ONG busca ciência para orientar manejo sustentável de costões rochosos

ONG busca ciência para orientar manejo sustentável de costões rochosos

Brasil

Em um dos pontos de mergulho mais preservados e reservados do litoral do país, Arraial do Cabo, na Região dos Lagos do estado do Rio de Janeiro, pesquisadores mergulhadores exploram o mar cristalino e realizam o trabalho de escrutinação e identificação de peixes. Porquê eles mesmo chamam, é um recenseamento do fundo do mar.

A uma profundidade de 7 a 8 metros (m), eles utilizam instrumentos para delimitar uma extensão de 20 m e para assentar as quantidades e as espécies de peixes. No meio da atividade, eventualmente, ganham a companhia de tartarugas marinhas.


Arraial do Cabo (RJ), 13/04/2026 – O biólogo Marcos de Lucena, do Projeto Costão Rochoso, mergulha para monitorar a coloração e saúde dos corais na Pedra Vermelha, região do Saco do Anequim, na Reserva Extrativista (RESEX) Marinha do Arraial do Cabo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Arraial do Cabo (RJ), 13/04/2026 – O biólogo Marcos de Lucena, do Projeto Costão Rochoso, mergulha para monitorar a coloração e saúde dos corais na Pedra Vermelha, região do Saco do Anequim, na Reserva Extrativista (RESEX) Marinha do Arraial do Cabo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Mergulhadores usam uma cartela de cores para facilitar a identificação de corais, na Suplente Extrativista Marinha do Arraial do Cabo – Foto: Fernando Frazão/Filial Brasil

Com um vasto conhecimento sobre as espécies, esses pesquisadores muitas vezes sequer precisam consultar o catálogo que facilita a identificação dos peixes. Em meio a instrumentos, uma cartela ajuda a perceber a coloração dos corais, indicativo da saúde desses seres subaquáticos.

O recenseamento marítimo, que acontece também nos litorais vizinhos de Cabo Indiferente e Búzios, é realizado a cada seis meses. Mais para o sul do estado, em Enseada dos Reis, na Costa Verdejante, a escrutinação será feita anualmente.

A atividade faz segmento do Projeto Costão Rochoso, da organização não governamental (ONG) Instauração Educacional Ciência e Desenvolvimento, que atual em parceria com a Petrobras.

Costões rochosos

Costão rochoso é o nome que se dá ao ecossistema presente na transição entre mar e continente, formado por pedras e paredões, grande segmento submersa. Em alguns pontos são aquelas grandes pedras que são vistas nas pontas das praias e têm a segmento supra do litoral coberta por vegetação. Em outros, são enormes costões, porquê a Pedra do Arpoador e o morro do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro.

Esses ecossistemas, por fazerem a relação do oceano com a terreno firme, servem de abrigo e são ricos em sustento para a vida, tanto marinha quanto para aves e seres da chamada entremarés ─ as partes ora submersas, ora expostas, dependendo da maré. Vivem nas entremarés cracas, mexilhões, algas e caranguejos, por exemplo.

Os costões rochosos são mais presentes da metade superior do litoral do Rio Grande do Sul até o Espírito Santo. Há alguns fragmentos também no Nordeste.

 


Arraial do Cabo (RJ), 14/04/2026 – Cardume de peixes e coral-sol (T. coccinea) sob o costão rochoso na Praia do Forno, na Reserva Extrativista (RESEX) Marinha do Arraial do Cabo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Arraial do Cabo (RJ), 14/04/2026 – Cardume de peixes e coral-sol (T. coccinea) sob o costão rochoso na Praia do Forno, na Reserva Extrativista (RESEX) Marinha do Arraial do Cabo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Cardume de peixes sob o costão rochoso na Praia do Forno, na Suplente Extrativista Marinha do Arraial do Cabo – Foto: Fernando Frazão/Filial Brasil

O projeto foi iniciado em 2017, a partir de pesquisadores da Universidade Federalista Fluminense (UFF). A atuação começou pela Suplente Extrativista Marinha do Arraial do Cabo, um lugar protegido e marcado pela riqueza em biodiversidade, porquê explica a bióloga marinha Juliana Fonseca, cofundadora do projeto.

Juliana conta que a rica biodiversidade ─ hotspot, no jargão ambiental ─ é explicada por uma questão geográfica: o veste de Arraial do Cabo ser um “cotovelo” do litoral brasiliano, fazendo a subdivisão entre águas mais frias, que vêm do sul do Oceano Atlântico, e mais quentes, vindas do Nordeste.

“A gente tem pelo menos 200 espécies de peixes. Todas as cinco espécies de tartarugas marinhas que ocorrem no Brasil passam cá um tempo. Aliás, a gente tem diversas espécies de aves, de algas, uma infinidade’, descreve ela.

No mar fluminense, é provável enxergar exemplares encontrados até no Caribe.

Um dos mergulhares e biólogos do projeto, Marcos de Lucena assinala que a particularidade faz com que o mar de Arraial do Cabo seja mais biodiverso que o litoral nordestino. 

“Tem uma riqueza muito maior que Fernando Noronha”, diz, comparando ao arquipélago na costa de Pernambuco.

 

Berçário e espécies ameaçadas

Os costões rochosos são também uma espécie de berçário procedente, ou seja, muitos peixes pequenos são encontrados perto das rochas.

A Filial Brasil acompanhou o recenseamento marítimo no ponto de mergulho publicado porquê Pedra Vermelha.

“É uma superfície que não tem turismo. Só tem mergulho para pesquisa, de quem tem licença”, detalha a bióloga Juliana Fonseca.

Porquê a superfície é uma suplente extrativista federalista, a licença para o chamado mergulho científico é concedida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), ligado ao Ministério do Meio Envolvente e Mudança do Clima.


Arraial do Cabo (RJ), 13/04/2026 – O biólogo Moysés Cavichioli, coordenador do Projeto Costão Rochoso, monitora o ecossistema na Reserva Extrativista (RESEX) Marinha do Arraial do Cabo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Arraial do Cabo (RJ), 13/04/2026 – O biólogo Moysés Cavichioli, coordenador do Projeto Costão Rochoso, monitora o ecossistema na Reserva Extrativista (RESEX) Marinha do Arraial do Cabo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

O biólogo Moysés Cavichioli monitora o ecossistema na Suplente Extrativista Marinha do Arraial do Cabo – Foto: Fernando Frazão/Filial Brasil

Além de peixes, o monitoramento realizado pelo projeto identificou a presença de seres porquê corais, lulas e polvos.

O biólogo marítimo Moysés Cavichioli Barbosa, coordenador-geral do projeto, indica que o trabalho de monitoramento encontrou animais ameaçados.

“Em termos de animais ameaçados, a gente tem muita garoupa, mero, badejo, budiões, raias e tartarugas. Dentro das espécies que a gente trabalha, deve ter pelo menos umas 15 espécies com qualquer tipo de nível de ameaço. Tem espécies que só ocorrem cá no Brasil”, diz.

Tomada de decisão

Barbosa explica que o projeto mantém fala com órgãos gestores, porquê o ICMBio, para fornecer informações sobre porquê deve ser o manejo de atividades porquê turismo e pesca.

“Tem algumas espécies que o ideal mesmo é ter uma moratória, por exemplo, não pode pescar por dois anos”, exemplifica o biólogo em relação ao budião.

Ele fundamenta a orientação, detalhando que algumas espécies porquê essa têm características fisiológicas em que todos os indivíduos nascem fêmea.

“Depois de um tempo, um deles faz a reversão sexual e vira viril. Normalmente o maior. E aí vem o pescador e puf! Mata o maior que tem. Portanto, naquele ano, aquela reprodução já ficou comprometida”, conta.

As evidências científicas repassadas pelo projeto aos órgãos de gestão também incluem pontos porquê distâncias seguras para a presença de turismo náutico e limite de soído de motores das embarcações. Uma pesquisa específica tenta identificar até que intervalo um turista mergulhador pode se aproximar de tartarugas marinhas sem assustá-las.

