O espadachim Musashi Miyamoto procura diversão, sinônimo para ele de duelos com guerreiros mais experientes. O que não estava em seu roteiro, mas sim no do jogo “Onimusha: Way of the Sword”, era a chegada de criaturas infernais lideradas por um samurai lendário.
O título de ação da Capcom lançado neste mês retoma uma franquia que, com exceção de versões remasterizadas e derivados, estava dormente desde os anos 2000, quando cavou seu espaço na geração do PlayStation 2.
É um retorno imponente, com visuais exuberantes, controles afiados e carisma em uma trama que mistura figuras históricas do Japão, porquê o protagonista, às invasões demoníacas na Kyoto do período Edo, no século 17.
Diferentemente dos recentes “Ghost of Yotei” e “Assassin’s Creed Shadows”, mais sisudos, cá o tom tende à galhofa, uma combinação do histrionismo dos animes com um interesse mais formal no design das mecânicas, porquê costuma valer para os jogos da desenvolvedora japonesa —que vive hoje uma era de ouro.
O eixo da jogabilidade remete ao subgênero “soulslike”, com duelos desafiadores cuja saída é a persistência e o revérbero dos dedos. Isso porque as batalhas principais exigem precisão e um estabilidade entre ataques, bloqueios e esquivas. Para isso, é necessário estudar o padrão de movimentos do inimigo.
Já a galhofa cá opera não tanto pela temática, mas pelo jeito canastrão do grande elenco, com destaque para Musashi, uma recriação simpática —e autorizada— do ator Toshiro Mifune, morto em 1997. A inspiração direta é sua encarnação do mesmo personagem na “Trilogia Samurai” dos anos 1950, de Hiroshi Inagaki, mas no término acaba sendo uma salada de várias fases.
No jogo, Kyoto, portanto capital do Japão, foi invadida pelos chamados “genma”, monstros bizarros que deram uma rasteira nos “onis”, as criaturas míticas japonesas, e escaparam do inferno. Isso graças ao general Minamoto no Yoshitsune, cuja morte não interrompeu suas ambições maiores, nem mesmo no submundo.
Em seu caminho da punhal, Musashi acaba morto por um desses genma e vai parar ao lado dos demônios, onde recebe, a contragosto, a manopla Oni, um dos ícones da série. O equipamento, acoplado ao braço, dá poderes suficientes para fazê-lo voltar à superfície e expulsar as criaturas —por isso o “guerreiro demônio” do título em nipónico.
É também um vista de jogo importante. Além dos golpes mágicos, ela é capaz de aspirar as almas dos inimigos mortos, com as quais é provável melhorar atributos e habilidades. É uma maldição que vai caindo aos poucos no sabor do protagonista, que espera coletar almas o suficiente para se livrar dela e viver entre os samurais mais uma vez.
Esse trajectória alterna entre seções lineares e livres, entre inimigos fracos e demônios poderosos. É durante essas batalhas vultosas, por vezes com mais de dez minutos de duração, que o jogo mostra a que veio.
A dificuldade dá um salto, os espaços são mais contidos e há um maior interesse teatral, tanto pela exuberância dos inimigos quanto pela regularidade de jogo mais pensada. De encarregado em encarregado, o fanfarrão Musashi mostra aos poucos um lado bruto de bom coração, difícil de não tombar no sabor do jogador.
O desenvolvimento da trama, no entanto, traz consigo alguns excessos. São os de sempre, para produções de grande orçamento: atividades secundárias rasas e repetitivas que tensionam com aquilo que o jogo faz de melhor. O problema é tentar parecer maior do que é.
Não ajuda que os momentos abertos aconteçam em um mundo pouco reativo, que não atiça a curiosidade pela exploração, a não ser pela vaga sensação de estar naquele lugar, naquele período histórico —ainda que muito aquém dos títulos que optaram por travar essa guerra. Sinal maior disso é que o jogador se vê na posição de querer desbloquear os atalhos de viagem para chegar mais rápido aos verdadeiros pontos de interesse, as missões principais.
A vantagem é que é provável ignorar tudo isso e jogar pelas próprias regras. Estão à espera uma série de batalhas estimulantes que maltratam os botões do controle e uma história de personalidade inesperada, evidenciando mais uma vez o bom momento da Capcom.





