O Diabo Veste Prada 2 quer ser novo marco da cultura pop – 29/04/2026 – Ilustrada
Anne Hathaway caminha por Novidade York com pressa, tão atrapalhada que quase é atropelada ao cruzar a rua. Em meio à correria, letreiros com fontes de ar casual, comuns em comédias e romances dos anos 2000, exibem os créditos iniciais.
A sensação é de estar revendo “O Diabo Veste Prada”, que começava com uma sequência muito parecida. Mas se há 20 anos a corrida estabanada de Hathaway acontecia ao som de “Suddenly I See”, de KT Tunstall, agora são Lady Gaga, Miley Cyrus e Dua Lipa que desfilam na prolongamento.
Com estreia nesta quinta-feira (30), “O Diabo Veste Prada 2” pendura referência detrás de referência em seu guarda-roupa nostálgico, mas não deixa que o meneio ao pretérito defina a sua trama.
Da mesma forma que o longa de 2006 se tornou um marco geracional justamente por tomar, de maneira afiada e glamorosa, a sua idade, a sequência de 2026 quer ser ela própria um novo marco, atualizando sua história e personagens à luz das mudanças que abateram a cultura e a mídia nas últimas duas décadas.
Esse registro de uma idade se faz presente, por coincidência, até mesmo no elenco. Se em 2006 o longa ajudou a projetar e também se aproveitou da subida meteórica de Hathaway e Emily Blunt, em 2026 a produção é alavancada por uma segunda era de ouro das atrizes —ambas se preparam para lançar dois dos principais blockbusters do ano, a primeira com “A Odisseia”, de Christopher Nolan, e a segunda com “Dia D”, de Steven Spielberg. E, apesar de seus diretores, é verosímil que “O Diabo Veste Prada 2” gere mais burburinho que eles.
“As crianças estavam aguardando, as mulheres estavam aguardando, os homens gays estavam aguardando e os homens héteros também —no original, pela primeira vez ouvi de homens héteros que eles entendiam o que uma personagem minha sentia”, brincou Meryl Streep no programa Good Morning America.
“A originalidade humana está sob ataque, em todos os setores e meios. Por isso foi risonho voltar e revisitar esses personagens diante dessa novidade veras”, disse ainda, numa referência a uma trama que celebra a tendência, a música e a escrita, num mundo que, pela força política ou do moeda, parece estar mais hostil à cultura e à liberdade criativa.
Por isso, mais do que um serviço a mulheres, gays, héteros e outros fãs nostálgicos, “O Diabo Veste Prada 2” quer toar contemporâneo e tecer o seu próprio retrato do mundo que o muro.
Lá detrás, o fenômeno “Harry Potter”, Gisele Bündchen, copos de moca do Starbucks e uma vilã inspirada na editora Anna Wintour, que ditava a tendência avante da Vogue, ancoravam a trama no coração cultural dos anos 2000. Agora, memes, Ozempic, perceptibilidade sintético, gentrificação e big techs são temas que florescem nesta novidade primavera de Miranda Priestly e Andy Sachs, personagens de Streep e Hathaway.
Mais do que isso, o filme mostra porquê o capitalismo aspiracional que pautou a heroína em 2006 dá sinais de desgaste. Desgaste que já se anunciava nos últimos minutos do original, quando Andy abandona Miranda, antecipando a grande resignação, movimento pós-pandêmico em que muitos reavaliaram o estabilidade entre o trabalho e a vida pessoal.
A mensagem é poderoso no mercado editorial, tão afetado por revoluções tecnológicas e mudanças nos hábitos de consumo, e que serve de cenário para o primeiro e o segundo “O Diabo Veste Prada”. Se em 2006 Andy era contratada para o ocupação pelo qual “um milhão de garotas matariam”, em 2026 ela volta à revista fictícia Runway para salvá-la de uma crise de imagem e vendas.
A verba de US$ 300 milénio para refazer um tentativa fotográfico por obstinação de Miranda, no original, deu espaço a cortes de orçamento. Carros de luxo são substituídos pela Uber, eventos em semanas de tendência são desidratados e a edição física da Runway já é tão fina quanto uma folha de papel.
Numa das primeiras cenas de “O Diabo Veste Prada”, Miranda lê um jornal impresso. Numa das primeiras cenas de “O Diabo Veste Prada 2”, seus dedos deslizam pela tela de um iPhone. David Frankel, diretor dos dois volumes, entendeu que o público dos filmes é o mesmo, mas o mundo em que assistem a cada um, não.
A novidade trama até faz um mea-culpa. Se no longa de 2006, povoado por atrizes magérrimas, “brincadeiras” com o peso de Hathaway apareciam aos montes, agora a editora anda com uma assistente anticancelamento a tiracolo. Mas ao contrário da vaga de autocensura que acomete muitas produções, “O Diabo Veste Prada 2” não se priva de pôr comentários de mau palato em sua boca. A diferença é que o motivo do riso é o anacronismo da personagem, não mais a jovem fora do padrão.
Hathaway até barrou modelos esqueléticas de fazerem figuração, num contraste evidente com a cena que abre o original, em que pernas, quadris e pescoços finíssimos deslizam entre meias-calças, saias e echarpes de grife.
É verdade que o filme foi claro de ataques por dar a Andy uma assistente asiática de nome genérico, Jin Chao. As críticas, portanto, foram ampliadas para seu jeito estabanado e supostamente estereotipado —embora o perfil mais pareça uma cutucada geracional ou um meneio à Andy de 2006.
Com menos entrevistas que o habitual na agenda, num filme que vende ingressos sozinho, o elenco não falou do objecto, deixando “O Diabo 2” imerso em seu raconto de fadas urbano, apesar do mundo diabólico ao volta.
Com certa ingenuidade, o novo longa e o original entendem que fazem secção de um cinema quase escapista —o “feel good movie”, que parece se perder numa produção cultural que sempre tem alguma coisa a expor. Mas isso não é tudo.
De sua despretensão, surge um humor amolado, que deve manter a dupla de filmes nas passarelas por muitas outras temporadas.





