‘Equilibrivm’: veja as principais referências religiosas do novo álbum de Anitta
“Nem tão enlouquecida, nem tão zen. Nem tão prepotente, nem tão baixo-astral”. É mal Anitta define seu ideal de estabilidade.
Depois de convocar um tropa de “poderosas” no Brasil e levar o reggaeton ao topo das paradas globais, a artista sintetiza seu novo momento “good vibes” em seu oitavo álbum, “Equilibrivm”, lançado na última quinta-feira (16).
“Ele fala sobre a pluralidade de crenças. De tudo que faz muito para a gente”, diz a cantora. “Mas também tem muito funk. Fé e sarau sempre foram celebradas juntas no nosso país”, completou.
O projeto traz referências diretas a orixás do Candomblé, pontos de Umbanda, mantras de reflexão budista e símbolos ligados a rituais indígenas.
O g1 conversou com especialistas em história das religiões, antropologia e cultura pop. Também ouviu diretores criativos envolvidos no projeto para entender os conceitos por trás da novidade era “equilibrada” de Anitta. Confira a estudo inferior.
Tipografia, capas, ilustrações
A identidade visual do álbum ficou a função da Arado, marca mineira que se define uma vez que uma “plataforma de pesquisa e divulgação do imaginário rústico brasílico”.
“Ela nos pediu aspectos que representassem as matrizes africanas, mas também o sincretismo religioso brasílico. O álbum fala sobre a relação entre o sagrado e secular. A fé e a sarau”, conta Luís Matuto, diretor criativo da Arado.
Identidade visual do novo álbum de Anitta, ‘Equilibrivm’, feita pela marca brasileira Arado.
Divulgação
O trabalho incluiu as artes de divulgação do disco, as capas dos singles e as ilustrações dos “lyric videos” (vídeos com as letras).
Identidade visual do novo álbum de Anitta, ‘Equilibrivm’, feita pela marca brasileira Arado.
Divulgação
“Em ‘Desgraça’, trouxemos vários elementos do Candomblé, uma vez que as figuras do violeiro, do galo de Exu e da encruzilhada”, explicou.
Identidade visual da fita “Desgraça”, feita pela marca brasileira Arado.
Divulgação
“Já em ‘Caminhador’, das festas populares, uma vez que o Mestiço de Lança do Maracatu nordestino e o Bastião, figura que representa o palhaço nas Folias de Reis do Sudeste”, comenta.
Identidade visual da fita “Caminhador”, feita pela marca brasileira Arado.
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O encontro entre a cantora e o estúdio aconteceu de forma inusitada: Anitta ganhou de presente de seu maquiador um calendário da marca com o tema “Rituais Mágicos Brasileiros”, que reúne 12 ritos, práticas e saberes místicos presentes no cotidiano brasílico, desde amuletos e proteções até sonhos e adivinhações.
A partir dali, ela conheceu o trabalho da plataforma e convidou a equipe para atuar em seu mais novo projeto, que, em alguma medida, retoma o mesmo interesse do calendário: mapear a espiritualidade plural brasileira.
O trabalho foi realizado em duas semanas por Matuto e mais dois designers da equipe.
Clipes divididos em atos
Até o momento, a única fita do álbum a lucrar um videoclipe solene foi “Desgraça”.
A produção inaugura uma “narrativa” dividida em quatro atos, que devem lucrar visuais semanalmente até o dia 7 de maio, sob os temas “Despacho”, “Fé e Sarau”, “Deus Mãe” e “Renascimento”.
“A música é uma saudação a Exu, quem abre caminhos e conecta mundos. Referenciamos a figura da Pombagira uma vez que frase de poder feminino e autonomia do libido”, explica Nídia Aranha, diretora criativa do álbum.
Representação da encruzilhada, presente no clipe “Desgraça”, de Anitta
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“No clipe acompanhamos uma mulher que está acompanhada por essas entidades da rua que dançam, bebem e celebram com ela”, complementa.
Estão presentes elementos uma vez que a jogada de búzios, o galo de Exu e a própria encruzilhada, que representa o ponto de encontro entre o projecto físico e o místico.
A cenografia é feita também de máscaras do Rabi Zimar, artesão maranhense divulgado por fabricar figuras inspiradas nos Cazumbás, personagens lúdicos e espirituais do Bumba Meu Boi.
Trechos do clipe de “Desgraça”, da cantora Anitta
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A coreografia foi assinada por Cassi Abranches, do Grupo Corpo, que pesquisou gestos de incorporação no Candomblé para inventar a movimentação da artista e dos dançarinos.
Letras e samples
Por ora, o projeto possui 15 faixas. Isso porque a cantora já falou publicamente que o álbum lançado nesta semana é unicamente a primeira secção.
O disco tem parcerias com diversos artistas, entre eles a orquestra de reggae Ponto de Estabilidade e Emanazul, dupla brasileira que define seu som uma vez que “música medicina” para “emanar boas ondas sonoras”.
Capote do álbum ‘Equilibrivm’, de Anitta
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Nas letras e temáticas, muitas músicas do disco têm menções religiosas e espirituais. Confira as principais referências:
Desgraça: exalta a força da Pombagira. A letra cita as “sete encruzilhadas” e “sete saias”, elementos da Umbanda que simbolizam o poder feminino e a proteção nas passagens da vida.
Mandinga (feat. Marina Sena): utiliza o samba “O Quina de Ossanha” (Orixá das ervas e segredos) para fabricar uma atmosfera de sedução. A fita evolui de um estado de “manipanço” para um grito de liberdade contra o condicionamento patriarcal.
Caminhador (feat. Liniker): através do trocadilho “Caminha, com a minha dor”, cantoras celebram a jornada místico de quem não para de seguir, transformando cicatrizes em caminho cândido.
Bemba (feat. Luedji Luna): celebra a Bahia uma vez que princípio da resistência afro-brasileira. Faz referências às oferendas (comidas de santo).
Ternura (feat. Melly): evoca a virilidade de Oxum, orixá das águas doces e mãe de Logun Edé (orixá da cantora).
Deus Existe (feat. Ponto de Estabilidade): relato pessoal sobre uma vez que a espiritualidade foi a utensílio de Anitta para encarar as provocações da vida e buscar estabilidade mental.
Nanã (feat. Rincon Sapiência & King): baseada em “Cordeiro de Nanã” (Os Tincoãs), exalta Nanã de Baruquê, a orixá anciã que moldou a humanidade com o barro.
Choka Choka (feat. Shakira): a entidade Cabocla traz o ensinamento da convívio com a natureza. faz referência ao ritual Kuarup indígena, que celebra a vida e a memória dos mortos.
Meia Noite (feat. Los Brasileros): ode a Exu Mulher, onde a artista assume a voz da própria Pombagira para narrar sua atuação na noite em primeira pessoa.
Ouro (feat. Emanazul): o fechamento do álbum funciona uma vez que uma reflexão guiada. Utiliza mantras à diva budista Tara.
Looks e acessórios
Durante sua participação no programa americano “Saturday Night Live”, que foi ao ar em 11 de abril, Anitta utilizou uma espécie de “bracelete” feito de palha-da-costa trançada.
O objeto é um contra-egum: um “talismã” de proteção fundamental nas religiões de matriz africana, uma vez que o Candomblé e a Umbanda.
Cantora Anitta no programa americano Saturday Night Live
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Sua principal função é “fechar” o corpo contra energias negativas e de eguns, termo iorubá que designa espíritos de pessoas falecidas que ainda orbitam o projecto terreno.
O styling dessa “novidade era” da cantora está sendo assinado por André Philipe e Daniel Ueda (uma vez que no clipe de “Desgraça”).
Do lado esquerdo, Anitta no clipe de “Desgraça”; do recta, imagens promocionais divulgadas do novo álbum.
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Segundo Philipe, a escolha das cores é estratégica: o branco que ela usa na orifício do clipe remete às vestes dos iniciados no Candomblé. Já o vermelho, o dourado e o prata evocam a força e o comando das entidades de rua.
