Notícias Favoritas

O seu portal favorito de notícias na Internet

Piscinas de David Hockney representaram paixões movediças 12/06/2026
Celebridades Cultura

Piscinas de David Hockney representaram paixões movediças – 12/06/2026 – Ilustrada

O quadro mais famoso de David Hockney mostra os respingos da chuva numa piscina. Alguém acaba de submergir num espelho esplêndido. No fundo, uma mansão de linhas retas e uma cadeira vazia. Tudo é duro, sólido, permanente, menos o vómito da chuva que perturba a ordem e nos dá a certeza de que alguém está ali, embora invisível.

Um dos maiores nomes da arte do século 20, o britânico, morto nesta quinta (11), construiu na ensolarada Los Angeles, onde viveu na dez de 1960, esse registro pleno do libido e da solidão. “A Bigger Splash”, uma das telas mais emblemáticas da história da arte, é zero mais que a constatação de estarmos sozinhos num mundo de presenças frágeis, companhias instáveis.

Hockney contava em entrevistas que pintar os respingos, a chuva em movimento, deu muito mais trabalho do que retratar a mansão ao fundo e duas palmeiras indefectíveis ao lado. A construção térrea, típica do modernismo californiano, e as árvores são itens permanentes da paisagem, pétreos, enquanto a piscina tomada de assalto é coisa de segundos, uma superfície violada por instantes que, no entanto, parece mais imortal do que as pedras.

Ele estava enamorado, de indumentária, pelo amante do momento, mas mais ainda pela teoria de que o libido pode ser vivido e mostrado dentro do registro dos quadros, a pintura uma vez que índice da exuberância de um mundo de possibilidades. Hockney sempre se disse interessado, supra de tudo, pela formosura e pela luz.

Sua obra é de uma simplicidade enganosa. Os traços são nítidos, claros; a modo das figuras orla o cartunesco, o esquemático, são arquétipos. E, ao mesmo tempo, não são —seus retratos, de amigos, de colecionadores, dos próprios pais, dele mesmo, guardam semelhanças com as figuras reais, mas é a pintura que importa, quase uma verdade paralela à rijeza do mundo real.

O manobra de Hockney foi contrapor à verdade mais brutal um mundo virado, de cores saturadas, ângulos menos agudos, espaços iluminados.

Nesse sentido, desafiou todas as vanguardas que atravessaram suas décadas de vida, passou longe do expressionismo abstrato que era a coqueluche da temporada em que fez suas obras mais icônicas, a não ser talvez no clássico “We Two Boys Together Clinging”, os tais dois garotos, na verdade formas geométricas, que se agarram numa pintura do início da curso, ainda em Londres, quando ser gay era ilícito no Reino Uno.

Hockney, no entanto, foi um opífice de outros gestos, momentos isolados que traduzem na própria insignificância a grandeza da vida, o vulgar uma vez que chave definidora da experiência de estarmos cá e agora, podendo submergir na piscina e, talvez, sentir a brisa e o calor do sol.

Suas piscinas, tema recorrente em suas pinturas das décadas de 1960 e 1970, são esses espaços de possibilidade, espelhos móveis que turvam a visão e nisso revelam vontades e desejos escondidos.

“Portrait of an Artist (Pool with Two Figures)” é a síntese disso. Um varão vestido à orla da chuva observa outro que zero na piscina —existe uma sugestão de movimento, simples, mas é o vista enregelado da cena, a expectativa dura, uma vez que se o ar fosse a mais robusta arquitetura, que orquestra a situação. Um varão olha para outro que talvez nem note a presença do voyeur.

O tema dos banhistas, Hockney sabia, simples, é dos mais recorrentes na história da arte. E ele foi um leitor sisudo de tudo que veio antes dele, capaz de olhar na faceta de séculos de pintura e sorrir. Seus banhistas, ao contrário daqueles de Paul Cézanne, talvez os mais belos de todos, não são o ímã do nosso libido.

São os motores de uma atmosfera dentro do próprio quadro, uma narrativa em que ele, o artista, se desnuda mais que a figura dentro da chuva. É a confissão áspera de se entender refém do incontrolável, de paixões movediças.

Numa sequência de “Má Instrução”, Pedro Almodóvar deu asas àquilo que Hockney deixa nas entrelinhas. Ele filma o embate visual entre dois homens nesse banho de piscina, partindo da formação do quadro. Mas o britânico talvez fosse mais clássico, um fanático da tradição de certa maneira.

Seu jogo de estranhamento e sedução lembra um poema de Walt Whitman, outro herói queer que nunca se anunciou uma vez que tal, em que ele narra uma mulher, verosímil alter ego dele mesmo, a observar os homens que nadam à luz do sol. Eles brincam, boiam na superfície da chuva, ela olha de longe. O último verso diz que ali eles estão, à vontade, sem saber quem vai se molhar com os respingos daquela chuva.

Folha

LEAVE A RESPONSE

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *