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A grande imprensa pode ser grande 29/04/2026 Marcelo
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A grande imprensa pode ser grande – 29/04/2026 – Marcelo Rubens Paiva

Nos almoços de domingo com familiares e amigos do meio acadêmico, quando os ânimos se exaltam por conta da cobertura jornalística, me apontam o dedo e soltam: “Qual é o problema de vocês da prelo?!”.

Deve intercorrer o mesmo com colegas que trabalham em empresas de notícia, do trainee ao dirigente.

Referem-se a editoriais, a programas de debate e a uma cobertura política que, no Brasil, costuma ser mais dionísica que apolínea, em que a razão é sobreposta pela paixão, o cérebro é domado pela bílis.

Durante dois anos em que fiquei sem pilar, me libertei da pecha de ser “o” representante do complô do Partido da Prelo, que imaginam que seja uma vez que uma loja maçônica frequentada por donos de meios de produção. Voltei para a Folha, voltaram as acusações.

Ouvi no último feriadão: “Por que vocês não informam corretamente, é incompetência ou manipulação?”. Contei que o jornal tem o responsabilidade da sátira e a pluralidade na origem, e que a esquerda o acusa de ser de direita, e vice-versa.

Para a ciência, deturpação é inconcebível, manipulação ou preterição de dados, um delito. O power point da Orbe News, “Conexões de Daniel Vorcaro”, já entrou para a história uma vez que um deslize de arte delirante, com calor freudiano de verdade versus libido.

Depois de anos de um comportamento digno, isento, enfrentando pressões do vingativo e cominador (em cassar licenças) governo anterior, somadas a uma tentativa de golpe, tutelou a resguardo da democracia, retomou o troféu da ideologia supra da notícia? A emissora apontou o erro e se desculpou.

O climão vale-tudo das redes sociais contaminou a prelo faz tempo. Engrandecerá quem souber dosar e exalar serenidade. A grande prelo pode ser um fator de estabilidade no mundo descompensado pela desinformação e notícia falsa.

“Deu no New York Times”, “Tá no Guardian”, “Saiu no Le Monde” são selos de confiabilidade uma vez que “A Nasa provou”, “Pesquisa da USP” ou “Harvard descobriu”. Sem a grande prelo, a notícia será silabário.

Mas em 19/4, publicou o Estadão: “Do cume de sua experiência uma vez que ex-presidente que, em seu tempo de governo, parecia mais preocupado em governar do que na eleição seguinte, Temer ensina o oposto do que pregam os protagonistas da polarização”.

E concluiu: “Democracias sólidas avançam de forma incremental, não por rupturas”.

Temer, em complô, alimentou a derrubada de um governo eleito, iniciando um processo de desorganização institucional. Impopular, ele não conseguiria ser reeleito, instaurou um governo só de homens brancos, abriu caminho para a extrema direita e foi ser assessor de Vorcaro, no cume de sua experiência.

O maior legado foi a conspiração, gerar uma ruptura “com STF, com tudo”, desmembrando valores republicanos. Foi protagonista na ópera da polarização, quando antes PT e PSDB se revezavam no poder pacificamente.

Por que o jornal não informou ao leitor (seu consumidor) os dilemas da subida? No editorial da Folha do dia seguinte, um texto que por pouco não se assemelha ao programa de um partido neoliberal (ou newsletter de banco):

“Dada a mixórdia de artifícios contábeis utilizados na apuração dos resultados do Tesouro Pátrio ao longo dos últimos anos, hoje o indicador mais simples e confiável para estimar a política fiscal é a evolução da dívida pública —e ela aponta um fracasso alarmante neste terceiro procuração de Lula”.

Em seguida, compara a dívida pública de Lula 3 (71,7% do PIB) com a de Dilma (65,5%), colando o nome de um no da outra. Fracasso alarmante?

Depois de hipérboles, poderiam vir dados: o PIB cresceu, o dólar caiu, Bovespa flertou o patamar dos 200 milénio pontos, contra 60 milénio em 2016, o desemprego despencou, a renda média do trabalhador cresceu 5,7%, e o setor agrícola, 11% em 2025. A inflação de Dilma chegou a 10,7% em 2015, e o desemprego foi a 12% em 2016.

O editorial lembra que é normal países ricos terem dívidas públicas altas, uma vez que Japão (200%), EUA (120%) e China (112,5%). Mas eles têm moeda poderoso e capacidade de crédito, e o Brasil não, explica. Ou melhor, não explica.

São os juros altos (herdados do BC do governo anterior), subsídios, sonegação, dívidas dos estados, penduricalhos, precatórios, emendas parlamentares? Vão culpar, uma vez que sempre, os programas de auxílios sociais? De onde vem o fracasso?

A economia, enfim, vai muito? Se não se explica o paradoxo dos números, o leitor fica com o sorvete derretendo na mão. Se não se mostra a antítese, um texto corre o risco de virar panfleto.

Folha

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