Por que homens estão mostrando o bumbum em filmes e séries – 30/06/2026 – Ilustrada
Todo mundo tem, mas nem todos topam mostrar, principalmente os homens. Mas o bumbum masculino tem aparecido cada vez mais em grandes produções audiovisuais. De Jesuíta Barbosa no filme vernáculo “Varão com H” a Alexander Skarsgard no britânico “Pillion”, de Xamã na romance “Renascer” a Charles Melton na segunda temporada de “Treta”, atores daqui e de fora se sentem cada vez mais à vontade em mostrar sua porção traseira.
No streaming, a tendência se acentua ainda mais, com outros casos recentes envolvendo “Tremembé”, “The Boys”, “The White Lotus”, “Too Much”, “Hacks”, “Industry”, “Off Campus: Amores Improváveis”, “The Beauty: Lindos de Morrer” e “Rivalidade Ardente”, fenômeno canadense impulsionado, em segmento, pelos corpos —e nádegas— sarados dos “it boys” do momento, Hudson Williams e Connor Storrie.
Em generalidade, todas as produções tiveram repercussões impulsionadas, em segmento, pelos nus masculinos. Já no caso das novelas, o ritmo é mais tímido, embora cenas de nudez também estejam se infiltrando nas tramas aos poucos, porquê em “Todas as Flores”. Procurada, a Orbe não quis falar sobre o tema.
“Vejo essa mudança porquê uma resposta a um audiovisual que tanto explorou o corpo feminino. Filmes com homens e mulheres mostravam muito mais o corpo feminino em cenas de sexo”, afirma o diretor Esmir Rebento, de “Varão com H”. “Por que a gente não pode mostrar tanto um quanto o outro?”
Até porque os glúteos são comuns a todos. “Zé Celso [diretor e fundador do Teatro Oficina] falava que o cu é a coisa mais democrática do mundo”, diz o ator Kelner Macêdo, que gerou furor ao surgir vestindo uma calcinha fio dental na série “Tremembé”, em que interpretou Cristian Cravinhos.
“Foi uma loucura, representou muito o tipo de sociedade em que vivemos. É engraçado, porque essas filmagens não são uma questão. Tudo é técnico e coreografado, porquê uma cena de ação”, diz Macêdo. Para o ator, o propósito por trás dessa nudez pode tanto envolver um aprofundamento no personagem quanto o libido de validar determinados corpos ou subverter símbolos e comportamentos sexuais vigentes.
Críticos da nudez frequentemente associam o foco nas nádegas, ou em outras partes descobertas do corpo humano, ao excesso. “Mas precisa disso?”, questionam. Esmir Rebento responde que, em alguns casos, sim. A validade de cenas porquê essas está na construção de sentido para um personagem ou uma cena.
“No caso de ‘Varão Com H’, estávamos falando de um ícone [o cantor Ney Matogrosso] que, aos 85 anos, continua um símbolo sexual. A sexualidade foi importante para a formação não só de seu caráter, mas de Ney porquê artista. Portanto, porquê é que eu não vou pôr isso no filme?”, questiona o diretor.
Há ainda uma notável presença do nu masculino em tramas queer. É o caso de “Rivalidade Ardente”, sucesso global que, nas redes sociais, cativou homens e mulheres, gays e héteros, com sua história de paixão ambientada no universo do hóquei e narrada de forma crua, sem timidez.
Outra produção do tipo que serve porquê exemplo é a polonesa “Proud”, da HBO, na qual o protagonista, um jovem gay festeiro, é incumbido da missão de cuidar da sobrinha.
Os motivos para o desenvolvimento do que pode ser visto porquê uma fetichização do corpo masculino, posteriormente anos de normalização do corpo feminino nu em cena, são a presença crescente de diretores, roteiristas e produtores LGBTQIA+ ou mulheres por trás das câmeras.
“Acredito que, quando os autores queer assumem o ponto de vista, assim porquê as mulheres, há uma subversão. Gerar outras perspectivas para o corpo masculino é um tanto presente, majoritariamente, nesses projetos”, afirma Macêdo.
“Há uma maior amplitude de mercado agora. Antes, o varão branco, cisgênero e hétero era sempre o núcleo da narrativa. Hoje, outras pessoas emergem nesse espaço, assim porquê na tomada de decisão”, ele continua. “Quantas vezes eu ouvi reclamações de amigos atores que faziam um filme sobre variação dirigido por um rostro hétero, quadrângulo, sem conhecimento de zero e com preconceito de quase tudo?”
Essa mudança também acontece longe dos sets de filmagem. Segundo André Maranhão, cirurgião plástico e um dos diretores da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, há um aumento gradual da procura por procedimentos voltados ao perímetro dos glúteos. Ele cita, entre os exemplos, a lipoenxertia glútea, um enxerto de gordura do próprio paciente, e os implantes.
“O desenvolvimento mais significativo, porém, foi naqueles procedimentos minimamente invasivos, com o uso de bioestimuladores de colágeno e, em casos selecionados, preenchedores à base de ácido hialurônico”, afirma Maranhão.
O perfil que mais procura as intervenções cirúrgicas é o de homens entre 20 e 50 anos. Geralmente fisicamente ativo e preocupado com imagem corporal e bem-estar, diz o médico.
“Quanto à orientação sexual, esse não é um paisagem que costuma nortear. O interesse pela estética corporal masculina tem se tornado cada vez mais transversal, envolvendo diferentes perfis sociais, profissionais e estilos de vida.”
Há também maior preocupação com exercícios físicos, inclusive aqueles que trabalham a região das nádegas. Segundo dados do aplicativo de saúde Whoop, o registro de atividades relacionadas aos glúteos dobrou entre os homens que usam a instrumento, nos Estados Unidos, nos últimos dois anos.
Assim, o bumbum “de verão” virou objeto de libido também entre os homens. “Há anos existe um esforço coletivo em repensar os papéis masculinos. Isso inclui o que é belo ou não; e a bunda está no núcleo desse debate”, afirma Andreh Santos Francisco, antropólogo e diretor na Sociedade Brasileira de Estudos de Sexualidade. “Antes, era uma superfície muito mal vista e temida, principalmente pelos héteros.”
Forma-se aí uma bunda masculina ideal, porquê as que surgem em “Rivalidade Ardente” —musculosa, empinada e com baixa gordura. “Hoje, o padrão é o escultural, com valorização do tônus. É nítido ao olhar as produções audiovisuais”, continua o antropólogo. “Não há uma grande variação. Volta e meia aparece uma mais fininha, outra mais caidinha, mas não é a regra.”





