de existência feminina.

Em “Mamute”, essa fuga ganha contornos radicais que bebem na biografia da autora. A protagonista abandona a cidade e se desloca para uma região rústico, onde a sobrevivência passa a depender do contato direto com a terreno, com os ciclos naturais e com o próprio corpo. Longe de tudo, ela tenta desvendar o que sobra quando as convenções da vida urbana contemporânea são retiradas.

“Sempre parto de paisagens da minha própria vida. A matéria-prima é sempre alguma coisa que vivi. Mas ‘Mamute’ é o livro que mais se aproxima da minha experiência”, diz.

“Quando eu tinha 26 anos, morava em Barcelona e era mãe solo da minha primeira filha. Tinha um trabalho muito precário na universidade e dividia apartamento. Um dia, quando minha filha tinha dois anos, larguei tudo e fui viver numa região muito isolada.”

No romance, a protagonista deixa a cidade em procura de solitude numa moradia antiga numa região inóspita, onde o aproximação é difícil e o único vizinho é um pastor de ovelhas. Apesar de se relacionar com mulheres, ela responde a um chamado interno para gestar uma vida e procura engravidar.

A moradia onde Baltasar viveu por três anos era remota uma vez que a da protagonista de “Mamute”, mas ainda mais precária: não tinha sequer eletricidade.

Na literatura de Baltasar, a solidão não aparece uma vez que carência, mas uma vez que oportunidade de autoconhecimento e campo de investigação em que suas personagens confrontam aquilo que normalmente evitam.

E a natureza, tão presente em seus enredos, surge fora das páginas uma vez que inspiração.

“Eu escrevo boa secção dos meus romances no floresta. Mas não é que eu escreva com o computador no floresta. Para mim, ortografar não é estar com o computador ou com a caderneta, mas é deixar que o romance venha até mim.”

“Dedico duas ou três horas por dia a caminhar pelo floresta com meu cachorrinho. E ali o romance acontece. Chego em moradia e escrevo. Boa secção do processo é estar na natureza. A rua não me serve.”

Essa entrega ao incógnito ajuda a explicar uma das marcas mais reconhecíveis de sua obra: uma fronteira borrada entre autora e geração. “Há coisas minhas em todos os romances, mas não é a minha vida, impossível. Eu não tenho 400 anos, e em 48 não dá para viver tudo aquilo.”

Suas personagens, assim uma vez que ela, relacionam-se preferencialmente com mulheres, e a autora diz produzir uma relação de ímpeto com elas.

“Eu me apaixono [pelas protagonistas] porque elas despertam em mim uma enorme curiosidade”, afirma. “A vida do romance começa a contaminar a minha própria vida. Início a sentir sintomas de apaixonamento. Perco a míngua. Durmo muito pouco. É uma química real.”

Neste processo, Baltasar diz que precisa compreender suas protagonistas por inteiro para tornar suas decisões coerentes. “O que acho mais interessante é que, por meio delas, consigo reprofundar no meu próprio inconsciente, nas regiões mais escuras, onde vivem os monstros. E é muito seguro fazer isso uma vez que escritora, mas também uma vez que leitora”, diz.

A autora diz considerar o ato da escrita um aprofundamento íntimo e que não há intenção política por trás dos retratos crus que fez sobre maternidade e sexualidade, mas afirma gostar quando seus escritos ganham essas interpretações.

“Cada leitor pode acrescer uma estrato dissemelhante de leitura. Alguma coisa que era unicamente um oferecido proveniente da vida para mim pode se transformar numa instrumento política”, afirma. “Essa nunca foi a minha intenção, mas acho inopinado quando isso acontece. O livro cresce e segue o caminho que precisa seguir.”

Folha

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