São Paulo
Desafiando a repetição, o espetáculo “Cartas para um Tempo que Não é Agora“ propõe uma experiência única a cada apresentação. A obra é a mais recente geração do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, grupo pioneiro do teatro hip-hop vernáculo, que completa 26 anos neste ano.
A apresentação, que teve seu desenvolvimento durante a residência artística do coletivo no Instituto Capobianco, é definida uma vez que uma peça-podcast, formato híbrido que, nas palavras do diretor Eugênio Lima, junta a teoria de edificar um facto efêmero, uma vez que toda peça de teatro ao vivo, a partir do formato de conversa em áudio.
Eugênio de Lima e Luaa Gabanini, do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos
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Sergio Silva/Divulgação
A diferença fundamental, no entanto, é que não é um podcast que você vai ouvir depois. O facto se desenrola ao vivo e diante dos espectadores.
Essa escolha formal carrega uma intencionalidade política que atravessa toda a pesquisa do Núcleo Bartolomeu. Eugênio labareda esse dispositivo de processo de emancipação, explicando que ele não só emancipa as memórias uma vez que reconfigura a experiência.
A cada uma das 24 apresentações da temporada, que segue até 28 de junho, um convidado dissemelhante ocupa a cena, não para uma conversa coloquial qualquer, mas para um jogo construído a partir de perguntas-ações, formulações que fazem pensar e carregam múltiplas interpretações.
A pergunta que move o espetáculo, entretanto, não é ligeiro. Indagado sobre qual seria a principal inquietação do grupo em 2026, Eugênio sintetiza: refletir sobre o tempo, mas não um tempo abstrato.
Trata-se do “tempo que se depara com a finitude de determinados projetos hegemônicos de mundo que não têm mais sustentação na veras, mas que teimam em subsistir”, diz ele. E a reação a essa teimosia, alerta o diretor, é um processo de devastação muito violenta de todas as outras opções possíveis de mundos para se poder viver.
A dramaturgia do espetáculo emerge de um aprofundamento no próprio registro do grupo. “A gente se deparou com material de mais de 400 horas de gravação ao longo de quase 26 anos de existência”, conta Eugênio.
Mas esse espetáculo de agora faz segmento desse processo de arqueologia do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, uma vez que ponto de partida, não de chegada, afirma o diretor. O que interessa não é unicamente a memória do coletivo, mas uma vez que esses 26 anos de existência estão relacionados aos 26 anos do século 21 e à reflexão sátira da sociedade brasileira.
Em cena, Luaa Gabanini e Eugênio Lima conduzem os encontros, mas a assinatura é coletiva. “Nesse projeto a gente dirigiu os quatro”, conta Luaa, referindo-se ao núcleo criativo mediano que completa com Claudia Schapira e Roberta Estrela D’Alvor. “A gente aprovou junto todas as concepções e direções da montagem.”
A curadoria dos convidados, com nomes uma vez que Marcelino Freire, Xis e Celso Frateschi, também obedece a uma lógica plural. Segundo Luaa, o que guiou o Bartolomeu a pensar nesses nomes foi a inconstância de todas as ordens.
“A inconstância, a multiplicidade de que as pessoas fazem, suas funções —ser um plumitivo, uma jornalista, um ator, um rapper— traz dentro das vivências de cada um um pensamento. Muitas coisas batem, muitas coisas diferem. Isso é bom para a gente ter maneiras de olhar diferentes, pontos de vista sobre o mundo”, diz.
A temporada no Instituto Capobianco, que marca o fechamento da residência do grupo no espaço, é também uma celebração do encontro uma vez que método. Além do espetáculo, o Núcleo promove atividades paralelas gratuitas: a oficina Disco Lição com DJ Eugênio Lima, uma roda de conversa sobre Teatro Hip-Hop 25 Anos com Jé Oliveira, o DCC Peculiar: Encontro de Gerações com Piquete, a mostra de filmes com “Desmontagem Antígona Recortada” e a terceira edição do Slam ZAP! —primeira guerra de trova falada do Brasil.
“O Bartolomeu já esteve no núcleo, no Teatro de Estádio, na Funarte”, recorda Luaa. “O núcleo é um lugar de uma travessia de inconstância, que tem muito a ver com tudo que a gente acredita.”
Ao final, “Cartas para um Tempo que Não é Agora” se inscreve na tradição de um teatro que não se contenta em simbolizar o mundo, mas que quer perfurar frestas para outros mundos possíveis. Um teatro que, uma vez que sugere a citação de Heiner Müller que Eugênio recupera, recusa a “ordem morta onde o êxtase não tem vez”. E que, a cada noite, a cada convidado, a cada pergunta, reivindica o presente uma vez que tempo vivo de geração e resistência.
Cartas para um Tempo que Não é Agora
Instituto Capobianco – r. Álvaro de Roble, 97, Núcleo Histórico. Até 28 de junho. Sexta e sábado, às 20h; domingo, às 18h. Classificação indicativa: 12 anos. Duração: 90 minutos. R$ 30 em Sympla





