‘O Naufrágio’ é livro perturbador sobre tragédia imigrante – 29/08/2026 – Ilustrada
Por volta da meia-noite do dia 23 de novembro de 2021, 31 pessoas morreram nas águas geladas do ducto da Mancha depois do naufrágio do embarcação inflável em que faziam a travessia. Eram 21 homens, 7 mulheres, uma delas pejada, e 3 adolescentes, quase todos imigrantes asiáticos ou africanos.
A tragédia —a maior no ducto desde que existem estatísticas confiáveis— deu origem a um bate-boca entre Emmanuel Macron e Boris Johnson, motivou uma investigação policial e foi o mote para o romance “O Náufrágio”, do noticiarista e filósofo gaulês Vincent Delecroix.
Finalista em dois prêmios importantes —o Goncourt gaulês e a versão internacional do Booker—, o livro tem porquê ponto de partida um diálogo por telefone, conquistado pela investigação policial, entre um dos náufragos e uma funcionária do sistema de resgate gaulês.
Diante dos pedidos desesperados de ajuda, a funcionária, tal qual nome nunca foi revelado, diz: “Não te pedi para partir”. E minutos mais tarde: “Você não será salvo”.
Em entrevista ao ducto do clube de leitura da cantora Dua Lipa, Delecroix afirmou: “É um pouco de uma indiferença inimaginável, de alguém sem sentimentos ou capacidade de empatia”.
A partir dos dados da investigação, e sobretudo dessas duas frases, que chocaram franceses e britânicos ao nascer na prelo, Delecroix imaginou uma personagem e construiu uma ficção incômoda e perturbadora. O livro é narrado do ponto de vista da funcionária que, num hipotético interrogatório policial, tenta justificar o injustificável.
A mulher culpa a incompetência dos colegas franceses. Culpa os britânicos que, segundo ela, deveriam se responsabilizar por um embarcação que entrava em seu mar territorial. Invoca o estresse de ter que cuidar sozinha de uma filha de seis anos. Cita o ex-marido extremista, que achava que pessoas que tentavam entrar clandestinamente num país mereciam morrer. E culpa, por termo, os próprios imigrantes, na frase que abre o livro: “Não te pedi para partir”.
A discussão filosófica que perpassa “O Náufragio” ecoa o tentativa “Eichmann em Jerusalém”, publicado por Hannah Arendt em 1963 na revista The New Yorker e citado por Delecroix em entrevistas.
Enviada pela publicação americana para ocultar o julgamento de Adolf Eichmann —o funcionário encarregado de organizar os trens que levavam prisioneiros judeus para a morte em campos de concentração— a filósofa alemã reflete sobre a “trivialidade do mal”.
De maneira análoga a Eichmann, a funcionária de “O Náufragio” alega ter um protocolo a satisfazer, e que qualquer tipo de envolvimento emocional afetaria a transparência de suas decisões. Uma decisão sua, no entanto, selou a morte dos 31 imigrantes.
A mulher dispunha da localização exata do bote inflável e recebeu da Marinha a informação de que um embarcação gaulês estava próximo ao naufrágio. Talvez por considerar que a ação de salvamento cabia aos britânicos, a funcionária não contatou o embarcação gaulês.
“O Náufragio” é incômodo sobretudo porque trata de uma situação recorrente. Estima-se que de 30 milénio a 40 milénio pessoas por ano tentem cruzar o Via da Mancha em direção ao Reino Uno. Em universal são imigrantes que buscam se reunir a parentes que já vivem em solo britânico ou que estão em procura de trabalho.
De convénio com a Marinha francesa, muro de metade dessas embarcações são interceptadas logo que deixam a costa. Entre os que conseguem atingir o outro lado, poucos escapam da prisão e deportação.
Lançado na França em 2023, o livro está em sintonia com o debate atual sobre imigração na União Europeia.
Em 17 de junho, o Parlamento Europeu aprovou uma lei que cria centros de detenção de imigrantes em países terceiros, seguindo o protótipo implantado pela ultradireita italiana e pela centro-esquerda dinamarquesa. A regulamentação é fortemente criticada por organizações de direitos humanos por deixar pessoas vulneráveis num limbo jurídico.
Delecroix provoca os europeus, que assistem indiferentes a uma tragédia humanitária, com reflexões de sua protagonista. Ela se queixa de tolerar um “massacre midiático”, que ocorreria “para que a humanidade se tranquilize em relação a si mesma, para que a humanidade não duvide de sua humanidade e não corra o risco de suspeitar do que se tornou, ou seja, uma moça porquê eu, porquê o que eu me tornei”.
E arremata. “O que se ouve não é a voz de um monstro ou de uma criminosa —é a voz de todo mundo.”





