Ritrovato restaura ‘Aurora’, de F.W. Murnau, e lota salas – 22/06/2026 – Ilustrada
No primeiro dia do festival Cinema Ritrovato, neste sábado (20), o importante não eram os filmes, mas esgueirar-se habilmente sob as arcadas, que por sorte existem aos montes em Bolonha, encher as garrafas com chuva generosamente colocada à disposição dos cinéfilos, estudiosos e críticos na rossio dentro da Cineteca, e só logo ir à luta, isto é, buscar a sua sala favorita e se refugiar no ar condicionado. Sem isso é difícil viver sob os 38ºC à sombra que fez por cá.
A recompensa pelo esforço vem com um programa que deixa difícil escolher, porque significa de subitâneo deixar de lado outro filme importante. A programação inclui a mostra do célebre diretor nipónico Daisuke Ito, títulos pouco conhecidos de Roger Corman e filmes restaurados porquê “A Dez Segundos do Inferno”, do americano Robert Aldrich, e “Somente as Horas”, do carioca Alberto Cavalcanti.
Todos esses foram deixados em segundo projecto, no entanto, pela exibição na Piazza Maggiore de “Aurora”, o clássico do germânico F.W. Murnau, diretor de “Nosferatu”, que fez o cinema de Hollywood tornar-se o que se tornou, tal a quantidade de ensinamentos que trouxe para seus diretores e técnicos.
O restauro do longa foi feito nos Estados Unidos a partir de cópias e negativos encontrados em várias partes do mundo. Pessoas que trabalharam no processo disseram, antes da exibição do filme, o quão valoroso foi Murnau, varão gay e imigrante.
Gay ele era, mas imigrante é um pouco demais. Murnau foi para os Estados Unidos com a notabilidade de maior cineasta do mundo, trazido a peso de ouro por William Fox, que o chamava de “meu gênio germânico”. Murnau teve liberdade absoluta inclusive para trazer o pessoal que veio da Alemanha com ele, o que incluía seu roteirista, Carl Mayer, e seus diretores de arte, que construíram uma cidade nos estúdios da Fox usando perspectiva falsa. A Murnau coube ensinar aos americanos a arte do movimento da câmera.
O que se viu, no filme enfim restaurado, deixou boquiabertos os espectadores que lotaram a Piazza Maggiore desde as 20h e esperaram até 22h pelo prelúdios da projeção. Uma obra-prima de desenvoltura única sobre um tema quase qualquer: um varão, instigado por sua amante, tenta matar sua mulher, jogando-a de um paquete. Não consegue, mas ela sabe muito o que ele queria.
“Aurora”, porquê uma vez escreveu o crítico Juliano Tosi, designa a passagem da noite ao amanhecer. Passagem, portanto, do escuro ao simples, das sombras à luz, do tenebroso ao sublime. Em todos os sentidos, esse era o núcleo da arte na era muda do cinema germânico.
Para reunir, não houve grande cineasta em Hollywood que passasse em branco por Murnau e sua “Aurora”. Todos aprenderam alguma coisa com ele. Há que se estagnar nas grandes cenas: a da reconciliação do par, ao trespassar de uma igreja porquê se tivesse se casando outra vez, a cena cômica no fígaro, a sequência do porquinho que foge num parque de diversões e, finalmente, a sequência do paquete sob uma tempestade devastadora.
Uma obra-prima de 1927 que parece tão atual cinematograficamente, mas não só, continua a manifestar muito a bons cineastas contemporâneos, porquê Alice Rohrwacher, que cá mesmo em Bologna admitiu tê-lo visto oito vezes só no ano pretérito.
Quanto a “Somente as Horas”, é o títlo que fixou o brasílio Alberto Cavalcanti no primeiro time do cinema europeu. Depois ele se consolidaria sobretudo porquê documentarista na Inglaterra, antes de voltar ao Brasil para encaminhar a Vera Cruz, no final dos anos 1940.
O filme começa porquê uma sinfonia urbana que não deixa de lembrar o russo Dziga Vertov, embora menos dinâmico nas colagens e na reparo de Paris. Mas é quando trata do paixão que o filme cresce enormemente. Exemplo: durante a cena em que um varão assassina uma mulher, ele insere, trucadas, sobre a cena mesmo, as manchetes de jornal que tratam do caso. Uma trucagem tão sumptuoso pela teoria porquê perfeita na realização.
No segundo dia, o destaque fica para a projeção de um réplica da voga do 3D dos anos 1950: “Os Assassinatos da Rua Necrotério”, de André de Toth, artesão zero rotineiro, encarregado de tourear o sistema nessa adaptação do narrativa de Edgar Allan Poe.
O efeito é surpreendente. O 3D dos anos 1950 é melhor que o recente, do dedo. Até por ser mais precário, é menos invasivo. De Toth não o usa todo o tempo, o que ajuda a vista a repousar. Alguns efeitos são muito bons, porquê nas sequências iniciais de vaudeville e, em seguida, de uma sarau popular.
Quem quiser discutir contra o filme que personagens aparecem e somem um pouco à vontade do freguês, até terá razão. Mas Del Ruth faz o que pode para não exagerar do sistema. Há momentos em que o testemunha pode tirar os óculos especiais sem sentir aquela dupla imagem propriedade do 3D. Mas é inegável que assisti-lo sem o 3D, em copiagem normal, é menos extenuante aos olhos.
Embora mais deleitável do que o 3D do dedo, sem aquela neurose de mostrar efeitos, é quase uma prova de que esse sistema, em vez de oferecer uma visão “porquê a nossa”, no termo das contas torna a percepção das pessoas e objetos arbitrária. No termo do filme, os espectadores trocaram relatos sobre notório desprazer e cansaço nos olhos. A febre do 3D dos 1950 logo passaria, assim porquê o novo 3D do dedo foi sumindo de mansinho depois dos estrondos dos primeiros filmes.
Não foi o melhor filme do domingo, o segundo dia da mostra, mas de certa forma o mais curioso e o mais instrutivo. A maratona segue em frente até o próximo domingo, sem se impressionar com os 37ºC de sensação térmica durante o dia. A sessão de “Aurora” distribuiu leques. Quebram um belo galho à noite, com o calor de 30ºC.





