‘O Urso’ tenta dar último gás com substituição na cozinha – 24/06/2026 – Ilustrada
Em 2022, um deprimido Carmen Berzatto herdou a lanchonete de sua família. A morte do irmão mais velho era recente e o restaurante distante dos que fizeram dele um grande chef. Com o tempo, o espaço maltrapilho virou um estabelecimento de luxo, mas o personagem de Jeremy Allen White continuou o mesmo.
Ao menos é o que diz quem se frustrou com “O Urso”, que chega nesta quinta-feira (25) à última temporada. Antes queridinha das premiações, a série eletrizou o público ao juntar humor e drama em episódios frenéticos. Nos primeiros anos, cozinheiros improváveis fervilhavam uma vez que panelas de pressão, divididos entre a rigidez do protagonista e brigas ridículas.
A receita lançou novos astros, desafiou padrões com capítulos de durações variadas —entre os favoritos estão um ataque de impaciência de 20 minutos, sem cortes, e um flashback de uma hora sobre um Natal amargo— e quebrou recordes, em edições consecutivas, ao invadir diversos prêmios Emmy numa mesma cerimônia.
Hoje, às vésperas de concluir a trajetória da equipe que tenta invadir uma estrela Michelin para manter o restaurante de pé, “O Urso” dá sinais de ter pretérito do ponto. Muitos espectadores torceram o nariz para a terceira e a quarta temporadas, acusadas de trocar a tensão que rendeu prêmios de direção e roteiro por episódios contemplativos. Seja em Chicago ou em viagens ao volta do mundo —caso de “Amanhã”, do terceiro ano, um poema visual sobre a trajetória do protagonista, Carmen—, o seriado abraçou experimentos dramáticos.
A comédia que nascia de situações enervantes, por sua vez, ficou restrita a aparições uma vez que as de Neil e Theodore Fak, irmãos desastrados que, em tese, cuidam da manutenção do restaurante.
Para muitos, esses ingredientes esfriaram as crises que moviam a trama. Apesar de a série ter transformado atores antes pouco conhecidos em estrelas —Allen White viveu Bruce Springsteen, Ebon Moss-Bachrach entrou para a Marvel e Ayo Edebiri conquistou a geração Z—, os personagens pouco evoluíram desde a terceira temporada, lançada em 2024.
Se antes abocanharam troféus, os atores saíram de mãos vazias no último Emmy, em que as 13 indicações da série foram ignoradas. Por um lado, as críticas dos detratores fizeram efeito, e a tensão das primeiras temporadas está de volta. No ciclo final, pouco posteriormente desenredar que Carmen planeja deixar a gastronomia, Sydney Adamu, papel de Edebiri, toma a frente de O Urso e vê o professor virar assistente.
A mudança surpreende a todos, e o capitão que tenta deixar o navio atrai um naufrágio literal. Isso porque uma enorme tempestade se anuncia em Chicago, ameaçando os cozinheiros com quedas de força, infiltrações e a falta de fornecimentos. Com a possibilidade de fechar as suas portas para sempre, não sobra espaço no restaurante para nenhuma passeio narrativa.
Por outro lado, se desde 2024 os episódios de “O Urso” percorrem poucos meses —diferentemente do segundo ano, que acelerou o tempo para retratar reformas na lanchonete familiar—, cá o pausa é ainda menor. Do início ao termo dos sete episódios aos quais a reportagem teve chegada, passou-se pouco menos de um dia dentro do universo da série.
Divulgada na semana passada, a escolha criativa desagradou aos fãs, e muitos já a consideram insuficiente para concluir a trama dos personagens. A reação é curiosa, visto que secção dos decepcionados compartilha com Carmen sua grande incerteza —teriam seus dias na cozinha terminado?
Em uma era em que séries levam anos para chegar ao termo —as cinco temporadas de “Stranger Things” duraram quase uma dez—, esse dilema soa estranho para “O Urso”. A série se destacou pela rapidez entre suas temporadas, particularidade que também ajudou “The Pitt” a invadir a sátira. Além de depender de poucos cenários, ambas evitam os altos custos de produções repletas de efeitos e elementos fantásticos, um protótipo popularizado por sucessos uma vez que “Game of Thrones”.
Por mais realistas que “O Urso” e “The Pitt” possam ser, o ritmo da primeira se afastou do público atual e de seus estímulos constantes. Enquanto o seriado da HBO une casos graves de saúde, em episódios divididos entre horas de um plantão médico, a intimidade de Carmen, em “O Urso”, se tornou menos excitante.
Na temporada final, é Sydney quem tenta renovar a dinâmica do restaurante que dá nome à série, levantado entre a avidez e os laços criados na cozinha. Foi nesse envolvente caótico que a chef consolidou sua curso ao lado de azarões que nunca perseguiram a sublimidade com a preocupação de Carmen. Os traumas que o assombram e outros ruídos seguem presentes, mas a sentimento é de que ele desistiu de percorrer contra o relógio.
Se isto é o que se espera do cardápio final, resta esperar. Com receitas da período áurea e de sua era menos aceita, a última temporada lembra o papel de Ebon Moss-Bachrach, o primo delinquente promovido a maître réplica. Na superfície, ele é um rabi do carisma. Nos bastidores, mostra sua face menos magnificente.
Em 2022, quando a série foi lançada, o pai Christopher Storer falou sobre a impaciência de ver o tempo passar. O projeto se inspirou em relatos de pessoas que trabalharam em cozinhas. “Todos estão sempre sob tanta pressão lá dentro que, no minuto em que saem, é difícil até mesmo se conectar com a vida que estão perdendo”, disse ele à revista Esquire.
Em quatro anos, “O Urso” quebrou barreiras entre gêneros narrativos, fez de desconhecidos estrelas e mostrou que há um preço para se chegar ao topo. O termo pode lembrar o público de que a vida nem sempre é uma vez que se espera.





