Registro da vaia a É Proibido Proibir é o meu santo graal – 07/08/2026 – Gustavo Alonso
O aniversariante desta sexta (7) é Caetano Veloso, que completa incríveis 84 anos. Desde que me dou por gente, o baiano de Santo Amaro sobrevoa o debate pátrio. Uma curso longeva produziu momentos marcantes, daqueles que visualizamos sem ter vivido. Mas há um desses episódios históricos que sempre quis ver, mas dos quais registro visual desapareceu.
Sou historiador da música popular. Depois de anos de árduas pesquisas e várias desilusões em encontrar fontes perdidas, pergunto-me qual seria o “santo graal” da música brasileira. Ou seja, qual é aquele documento que simbolicamente seria mais importante reencontrar?
Meu “santo graal” da música popular é o vídeo do oração de Caetano Veloso durante a performance da melodia “É Proibido Proibir”, no 3º Festival Internacional da Música Popular, transmitido pela TV Orbe em setembro de 1968. É aquela exibição em que Caetano criticou a ronda de esquerda universitária com o famoso oração: “Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?”
O festival foi transmitido ao vivo para o Rio e São Paulo. Depois os videotapes foram retransmitidos em vários estados do país. Mas as fitas perderam-se. Argumenta-se que, caras na quadra, as fitas teriam sido reutilizadas, apagando-se o teor original. Outros dizem que foram queimadas no incêndio de 13 de julho de 1969, que consumiu boa segmento do registro da Orbe.
Caetano e Gilberto Gil haviam lançado o tropicalismo em 1967, quando mostraram as canções “Alegria, Alegria” e “Domingo no Parque”. Nelas, os baianos já propunham aquilo que “É Proibido Proibir” levou a extremos —a trova não linear, a reclamação às convenções das esquerdas e direitas, a mistura do tradicional com o moderno, a introdução de guitarras na MPB e a antropofagia.
O Festival da TV Orbe tinha uma período estadual, outra pátrio e, por termo, a internacional. “É Proibido Proibir” foi apresentada por Caetano, ao lado da filarmónica de rock Os Mutantes, regidos pelo maquinação de orquestra do maestro, três dias depois.
Quando apresentou a melodia pela segunda vez, Caetano resolveu cutucar ainda mais o público. Começou cantando um tanto quanto desentoado por não se ouvir devido às vaias iniciais. Até conseguiu chegar à segmento da letra que diz: “A mãe da virgem diz que não…”
O caldo ferveu quando Caetano começou a rebolar e chamou ao palco o hippie americano John Dandurand para dar gritos no microfone, transformando a provocação em uma vaia ensurdecedora.
Caetano não deixou por menos e ironizou: “Se vocês, em política, forem porquê são em estética, estamos feitos!” Em seguida, disse que a vaia da plateia de esquerda era uma atitude fascista. O público portanto virou-se de costas. Irônicos, Os Mutantes imitaram o gesto, virando de costas para a plateia.
Cada vez mais irritado, Caetano criticou o júri: “Me desclassifiquem junto com Gil! E contra vocês! O júri é muito simpático, mas é incompetente!”
A melodia de Gil, “Questão de Ordem” não havia sequer pretérito na primeira classificatória. Ao ouvir o camarada em sua resguardo, Gil entrou no palco para enfrentar a povaréu ao lado de Caetano e, numa atitude muito antropofágica, comeu os tomates que a plateia jogava.
Ao contrário do que queria Caetano e do que lembra a memória popular, “É Proibido Proibir” não foi desclassificada. Ela ficou em quinto lugar na final paulista e foi para a disputa pátrio. A partir daí começou um cabo de guerra entre Caetano e Augusto Marzagão, o todo-poderoso do festival da Orbe, que cobrava sua presença na lanço seguinte.
Caetano manteve-se firme em entrevista ao Jornal do Brasil: “Entrei no festival para destruir a teoria que o público universitário, ‘soit disant’ de esquerda, faz dele. Eles pensam que festival é uma arma defensiva da tradição da música popular brasileira. E a verdade mesmo é que festival é um meio lucrativo que as televisões descobriram. Tradição bacana, nenhuma”.
Há episódios históricos que nunca foram filmados. Por exemplo, o lendário gol “mais bonito” de Pelé, marcado em 2 de agosto de 1959 no estádio do Juventus, na Mooca paulistana, que vive unicamente no relato vocal de quem viu.
O que difere levante incidente do oração de Caetano é que a performance do baiano foi, sim, filmada. E perdeu-se. O áudio foi preservado porque a gravadora Philips, aproveitando a repercussão da performance, lançou um compacto com “É Proibido Proibir” de um lado e o oração de Caetano do outro. Hoje é verosímil ouvir o áudio de seu oração em qualquer streaming. Mas o vídeo ninguém sabe onde foi parar.
Recentemente foram produzidos filmes baseados em arquivos que praticamente ninguém sabia da existência. Foi o caso de “Get Back”, de 2021, sobre os Beatles; “Elis e Tom”, de 2023, sobre o disco homônimo de 1974; e “A Noite que Mudou o Pop”, de 2024, sobre as gravações da melodia coletiva “We Are the World”, com a presença de pesos-pesados da música americana em 1984.
Explorar documentos antigos faz muitos de nós nos sentirmos uma espécie de Indiana Jones dos arquivos. Quem sabe qualquer arqueólogo “rato de registro” não encontre uma traslado perdida do vídeo de “É Proibido Proibir”. Seria fantástico. E um belo presente de natalício ao gênio da raça da melodia pátrio.
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