Quem Ama Cuida choca e conquista pela antiteledramaturgia – 13/08/2026 – Ilustrada
Quem acompanha “Quem Governanta Cuida” sabe que a hipervilã Pilar tem um problema sério com sua filha Brigitte. Ainda não foi revelada a questão que envolve as duas, mas a mãe frequentemente trata a filha porquê um bicho selvagem. É uma violência brutal, que curiosamente não espanta ninguém.
No capítulo 72, exibido na última segunda-feira, Pilar almoçava com seus três filhos, quando se dirigiu a Brigitte e cuspiu o seguinte texto: “Não sei por que você ainda tem lugar de fala nessa mesa. Sua prestação de chatice já se esgotou por hoje. Você não terminou? Come rápido porque eu quero que você saia da mesa. Tive uma teoria melhor. Vai consumir a sobremesa com os empregados”.
Brigitte respondeu: “Eu vou feliz, mãe. Eu acho que sou muito mais bem-querida na cozinha do que cá”.
Nas novelas de horário superior de Walcyr Carrasco, o efeito sobre o testemunha, o choque e o impacto que as cenas causam, é sempre mais importante do que a construção do texto. É um estilo que costuma ser revertido em bons índices de audiência.
Arrisco expressar que Walcyr pratica uma espécie de “antiteledramaturgia”. Os inúmeros entrechos que cria têm primícias e termo, mas o responsável não perde tempo com o meio do caminho. As situações sempre resultam em susto, espanto, gritaria, gestos brutos. O testemunha não encontra espaço para imaginar o que pode intercorrer nas novelas do responsável. Tudo vem pronto.
Os números de audiência, mais uma vez, provam que esse tipo de romance agrada ao público. A esta profundidade, a trama já acumula média de audiência superior à bem-sucedida romance anterior, “Três Graças”, de Aguinaldo Silva, e se aproxima dos números registrados por “Vale Tudo”, de Manuela Dias. Tudo indica que será mais um folhetim de sucesso de Carrasco.
Cada ponto na Grande São Paulo, o maior mercado do país, equivale a 199.633 indivíduos. Com a Orbe penando para recolocar a audiência das tramas do horário superior numa filete superior a 25 pontos, o responsável não se arriscou.
“Quem Governanta Cuida” tem a mesma premissa de “O Outro Lado do Paraíso”, exibida entre 2017 e 2018, que registrou média de 38 pontos e se mantém porquê a melhor audiência de uma trama das 21h desde 2013.
Carrasco criou novamente uma trama francamente inspirada em “O Conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas. Trata-se, porquê é mundialmente reconhecido, do mais tradicional dos folhetins sobre a vingança de um simples injustamente sentenciado e recluso por crimes que não cometeu.
A fisioterapeuta Adriana, vivida por Leticia Colin, aceita se matrimoniar com um milionário idoso, Arthur Brandão, papel de Antonio Fagundes, porque ele não quer dividir sua legado com os irmãos, sanguessugas interesseiros. Mas o personagem é assassinado na noite da união e Adriana é injustamente acusada, condenada e presa por sete anos por desculpa do violação.
Uma novidade importante em “Quem Governanta Cuida” é a parceria de Carrasco com Claudia Souto –os dois assinam juntos a romance. Claudia foi colaboradora ou autora de várias tramas das 19h, uma filete dedicada a histórias mais leves e divertidas.
Esquemática, a romance já informou aos espectadores que Adriana vai se vingar de meia dúzia de personagens, um de cada vez, até chegar ao confronto final com Pilar, a vilã ultracaricata da romance, interpretada por Isabel Teixeira.
Pilar é uma vilã de manual de romance da Orbe, um misto de indivíduo de história em quadrinhos, com gestos cômicos, e personagem de tragédia grega. Além de tratar mal a filha Brigitte, humilha os empregados, trata a cadelinha Maria Antonieta porquê princesa e bebe champanhe o dia inteiro.
Sem ter zero de importante para fazer, Pilar se dedica a perseguir Adriana, que vive em liberdade condicional. A heroína sofre também por não poder viver o seu paixão com o príncipe da história, o jovem e bondoso legisperito Pedro, interpretado por Chay Suede, que é casado, sem amar de verdade, com uma patricinha insegura.
Na primeira tempo da vingança de Adriana, atualmente em exibição, a vítima é Ademir, o legisperito que ajudou a condená-la e sobre quem pesam suspeitas de ações inescrupulosas e criminosas.
A mocinha conseguiu convencer uma secretária de Ademir a denunciá-lo por assédio sexual. O violação, de trajo, ocorreu, e a exposição do tema na romance é importante. Até o momento, a motivação de Adriana se divide entre a indignação pelo assédio praticado pelo legisperito e o seu libido de vê-lo arruinado pessoal e profissionalmente.
Outro tema relevante tratado pela romance é o da fragilidade emocional de Brigitte, vivida por Tatá Werneck. A personagem é obsessiva, não aceita rejeições e tem rompantes agressivos quando os seus relacionamentos não vingam. É um tema difícil, que até o momento está sendo levado com alguma seriedade.
Mas o que o público dá sinais de gostar, segundo levante jornal, é da vilã Carmita, vivida por Deborah Evelyn. É uma personagem já feita e refeita uma centena de vezes —a sogra que manipula a filha, atormenta o genro e faz qualquer negócio para se dar muito na vida. Carmita é chatérrima, posa de esperta, mas caiu num golpe ao namorar um varão mais jovem que ela e perdeu uma riqueza.
Por que os espectadores gostam de Carmita? Talvez porque Deborah Evelyn carregue nas tintas e deixe a personagem ainda mais exagerada –e ridícula– do que já é. Trata-se de uma sogra inconveniente, uma mãe abusiva e uma mulher conservadora e antifeminista, defensora de Ademir, o varão réu de assédio sexual.
Dois outros núcleos importantes se arrastam em “Quem Governanta Cuida”. Um é o clássico núcleo dos serviçais da vilã Pilar. Espécie de consolação cômico da trama, cheira a naftalina. O outro é o da família de Adriana. Seu avô, Otoniel, vivido por Tony Ramos, é homofóbico com o neto —um bom tema— e, ao mesmo tempo, está vivendo uma experiência mística, ao ter encontros com o espírito de uma mulher.
Tudo somado, “Quem Governanta Cuida” ensina que ainda há margem de manobra no horário superior da Orbe. A TV ocasião segue relevante para os negócios da emissora e é preciso remoinhar a roda. Os números de audiência reiteram que Walcyr Carrasco tem uma sabedoria –ou despudor– que outros autores não têm.





