Pedro Miranda e Forró da Gávea seguem o baile nordestino em álbum feito como se o baião ainda fosse a dança da moda
O grupo Forró da Gávea, criado por Pedro Miranda (de camisa quadriculada), lançam o primeiro álbum, ‘Paixão verdadeiro’
Jorge Papa / Divulgação
♫ CRÍTICA DE ÁLBUM
Título: Paixão verdadeiro
Artista: Pedro Miranda e Forró da Gávea
Cotação: ★ ★ ★ ★ 1/2
♬ Em 2026, o baião já não é a dança da voga em mercado submetido pelo piseiro e pelo brega-funk, entre outros subgêneros imponentes no rentável volta nordestino movimentado por bandas e artistas de forró eletrônico.
Porém, em 1950, todo mundo queria aprender com Luiz Gonzaga (1912 – 1989) uma vez que se dançava e tocava o baião – a ponto de Gonzaga ter lançado naquele ano single com um baião intitulado “A dança da voga” e constituído com o parceiro Zé Dantas (1921 – 1962) com letra que versava sobre a presença poderoso do gênero nas playlists e bailes dos anos 1940 e 1950.
Essa pérola rara de 1950 abre o primeiro álbum do grupo Forró da Gávea, “Paixão verdadeiro”, em gravação que une as vozes de Pedro Miranda e Giuliano Eriston. A presença de Eriston se justifica porque foi esse jovem e talentoso cantor cearense quem trouxe “A dança da voga” para o repertório do Forró da Gávea, coletivo carioca criado por Pedro Miranda em junho de 2018.
O coletivo surgiu para tocar xotes, cocos e baiões em shows com clima de dança, harmonizando o apego às tradições do forró – a rigor, um rótulo genérico que abriga diversos gêneros musicais de origem nordestina – e a liberdade para ir além dos cânones desse universo músico nordestino.
É esse clima de dança com arrasta-pé que o Forró da Gávea intencionou trazer para o álbum editado pela gravadora Biscoito Fino nesta sexta-feira, 12 de junho, com toga que expõe o grupo em foto de Jorge Papa e o nome de Pedro Miranda em destaque, antecedendo o nome do Forró da Gávea.
O esquina sagaz de Pedro atravessa o álbum entre duas faixas instrumentais que celebram o toque e o legado dos sanfoneiros Oswaldo de Almeida Silva – nome do músico fluminense espargido uma vez que Oswaldinho do Acordeon, atualmente com 72 anos – e José Domingos de Morais (1941 – 2013), o Dominguinhos.
O primeiro é venerado com a regravação de “Lamento nordestino” (Oswaldinho do Acordeon e Roberto Stanganelli, 1982), tema lançado pelo cantor pernambucano Sebastião do Rojo (1935 – 2011) e rebobinado pelo Forró da Gávea com o toque do sanfoneiro Nandinho Barros. Já Dominguinhos é saudado com abordagem do tema autoral “O xote do coice” (1999), gravado pelo coletivo com o sanfoneiro Cosme Vieira e o saxofonista e flautista Edu Neves.
Entre uma filete e outra, o Forró da Gávea revisita no álbum músicas mais ou menos conhecidas, fazendo forró popular, mas nunca popularesco. O vasto time de convidados valoriza o álbum gravado com arranjos e direção músico de Rafael dos Anjos, violonista do grupo formado por Durval Pereira (zabumba e percussões), Pedro Aune (contrabaixos acústico e elétrico) e Rodrigo Ramalho (sanfona).
Cantora baiana atuante no volta mútuo carioca, Tâmara Terreno faz duo arretado com Pedro Miranda em “Roendo unha” (1976), parceria de Luiz Gonzaga com Luiz Ramalho (1931 – 1981) lançada há 50 anos por Gonzaga e regravada em 1983 por Elba Ramalho, informação que faz sentido no disco pelo indumento de o esquina vivaz de Tâmara recordar o esquina de Elba.