 


Arraial do Cabo (RJ), 13/04/2026 – Vista de embarcações de passeios turísticos atracadas na Praia dos Anjos, em Arraial do Cabo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Arraial do Cabo (RJ), 13/04/2026 – Vista de embarcações de passeios turísticos atracadas na Praia dos Anjos, em Arraial do Cabo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Vista de embarcações de passeios turísticos atracadas na Praia dos Anjos, em Arraial do Cabo – Foto: Fernando Frazão/Filial Brasil

Mudanças climáticas

O trabalho de monitoramento do Projeto Costão Rochoso inclui a vida encontrada nas entremarés, rochas que ficam expostas em momentos de maré baixa. Um dos estudos é determinar porquê seres porquê algas e mexilhões reagem ao aumento extremo da temperatura envolvente, presente durante ondas de calor.

A bióloga marinha Isis Viana, que acompanha a situação nas entremarés, nota que mudanças de temperatura têm sido mais constantes.

“Tem dias que a temperatura sobe muito, tem dias que baixa muito. Isso afeta essas formas de vida e podem não resistir ao calor”, diz.

“A gente labareda esses momentos de extremos de calor. São anormais e acontecem com mais frequência por culpa das mudanças climáticas, não tem organismos que sobrevivam”, ressalta ela, que conta com sensores nas rochas e boias oceanográficas, ambos captam a temperatura 24 horas por dia.

O projeto tem também entre os objetivos buscar dados para responder, de forma exata, qual é a proporção do litoral brasiliano formada pelo ecossistema costão rochoso.

 


Arraial do Cabo (RJ), 13/04/2026 – Costões rochosos, ecossistema formado por rochas na transição entre o mar, na Prainha, área da Reserva Extrativista (RESEX) Marinha do Arraial do Cabo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Arraial do Cabo (RJ), 13/04/2026 – Costões rochosos, ecossistema formado por rochas na transição entre o mar, na Prainha, área da Reserva Extrativista (RESEX) Marinha do Arraial do Cabo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Costões rochosos, ecossistema formado por rochas na transição entre o mar, na Prainha, superfície da Suplente Extrativista Marinha do Arraial do Cabo – Foto: Fernando Frazão/Filial Brasil

Uso sustentável

Em uma suplente extrativista, a proteção ambiental determina que o uso da natureza deve ser sustentável, com proteção dos meios de vida de populações tradicionais. Pescadores da região, por exemplo, podem exercitar a atividade nessas áreas, assim porquê o turismo é permitido.

O agente de gestão socioambiental Weslley Almeida, do ICMBio, aponta que muitas das demandas necessárias para a gestão da suplente marinha precisam de embasamento científico.

“Essa parceria com o Projeto Costão Rochoso vem para subsidiar essas questões”, diz.

De combinação com Almeida, a suplente é “um ordenamento feito para prometer que esses recursos naturais existam para as próximas gerações dos pescadores artesanais”.

A pesca só é permitida a pessoas da região, seja para subsistência ou término mercantil. Já a pesca industrial é vetada.


Arraial do Cabo (RJ), 13/04/2026 – O pescador José Antônio Freitas Batista atua há 49 anos na Reserva Extrativista (RESEX) Marinha do Arraial do Cabo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Arraial do Cabo (RJ), 13/04/2026 – O pescador José Antônio Freitas Batista atua há 49 anos na Reserva Extrativista (RESEX) Marinha do Arraial do Cabo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

O pescador José Antônio Freitas Batista atua há 49 anos na Suplente Extrativista Marinha do Arraial do Cabo – Foto: Fernando Frazão/Filial Brasil

Há 49 anos, José Antônio Freitas Batista pesca na região. Nas palavras dele, a pesca “representa tudo” para Arraial do Cabo, por isso ele sustenta que a suplente extrativista é razão para a existência da atividade e do estabilidade com o turismo na região.

“Se a gente não tivesse essa preservação, acho que nem o turismo a gente teria, porque o turismo veio porquê complemento de renda para a gente não hostilizar diretamente a pesca com todo o vapor e ultimar com os peixes”, disse à Filial Brasil.

