Retrospectiva de Aki Kaurismäki traz beleza dos perdedores – 29/07/2026 – Ilustrada
Podemos pensar num termo maior do que “imperdível” para se aproximar do evento que o CineSesc promove a partir desta quinta —a “Retrospectiva Aki Kaurismäki”, com os longas realizados pelo cineasta finlandês, desde o seu primeiro, “Transgressão e Penalidade”, de 1983, até o mais recente “Folhas de Outono”, lançado há três anos.
São 18 longas de ficção ao todo, com integral destaque para as duas trilogias que o definiram uma vez que um responsável importante da pós-modernidade dos anos 1980, a do proletariado e a dos perdedores.
Seu estilo é inconfundível. Privação de naturalismo, silêncios estratégicos em cenas que normalmente teriam falas, paixão pela música, personagens tímidos ou taciturnos, visão sombria da urbanidade e principalmente da Finlândia, pessoas boas em proximidade com o transgressão, campos e contracampos frontais nos diálogos, entre outras marcas.
Em meados dos anos 1980, em seguida um filme propositalmente vagabundo e jocoso, “Calamari Union”, de 1985, inicia a chamada “trilogia do proletariado”, que compreende seu terceiro longa, “Sonhos no Paraíso”, de 1986, “Ariel”, de 1988, e “A Pequena da Fábrica de Caixas de Fósforos”, de 1990.
Seu estilo se consolida definitivamente nesses três longas adoráveis, entremeados por outros trabalhos de menor sentença. Um desses é o divertimento “Os Leningrad Cowboys Vão para a América”, em 1989, com membros da margem de rock que acompanham o diretor desde o início da curso.
Voltando à trilogia, os dois primeiros longas terminam com a promessa de paraíso. No terceiro, uma vez que o próprio Kaurismäki admitiu, a felicidade já não era mais verosímil. Por isso, saímos de “Ariel” com um sorriso no rosto, e “A Pequena da Fábrica de Caixas de Fósforos” é um dos filmes mais tristes da história. Assim, tece uma sátira feroz ao capitalismo e à falência do humanismo na Finlândia.
Depois disso, filmou, respectivamente, em Londres e Paris, o ótimo “Contratei um Matador Profissional”, de 1990, com Jean-Pierre Léaud uma vez que um gálico que vai para Londres porque ninguém gostava dele na França; e o curioso “A Vida da Boêmia”, de 1992, no qual ele tenta fazer justiça a Henri Murger —romancista de “Cenas da Vida de Boêmia”— e se vingar do italiano Giacomo Puccini, muitas vezes lembrado uma vez que responsável da história original graças à sua adaptação para a ópera.
A volta à Finlândia se dá com “Cuide do Seu Lenço, Tatjana”, de 1994, no qual volta a trabalhar com a atriz Kati Outinen, uma perfeita personificação da melancolia.
É uma tempo irregular, uma vez que se o diretor só conseguisse se dar muito em blocos temáticos. Tal problema é gloriosamente interrompido por sua obra-prima, “Nuvens Passageiras”, lançada há 30 anos, sobre uma garçonete e um condutor de bonde que ficam desempregados ao mesmo tempo.
O longa inaugura a “trilogia dos perdedores”. Volta à sátira social mais profunda e a um retrato amargo do país, ainda que a esperança e o sentimentalismo sejam evidentes. Charlie Chaplin e Frank Capra se unem uma vez que as principais referências, além de outras notáveis, uma vez que Robert Bresson, Yasujiro Ozu, Jean-Luc Godard, Luis Buñuel e Rainer Werner Fassbinder.
Sobre isso, convém lembrar as palavras do historiador de cinema finlandês Peter von Bagh, que destaca a arte de seu país uma vez que outra manadeira do estilo de Kaurismäki. O cinema finlandês do pós-Guerra sobretudo, de nomes uma vez que Teuvo Tulio e Erik Blomberg, influenciou bastante o diretor.
Timo Salminen, diretor de retrato de quase todos os filmes de Kaurismäki, é fruto de Ville Salminen, um dos mais prolíficos cineastas daquele país. Salminen pai filmou dos anos 1930 aos 1980 e é, segundo Von Bagh, o mais próximo que se chegou de um cinema hollywoodiano na Finlândia.
A “trilogia dos perdedores” prossegue com “O Varão sem Pretérito”, de 2002, quadra em que o diretor já ocupava um outro status, sendo comemorado nos festivais por onde passava. Desta vez, o protagonista é um varão brutalmente espancado que milagrosamente se recupera, mas sem qualquer memória de sua vida.
Em seguida, há o belo e um tanto tortuoso “Luzes na Negrume”, de 20 anos detrás, com as desventuras de um vigia noturno sonhador. É um filme pequeno, mas com problemas de ritmo. Apesar disso, é um ótimo fechamento para a segunda trilogia, e tem uma imagem final de rara força.
Seus três últimos longas não formam uma novidade trilogia, ao menos por enquanto. “O Porto”, de 2011, reflete uma preocupação com a imigração proibido e os maus-tratos recebidos por aqueles que viajam em procura da sobrevivência financeira.
Seis anos depois, surge “O Outro Lado da Esperança”, de 2017, que acompanha o mesmo movimento, ao ver um refugiado sírio sofrendo com o preconceito e a intolerância na tentativa de se adequar à sociedade finlandesa.
Finalmente, “Folhas de Outono”, de 2023, é considerado por alguns uma vez que uma sequência à “trilogia do proletariado”. A teoria é discutível, já que o filme também tem ligações com a “trilogia dos perdedores”, e parece, na verdade, reunir toda uma teoria de cinema segundo o realizador.
A trama simples observa os encontros e desencontros de uma repositora de supermercado e de um operário alcoólico. É uma preciosidade da comédia romântica, que lembra o clássico “Tarde Demais para Olvidar”, para nos doar com a melhor atualização de Charlie Chaplin em tempos recentes.
Parafraseando o próprio Kaurismäki, podemos expressar que saímos melhor do cinema depois de ver filmes uma vez que nascente —e uma vez que tantos outros deste cineasta de imensa riqueza cinematográfica.