Música mais previsível em setlists de forró, o xote “Sabiá” (Luiz Gonzaga e Zé Dantas, 1951) tem a macieza aditivada pela voz de Roberta Sá. A recordação de “Cajuína” (1979) tem sabor privativo para quem sabe que o responsável da formação, Caetano Veloso, sempre foi apreciador confesso de Pedro Miranda, cantor hábil nas divisões.
O solo do grave de Pedro Aune na filete sinaliza que, ao menos no álbum, o Forró da Gávea fugiu da risco karaokê forrozeiro, uma vez que reitera a passagem instrumental no meio da gravação de “Kalu” (1952), dengoso baião constituído por Humberto Teixeira (1915. – 1979) e amplificado na voz da estrela Dalva de Oliveira (1917 – 1972).
Pérola rara pescada pelo Forró da Gávea, a música-título “Paixão verdadeiro” (Luiz Bandeira e Severino Dias de Oliveira, 1956) é baião lançado há 70 anos pelo Trio Marayá. Com o esquina lapidar de Mônica Salmaso, hábil ao imprimir toda a melancolia do tema, a filete “Paixão verdadeiro” mostra que o nordestino forrozeiro sofre sem perder o ritmo da dança.
Momento inusitado do álbum, a música ambientalista “Passaredo” (Francis Hime e Chico Buarque, 1975) ganha simetria nordestina, a voz suplementar de Francis Hime e aleatórias citações instrumentais de dois standards da bossa novidade, “O barquinho” (Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, 1961) e “Pequena de Ipanema” (Antonio Carlos Jobim e Vincius de Moraes, 1962).
O álbum “Paixão verdadeiro” retoma o trajectória original ao seguir pela bela “Estrada de Canindé” (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, 1950) em ritmo próxima do xote. Na sequência, o Forró da Gávea traz Teresa Cristina para o dança para revisitar “Uma vez que é grande e formosa a natureza” (Sivuca e Glória Gadelha, 1981) – música lançada na voz luminosa de Clara Nunes (1942 – 1983) – e se junta a Juliana Linhares para reviver muito o xote “Bate coração” (Cecéu, 1980).
A presença de Juliana soa privativo porque, embora o xote tenha sido lançado pela cantora Marinês (1935 – 2007) no volta nordestino, “Bate coração” é música popularizada em todo o Brasil na voz de Elba Ramalho, cantora da qual Juliana é moderna seguidora.
Outra música de Cecéu gravada originalmente por Marinês, “Por debaixo dos panos” (1978) – abordagem marota da hipocrisia social em letra amplificada em graduação vernáculo na voz de Ney Matogrosso em 1982 – tem a picardia revolvida por Pedro Miranda em gravação com o cantor Marcelo Mimoso e o sopro de Carlos Súcia.
Também bate muito no álbum a recordação do coco “Tum tum tum” (Ary Monteiro e Christovão de Alencar, 1958), sucesso de Jackson do Pandeiro (1919 – 1982) regravado com graciosidade pelo grupo com Dadi Roble e Mulato Veloso, que já costumava incluir “Tum tum tum” nos roteiros de shows do cantor.
Única música inédita do repertório, “Cada um, cada um” propõe a integração rítmica vernáculo em gravação que traz o cantor Moyseis Marques, parceiro de Pedro Miranda na formação. É sopro de novidade em álbum em que o Forró da Gávea se alimenta da memória do rico e vasto cancioneiro nordestino englobado sob o rótulo de forró.
O frescor do esquina de Pedro Miranda e do toque dos músicos do grupo irmana músicas de diferentes épocas e estilos, com paixão verdadeiro pelo forró, uma vez que se o baião ainda fosse a dança da voga…
Revestimento do álbum ‘Paixão verdadeiro’, de Pedro Miranda e Forró da Gávea
Jorge Papa / Divulgação
Fonte G1