O uso de correntes e vestidos curtos, ainda segundo eles, procura transcrever a imagem de uma mulher latina que é, ao mesmo tempo, “quente, romântica e destemida”.
Anitta em imagens de divulgação do seu novo projeto, Equilibrivm.
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Nem primeira, nem a última
Embora o movimento de Anitta chame a atenção pelo alcance que ela possui (o álbum registrou murado de 8,2 milhões de streams nas primeiras 24 horas), ela não caminha sozinha.
Para Luane Fernandes Costa, pesquisadora de sonoridades afro-indígenas e mestra em Estudos da Mídia pela Universidade Federalista do Rio Grande do Setentrião (UFRN), a música brasileira sempre foi um “registo vivo” dessas matrizes.
“Em casas de matriarcas uma vez que Tia Ciata, percussão, quina e dança serviam tanto ao instruído de orixás quanto à sarau, formando um espaço de resistência cultural que ainda reverbera hoje na sonoridade pátrio”, analisa.
Anitta aparece em meio à natureza nas imagens do vídeo-teaser em que revela os nomes das faixas do álbum ‘Equilibrium’
Reprodução / Vídeo ‘X’ Anitta
Ainda segundo ela, estimativas apontam mais de milénio canções na MPB com referências diretas a orixás e entidades, em obras de nomes uma vez que Jorge Ben Jor, Clara Nunes, Alcione e o grupo Racionais MC’s.
Anitta frequenta terreiros desde a puerícia, por influência do pai.
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Sob essa perspectiva, o trabalho de Anitta é visto pela pesquisadora também uma vez que um gesto político.
“Ter uma artista com esse nível de visibilidade trazendo pontos de macumba e saberes vitais ancestrais para suas canções ajuda na preservação da nossa própria existência”, finaliza.
Anitta: relembre a relação da cantora com o candomblé e a espiritualidade
De ‘Show das Poderosas’ a mantras budistas
Para Thiago Soares, professor do departamento de Informação da Universidade Federalista de Pernambuco (UFPE) e técnico em cultura pop, o mergulho místico de Anitta a coloca em uma prateleira ocupada por gigantes.
“Os Beatles tiveram sua era mística com o budismo em ‘Sgt. Pepper’s’; o Brasil viu o Tim Maia Racional e a Madonna nos presenteou com as referências hindus de ‘Ray of Light'”, compara.
Segundo ele, recorrer à espiritualidade depois o álbum “Funk Generation” (2024), marcado por críticas à sexualização da cantora, funciona uma vez que uma “mudança de eixo” estratégica no debate público.
Embora Anitta não se identifique uma vez que uma mulher negra, o professor observa que ela assume um papel de mediadora cultural abrindo novos debates ao pautar estéticas, costumes e crenças de religiões de matriz africana.
Um pouco de Pai Nosso, um pouco de sete ondinhas…
Para o historiador Filipe Domingues, técnico em História das Religiões, o álbum funciona uma vez que uma tradução da formação místico do Brasil.
Anitta em imagens de ‘Equilibrivm’, disco lançado na última quinta (16)
Divulgação
Ele explica que o sincretismo pátrio não foi unicamente um “máscara” usado por escravizados e indígenas para professar sua fé durante a colonização, mas um processo de negociação simbólica e sobrevivência cultural.
“Ao reunir referências afro-brasileiras e indígenas, Anitta recoloca em cena a pluralidade que marcou historicamente a experiência do sagrado no país”, afirma o professor.
A convívio entre o sagrado e o secular, tão presente nas letras, looks, clipes e capas da novidade era da cantora, é outra particularidade histórica destacada por Domingues.
Segundo ele, desde o período colonial, o catolicismo barroco brasílico já valorizava procissões e expressões públicas de fé, um tanto que se intensificou com a imposto dos povos africanos e originários.
“Nesses contextos, o corpo, a música e a dança também são formas legítimas de vivência do sagrado. No Brasil, a sarau não é o oposto da religião, mas uma das suas linguagens”, explica.
Anitta em imagens de ‘Equilibrivm’, disco lançado nesta quinta (16)
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Fonte G1
