Sem medo de ser vulgar, Dolly Parton foi feminista radical – 25/08/2026 – Ilustrada
Dolly Parton, morta nesta terça-feira, dia 25, foi uma feminista radical. Talvez não seja a primeira coisa que venha à cabeça quando a gente pensa nela, porque antes vêm os peitos, o cabelo, as unhas, as roupas cheias de franjas e brilhos, aquela voz e, evidente, “Jolene”. Mas Dolly passou a vida fazendo exatamente o que queria num mundo que sempre teve muitas opiniões sobre o que uma mulher deveria fazer, vestir, trovar, mostrar, esconder e, principalmente, desejar.
Ela compôs “9 to 5”, um hino sobre mulheres trabalhando muito, ganhando pouco e aguentando chefes homens que levavam o crédito. Compôs “Jolene”, que é praticamente uma lição sobre uma vez que transformar inveja e instabilidade em três minutos de sublimidade. E compôs “I Will Always Love You”, que muita gente ainda acha que é da Whitney Houston. Não é. É da Dolly, que teve inclusive a perceptibilidade de não entregar metade dos direitos da música para Elvis Presley quando o empresário dele exigiu isso para que Elvis a gravasse.
Dolly tocava violão com aquelas unhas postiças gigantescas e descobriu que podia usá-las uma vez que instrumento. O ritmo que se ouve em “9 to 5” foi feito com as unhas dela. É uma informação tão Dolly Parton que parece inventada.
Também é difícil crer que exista Dollywood, um parque temático devotado ao universo dela no Tennessee, mas existe. Dolly nunca teve terror de ser demais. Pelo contrário, ser demais era meio que o projeto.
Quando era moça, ela via na cidade uma mulher que todo mundo considerava vulgar. Cabelo enorme, maquiagem, salto cumeeira, roupas apertadas. Dolly achava aquela mulher a indivíduo mais formosa que já tinha visto. Só depois descobriu que era a prostituta da cidade. A família avisou que aquela não era exatamente uma pessoa que uma moça deveria querer imitar. Dolly basicamente pensou: má sorte.
E passou o resto da vida aperfeiçoando a teoria.
As perucas ficaram maiores, os peitos também, a cintura menor, as unhas mais compridas, as roupas mais apertadas. Quando perguntavam quanto tempo levava para fazer aquele cabelo, ela respondia que não sabia porque nunca estava lá quando faziam —era uma peruca. Quando perguntaram quanto havia custado para ela parecer tão barata, respondeu: “Muito”.
E o mais incrível é que ela não ficou congelada uma vez que uma dessas lendas que a gente respeita porque sabe que tem que respeitar. Dolly continuou por toda secção. O disco novo —nem tão novo, mas enfim— da Beyoncé é todo atravessado por ela. “Cowboy Carter” não existiria do mesmo jeito sem Dolly, que aparece no disco e entrega a Beyoncé a própria “Jolene” para ela desmontar e montar de novo. E Miley Cyrus, afilhada de Dolly, construiu uma curso em que também dá para enxergar essa legado: a voz, o country, o excesso, a recusa em se comportar uma vez que esperavam que ela se comportasse.
Beyoncé é incrível. Miley é incrível. Mas, lucro, nenhuma chega aos pés.
Dolly é tipo uma Madonna, só que sem a raiva. Tem a mesma capacidade de inventar a própria personagem e depois passar décadas mostrando que a personagem também é a pessoa. A mesma perceptibilidade para entender que fisionomia é linguagem, que sexo é poder e que uma mulher pode controlar a própria imagem sem precisar fingir que não liga para ela. Só que Dolly faz tudo isso rindo.
É por isso que reduzir Dolly Parton à rainha do country é perder metade da perdão. Ela era um talento sem razão, evidentemente. Mas havia outra coisa acontecendo ali. Dolly entendeu muito cedo que ninguém precisava lhe dar autorização para ser inteligente e parecer vulgar, ortografar músicas extraordinárias e usar decotes extraordinários, lucrar quantia e fazer piada com os próprios peitos.
Ela não tentou convencer ninguém de que, por trás daquela fisionomia, existia uma mulher séria que merecia reverência. Essa seria a saída fácil. Dolly exigia reverência por aquela mulher mesmo.
Talvez seja essa a secção mais feminista de todas.
Ela mostrou, só vivendo a própria vida, que uma mulher podia mudar o mundo parecendo uma puta. Não precisava permanecer menos sexy, menos loira, menos sintético, menos engraçada, menos ambiciosa, menos zero para que seu talento fosse levado a sério.
E acho que o sigilo estava no siso de humor. Dolly parecia estar se divertindo o tempo todo. Compondo, em turnê, fazendo cinema, cantando em Vegas, construindo um parque de diversões com o próprio nome, sendo uma das maiores compositoras americanas e aumentando a peruca mais um pouquinho.
Porque gostava assim. E porque podia. “No excuses”. “No explanations”.





