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Reinaldo Moraes faz 'playground maluco' no livro 'Noitada' 05/06/2026
Celebridades Cultura

Reinaldo Moraes faz ‘playground maluco’ no livro ‘Noitada’ – 05/06/2026 – Ilustrada

Um varão com mais de 50 anos e uma mulher que se aproxima dos 40, sua ex-namorada, entram em um táxi num domingo à noite, saindo de um bar em direção a um apartamento na avenida Higienópolis, onde uma jovem atriz os espera acompanhada de uma terceira mulher misteriosa.

É junho de 2013 e as ruas que ligam o núcleo de São Paulo ao sorte estão paradas por culpa das manifestações que incendiavam a cidade naquelas semanas. Uma viagem que não deveria resistir mais de dez minutos se estende pelas centena primeiras páginas de “Noitada”, que Reinaldo Moraes lança pela Todavia na Feira do Livro.

Moraes, que brinca ser assaltado por uma grafomania patológica, encarou “Noitada” porquê um duelo. “Ninguém teria saco de ler tantas páginas de um táxi parado no trânsito, logo me desafiei a fazer com que uma situação inercial tivesse movimento literário.”

Cada pormenor da noite do protagonista Kabeto, redactor habitué da farra paulistana, cria uma constelação de significados ao transcurso do romance, que vem sendo anunciado pelo responsável desde 2018 porquê prolongação de “Maior que o Mundo”.

Com quase toda sua obra publicada na Companhia das Letras, Moraes migra o aguardado romance para a novidade editora depois de mais de dez anos retrabalhando seus personagens e intrigas.

A história nasce em 2013, quando em uma mesa de bar o cineasta Beto Marquez pediu ao responsável uma narrativa para um filme. Sua teoria inicial era adequar “Pornopopeia”, obra elogiada por críticos à profundidade de Roberto Schwarz, mas os direitos já tinham sido vendidos para Rodrigo Teixeira, produtor de “Ainda Estou Cá”.

Quando o companheiro pediu por um “Pornopopeia 2”, Moraes foi até o banheiro e voltou com a história de um redactor que está há mais de 20 anos em bloqueio criativo e encontra em uma caçamba o quotidiano de um liliputiano, que decide plagiar. “Ficou um roteiro imenso, de mais de 300 páginas, que ele enxugou até caber em 90 minutos”. O resultado foi o filme “Maior que o Mundo”, de 2022.

Marquez ficou com os direitos para o cinema e Moraes manteve os direitos editoriais. “Pensei: vou desentortar esse texto, tirar da forma de roteiro e em no supremo três meses publico porquê livro”, conta o responsável.

Quando chegou a grafar 600 páginas, depois três anos dedicando-se à história de Kabeto, Moraes decidiu fazer dela uma trilogia, anunciada no momento do lançamento de seu primeiro volume.

“Depois percebi que com mais um livro dava para matar a história e comecei a publicar a teoria de ser uma trilogia em dois volumes, uma inovação em material de trilogia”, Moraes ri da própria piada.

Quando o segundo volume bateu as milénio páginas, o responsável decidiu dividir o romance em dois, oriente “Noitada” e uma obra ainda em produção. “Eu perdi a piada da trilogia de dois volumes porque a maior secção do novo livro já está escrita.”

Quando a antiga editora sugeriu muitas mudanças em um romance que para o responsável já estava bom demais, ele decidiu encaminhar o manuscrito para a Todavia. “Porque literatura é que nem sexo: você faz o que quer e o que pode. Nessa eu resolvi mandar para o Flávio Moura [editor da Todavia], que em uma semana fechou o livro. Foi inclusive um refrigério para a Companhia.”

Mudança de editora não significa mudança de estilo, e “Noitada” segue a mesma lógica formal que consagrou Moraes porquê um dos mais celebrados autores brasileiros contemporâneos: falar em sexo e drogas com o mais eminente proporção de refinamento literário. Ou, nas palavras de Schwarz, uma impressionante “combinação de registro chulo com escrita elaborada e inventiva”.

Depois da viagem pelo núcleo de São Paulo, Kabeto e Mina desembarcam no prédio Bretagne, de Artacho Jurado, para uma noite regada a espumante francesismo e o que Kabeto labareda de ” farinha mágica dos Andes”, que ele recusa, mais afeito à maconha. Um “belo combo junky-erótico-etílico”, diz o personagem.

Por mais que cada pormenor, imaginação e sentimento descrito ao longo daquelas páginas aponte para a situação erótica, para Moraes é evidente que sua intenção não é despertar os brilhos sexuais do leitor.

“Sempre achei cenas de sexo em literatura constrangedoras, porque ou é de um assepticismo lírico ou é muito grossa, coisa que nem se lê em textos que são considerados literatura. Por que não tratar sexo porquê comédia?”

Ele se inspira no poeta e romancista Charles Bukowski —de quem traduziu “Mulheres” para a L&PM— para edificar uma experiência sexual realista pela via cômica. “O sexo é um território de desencontros, desenganos e mal-entendidos que costumo grafar no registro de comédia. Acaba saindo assim da minha cabeça meio ferrada.”

Assim porquê o protagonista de “Mulheres”, Henry Chinaski, Kabeto nutre relações complexas com as mulheres ao seu volta, frequentemente culpado de misoginia em uma variedade impressionante de termos usados pela ex-namorada. “Ele tem um perfil desatinado, o rosto que não está nem aí para o curso da história”, diz Moraes.

No táxi, os personagens da classe média artística paulistana se irritam com o trânsito sem entender muito muito o significado das Jornadas de Junho, que servem de contraponto narrativo às vidas privadas que levam entre o bar e o apartamento.

Moraes optou por comentar o reacionarismo que crescia na sociedade brasileira naquele momento, antecipando o processo político que culminou na eleição de Jair Bolsonaro, somente “por eminente, para não virar o núcleo de discussão” do romance.

Mas temas sociais despontam no tecido da narrativa, porquê quando, refletindo sobre seu livro, Kabeto pensa: “Talvez liliputiano de circo não seja mesmo o tipo de personagem literário mais da hora no Brasil de hoje. E que tipo de personagem seria? Certamente alguém enfrentando preconceitos e condições sociais adversas”.

Mas, ao contrário de Chinaski e Bukowski, Kabeto não é espelho de Reinaldo Moraes. Para ele, a literatura “é um epifenômeno da verdade”.

“Estamos num momento de asseveração racial e de gênero. As pessoas saíram do armário e junto com elas, saiu a linguagem, a vontade de falar das experiências.” Ele lembra de sua amizade com Caio Fernando Abreu e, mais recentemente, com Amara Moira e elogia a obra de Eliana Alves Cruz. “Para mim não existe literatura queer ou literatura negra: é literatura.”

Ao intercalar entre as vozes da primeira e da terceira pessoa, inventar palavras-valise sem alça e forçar os limites da moral e da literatura com humor, Reinaldo Moraes define seu novo livro porquê “uma espécie de playground maluco” do espaço literário contemporâneo.

Folha

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