Batista lembra que, além do profissional que vai para o mar, a pesca dinamiza a economia da cidade, gerando trabalho para fábricas de gelo, carpinteiros que consertam embarcações, mecânicos de motores de embarcação e pessoas que fazem instrumentos porquê redes, anzóis e tarrafas, além de comerciantes. “Uma calabouço depende da pesca”, resume.

Socioambiental

Outra frente de atuação da parceria é levar para a comunidade sítio a preço do manejo responsável da suplente formada pelos costões rochosos.

De tempos em tempos, os pesquisadores fazem encontros em escolas e capacitam pescadores e familiares de pescadores.


Arraial do Cabo (RJ), 13/04/2026 – O cientista do mar Yago Ferreira, do Projeto Costão Rochoso, atua com projetos educativos na Reserva Extrativista (RESEX) Marinha do Arraial do Cabo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Arraial do Cabo (RJ), 13/04/2026 – O cientista do mar Yago Ferreira, do Projeto Costão Rochoso, atua com projetos educativos na Reserva Extrativista (RESEX) Marinha do Arraial do Cabo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

O pesquisador do mar Yago Ferreira, do Projeto Costão Rochoso, atua com projetos educativos na Suplente Extrativista  Marinha do Arraial do Cabo – Foto: Fernando Frazão/Filial Brasil

O pesquisador do mar Yago Ferreira, que atua nessa interlocução, defende que “a gente não consegue saber o que não entende e não entende o que está longe”, por isso a urgência da aproximação com a sociedade.

“Caminhar para um sentido da construção de uma mentalidade oceânica mais harmoniosa com o envolvente marítimo”, disse à Filial Brasil.

O coordenador Moysés Barbosa defende que “atingindo a sociedade, se tem muita gente contribuindo com a conservação do meio envolvente”.

“Isso é muito mais eficiente do que qualquer conhecimento acadêmico que sai exclusivamente em item ou que vai exclusivamente lá para Brasília, para um gestor. Trabalhar com a sociedade é muito mais eficiente”, justifica o coordenador.

À Filial Brasil, a prefeitura de Arraial do Cabo informou que realiza estudos técnicos para estabelecer o limite de visitantes em praias e pontos turísticos. “O objetivo é evitar a sobrecarga ambiental e melhorar a qualidade da experiência do turista”, escreveu em nota.

A mando municipal acrescentou que trabalha em parceria com o ICMBio para “fiscalização e para o sucesso das políticas públicas” na suplente extrativista marinha.

Parceria renovada

O Projeto Costão Rochoso começou a parceria com a Petrobras em 2023. A iniciativa da empresa é voluntária e faz segmento do programa socioambiental da companhia. Em 2026 foi renovada por um período de quatro anos. Cada ciclo passa por avaliação para deliberar sobre a perpetuidade. O investimento para o novo período é de R$ 6 milhões.


Arraial do Cabo (RJ), 13/04/2026 – A gerente de projetos de responsabilidade social da Petrobras, Ana Marcela Bergamasco, na Reserva Extrativista (RESEX) Marinha do Arraial do Cabo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Arraial do Cabo (RJ), 13/04/2026 – A gerente de projetos de responsabilidade social da Petrobras, Ana Marcela Bergamasco, na Reserva Extrativista (RESEX) Marinha do Arraial do Cabo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

A gerente de projetos de responsabilidade social da Petrobras, Ana Marcela Bergamasco, na Suplente Extrativista Marinha do Arraial do Cabo – Foto: Fernando Frazão/Filial Brasil

A gerente de projetos na superfície de responsabilidade social da Petrobras, Ana Marcela Bergamasco, assinala que as parcerias exercidas pela empresa precisam confederar interesses ambientais com sociais.

“Tem que trabalhar com a questão social, turismo de base comunitária, com a comunidade e a pesca, mas de uma maneira sustentável, tirando uma visão de que a conservação estaria competindo com alguma atividade econômica”, diz.

“Na verdade, para a população, elas podem andejar juntas e uma contribuir com a outra”, completa Ana Marcela.

*Repórter e fotógrafo viajaram a invitação da Petrobras, parceira do Projeto Costão Rochoso.



Fonte EBC

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