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Pássaros e humanos na música 03/11/2026 Música em
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Pássaros e humanos na música – 03/11/2026 – Música em Letras

Na juventude, tive minhas primeiras aulas de flauta transversal com João Dias Carrasqueira (1908-2000), o Canarinho da Lapa. No quintal de sua mansão, algumas árvores atraíam pássaros que vinham consumir os frutos e nos presenteavam com seus cantos. Muitas vezes, meu estimado rabino me pedia que interrompesse os exercícios —certamente minha desentoação era insuportável— e unicamente escutasse os passarinhos.

Um senhor do qual nome não recordo, que consertava flautas em uma das salas da mansão, às vezes se juntava a mim naquela escuta atenta. Identificava as aves e chamava a atenção para suas proezas sonoras: trinados, glissandos —passagens contínuas entre alturas— de uma rapidez espantosa e melodias de fazer inveja a um bom compositor.


Aquelas pausas também eram aulas de música. Carrasqueira me ensinava a perceber, além do instrumento e da partitura, o que os pássaros tinham a oferecer aos ouvidos. Hoje, uma pesquisa ajuda a compreender algumas das semelhanças entre aqueles cantos e os sons que produzimos.

Uma nota se prolonga ao termo de uma frase. A seguinte surge sem um grande salto entre o grave e o agudo. Os sons se sucedem em intervalos regulares. A descrição poderia servir a uma voz humana, mas também ajuda a entender o esquina das aves. Uma pesquisa publicada em 29 de outubro na revista científica Science encontrou padrões comuns nessas duas formas de frase sonora.

O trabalho analisou mais de 74,5 milénio elementos vocais distribuídos em muro de 5.900 cantos de 367 espécies de aves. Para a conferência, os pesquisadores examinaram mais de 15 milénio elementos de fala e esquina, organizados em mais de 800 frases de 52 idiomas humanos.


Entre as semelhanças identificadas estão pequenas variações de profundeza —a passagem entre sons mais graves ou agudos—, ritmos regulares e previsíveis e o prolongamento do último som de uma frase. São características que aproximam vocalizações de espécies distintas, embora não tornem o esquina de um pássaro equivalente a uma cantiga humana.

A pesquisa reuniu cientistas de instituições uma vez que a Universidade McGill, no Canadá, e o Imperial College London, no Reino Unificado. Secção do material veio do xeno-canto, plataforma que recebe gravações de animais feitas por colaboradores de diferentes países. Registros de campo, disponíveis em um pilha público, permitiram confrontar vocalizações em uma graduação que ultrapassa a reparo de poucas espécies.

Uma das questões centrais era saber se aprender a vocalizar faria diferença nessa aproximação. Aves de grupos uma vez que os oscinos, que incluem numerosos pássaros cantores, e os beija-flores aprendem vocalizações ouvindo outros indivíduos. Nos grupos usados para conferência, uma vez que os suboscinos e os bacuraus, a produção sonora depende predominantemente de mecanismos inatos.


Uma vez que a fala e o esquina humanos envolvem aprendizagem, seria plausível esperar maior semelhança com as aves que também aprendem. Os resultados, porém, não mostraram uma relação sistemática entre essa capacidade e os padrões acústicos examinados. A aprendizagem vocal, portanto, não foi uma exigência necessária para o surgimento das semelhanças.

Isso também pede zelo com uma tradução sedutora: a de que o estudo provaria que aprendemos a falar e a trovar imitando os pássaros. A conferência não estabelece essa origem. Os resultados apontam para padrões compartilhados e são compatíveis com a hipótese de que limitações e mecanismos de produção vocal favoreçam soluções semelhantes em espécies distintas.

A investigação dialoga com a biomusicologia, campo que aproxima biologia evolutiva, neurociência e estudos da música para compreender as bases da musicalidade. Nesse encontro, perguntas sobre ritmo, memória e aprendizagem ajudam a examinar uma vez que organizamos sons e por que essa capacidade ocupa tanto espaço na vida humana.


Outros trabalhos já haviam explorado aproximações entre o esquina das aves e procedimentos musicais. Em um cláusula publicado em 2021, Tina Roeske, David Rothenberg e David Gammon descreveram uma vez que o sabiá-poliglota transforma suas sequências sonoras. Mudanças graduais de timbre, profundeza e duração lembram o desenvolvimento de variações sobre um tema. A conferência oferece uma utensílio de estudo, sem provar que a ave componha com as mesmas intenções de um músico.

Para quem faz música, essas pesquisas propõem um manobra de escuta. Um esquina ouvido no parque pode revelar repetições, pausas e transformações que antes passavam despercebidas. Ao improvisar diante dele, o instrumentista escolhe responder, escoltar ou deixar espaço. O dueto nasce dessa decisão humana de prestar atenção aos sons de outra espécie.

Ao lembrar das aulas com Carrasqueira, reconheço quanto foi válida a experiência de parar de tocar para ouvir os pássaros. Aquela escuta ampliou minha percepção de ritmos, timbres e frases e me ensinou a dar atenção às pausas. Levo comigo a prelecção daquele quintal: segmento da formação de um músico acontece quando ele silencia o próprio instrumento e se dispõe a escutar.


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Folha

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