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Qual a melhor tradução da 'Odisseia' segundo especialistas 02/08/2026
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Qual a melhor tradução da ‘Odisseia’ segundo especialistas – 02/08/2026 – Ilustrada

Ver o filme “A Odisseia”, de Christopher Nolan é saber que não se trata de uma adaptação definitiva da obra clássica de Homero. O longa atualmente em edital é fruto da tradução do diretor, assim uma vez que acontece com todas as traduções da obra em livro.

Para os que não leem heleno, o mercado editorial fornece dezenas de versões trazidas para o português que buscam superar as barreiras culturais, históricas e linguísticas do texto original.

Porquê escreveu o prateado Jorge Luis Borges no experimento “As Versões Homéricas”, de 1932: “A ‘Odisseia’, graças ao meu oportuno ignorância do heleno, é uma livraria.” É o mesmo que ecoam os tradutores da atualidade. A inconstância de traduções enriquece a obra de Homero e multiplica os mais de 12 milénio versos do poema em um número incomensurável.

No texto, Borges diz que, no caso de uma obra tão famosa uma vez que “Odisseia”, a primeira leitura é, na verdade, a segunda, já que o leitor abre o livro já sabendo um tanto sobre ele. O filme só reforça isso. Não à toa, Nolan chegou a reportar a tradução da classicista Emily Wilson uma vez que referência para sua adaptação.

Ela, a primeira mulher a fazer esse trabalho, ficou célebre por ter publicado, em 2017, uma versão em inglês do clássico em linguagem moderna, abrindo o heróico com o verso “fale-me desse varão complicado”. Apesar disso, Wilson criticou a versão de Nolan num texto que viralizou.

Logo, antes de buscar a tradução definitiva, uma vez que diz o professor Luis Vilar, vale compará-las semelhante de aprofundar suas reflexões. Vilar foi professor de literatura para o ensino médio e hoje produz teor nas redes sociais sobre literatura grega e russa, temas em que é “viciado”, uma vez que diz.

“Cada quina traz várias lições de vida”, afirma o professor. Pensando em acessibilidade, ele destaca duas traduções, a de Leonardo Antunes, que sai pela Mnema, e a do português Frederico Lourenço, disponível na Companhia das Letras.

“O meu objetivo principal na tradução foi fazer corresponder cada verso de Homero a um verso em português, esforçando-me por me manter o mais próximo verosímil do original”, explica Lourenço, reconhecido uma vez que um dos maiores helenistas da atualidade. Ao trasladar, ele se preocupou mais em respeitar a distribuição original do que se adequar a um rigor métrico em português.

O texto original de Homero foi escrito em hexâmetro dactílico, uma forma de construção poética em seis partes, chamadas pés, que alterna entre sílabas longas e curtas. Um pé dactílico possui uma sílaba longa e duas sílabas curtas —repetidas seis vezes, formam um verso hexâmetro.

A estratégia de Antunes foi transformar cada hexâmetro heleno em um decassílabo vernáculo —um verso de dez sílabas poéticas, tradicional na língua portuguesa. “Esse desmembramento respeita tanto o caráter saliente, solene e tradicional da épica quanto a fala oriundo da trova de Homero”, explica o tradutor.

Antunes diz que “não perdeu o sono” quando não conseguiu seguir a fórmula que criou. “Parecia mais importante que o poema fluísse e soasse muito.”

Segundo o poeta, tradutor e crítico Guilherme Gontijo Flores, a maioria dos leitores quer só “perspicuidade e facilidade de leitura”. Para ele, se destaca a tradução de Christian Werner, publicada pela Ubu, por sua abordagem antropológica e filológica.

Ser uma boa adaptação, de negócio com o crítico, não é ser necessariamente clara. “O heleno da trova homérica aparentemente não foi falado em nenhum lugar da Grécia. Ele devia ter sua opacidade e dificuldade desde sempre, porque não era a língua coloquial cotidiana.”

Na visão de Gontijo Flores, uma tradução considerada difícil pode, na verdade, estar se aproximando desse vista do texto original.

Mas Donaldo Schüler, que traduziu a “Odisseia” em versão publicada pela L&PM, discorda disso. O que o professor de língua e literatura grega da UFRGS entende é que o texto de Homero era “leal” aos leitores daquele tempo —”a obra estava na formação das crianças gregas”, uma vez que diz o tradutor. Por isso, produziu uma versão leal aos leitores de hoje, com expressões e formas de tratamento atuais.

Cada tradução secção de um pressuposto e evidencia um conjunto de características do texto heleno. “Traduções são respostas simultaneamente interessantes para uma mesma obra complexa”, uma vez que diz Gontijo Flores, que está dando início à sua própria tradução de Homero.

O professor Emerson Cerdas, que leciona língua e literatura grega antiga na Unesp, complementa: “Nenhuma tradução será capaz de reproduzir simultaneamente todos os aspectos do original”. Ele afirma que “melhor tradução” não é uma categoria absoluta.

“Minha preferência por Werner decorre do estabilidade que ela alcança entre precisão, legibilidade e qualidade poética. Ele defende um tanto da estranheza de Homero sem transformar essa estranheza numa barreira”, diz.

Nascida na tradição verbal, a “Odisseia” é marcada por repetições, fórmulas e epítetos, que Werner preserva.

“Eu quis produzir um texto interessante, sedutor, mas ao mesmo tempo que não aplainasse demais as dificuldades inerentes à tentativa de compreender o indecifrável. O texto foi produzido sob condições quase completamente desconhecidas por nós”, afirma Werner.

A “Odisseia” é tão antiga que até suas versões traduzidas já se tornaram clássicas, uma vez que é o caso do texto de Odorico Mendes, produzido no século 19 e hoje publicado pela Principis. Tida uma vez que uma versão difícil, o professor Luis Vilar diz que, ao ler, se sentiu “jogado para fora” da história.

“A tradução é tão complicada que, em muitos momentos, tive que parar a leitura para fazer pesquisas. Isso acaba me afastando da venustidade da obra, que propõe a união entre forma e teor.”

O historiador e noticiarista Marcos Valer destaca a tradução de Trajano Vieira, cuja publicação pela Editora 34 lhe rendeu um Jabuti. É uma obra voltada à dimensão poética de Homero, mais preocupada com sonoridade e ritmo do que significado. “Por isso, sua leitura exige maior atenção, mas oferece uma recompensa também maior para quem aprecia literatura e trova clássica”, diz o historiador.

Folha

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