Sergio Vid transforma canções de Chico Buarque em rock

Sergio Vid transforma canções de Chico Buarque em rock – 06/04/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

MPB e rock juntos? Alguns projetos contemplaram essa mistura, mas nenhum chega perto do radicalismo de “Rockin’ Chico”, do cantor e músico carioca Sergio Vid. Depois de ser vocalista do Sangue da Cidade, nos anos 1980, ele formou o Vid & Sangue Azul, que se apresentou no segundo Rock in Rio, de 1991, e lançou trabalhos solo. Agora, vem essa ousadia.

O projeto reúne dez canções que Chico Buarque gravou entre 1968 e 1989, agora com letras vertidas ao inglês e acordes de rock que emulam nomes uma vez que Black Sabbath, Dream Theater, Rush e Deep Purple, entre outros. O álbum está nas plataformas digitais, com dez faixas.

São elas: “If You Know Who You Are” (“Partido Elevado”), “Women of Athens” (“Mulheres de Atenas”), “Eye to Eye” (“Olhos nos Olhos”), “Portrait in Black and White” (“Retrato em Branco e Preto”), “Duran’s Code” (“Hino de Duran”), “I Forgive You” (“Milénio Perdões”), “Grail” (“Cálice”), “Swamp of the Cross” (“Brejo da Cruz”), “(May) God Reward You” (“Deus lhe Pague”) e “Two Brothers Hill” (“Morro Dois Irmãos”).

Porquê revela a tracklist, algumas são hits, mas há também faixas menos conhecidas. E tudo começou em 1986, com “Partido Elevado”. “Minha mãe tinha tudo do Chico. Eu estava na sala, e ela estava tocando aquele disco do Caetano e do Chico ao vivo. E eles tinham uma versão crua de ‘Partido Elevado’, muito minimalista”, recorda Vid.

Ele teve a teoria de fazer um remendo em hard rock para “Partido Elevado”. Deixou a terceira estrofe de lado, e explicou o motivo ao próprio Chico. “Era a segmento que falava do malandro da Lapa. Isso aí não é rock, eu pensei. Mas a primeira segmento é totalmente existencialista.”

Ele conta que fez o remendo, gravou e entregou a Chico Buarque numa sexta-feira. “Na segunda, a moça da gravadora RCA me ligou dizendo que o Chico tinha ouvido no término de semana e falou que o remendo estava autenticado. ‘Pode lançar!’ Mandei para a Rádio Fluminense”.

Anos depois, em 1995, Vid vislumbrou que outras músicas da MPB poderiam ser vertidas para o rock. “Uma escolha óbvia foi Raul Seixas, ‘Porquê Vovó Já Dizia’. É meio rock mesmo, não?”.

E outras entraram no projeto: “Fé Cega, Faca Amolada”, de Milton Promanação, “Sou uma Menino, Não Entendo Zero”, de Erasmo Carlos, e “Para Não Expor que Não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré. “Nesta, me inspirei no Judas Priest. A versão do Raul lembrava Van Halen, enquanto o Erasmo ficou meio Guns ‘N Roses. Coloquei ‘Hora do Almoço’, do Belchior, com remendo inspirado em The Who.”

Aí o guitarrista da orquestra que gravava com ele teve que transpor, e o projeto estancou. É inédito em disco até hoje. Está no site do cantor, sergiovid.com.br, com o nome “MPB: Música Pauleira Brasileira”.

Quatro anos depois, ele recebeu um telefonema do pesquisador músico Almir Chediak, que estava fazendo um songbook do Chico Buarque, que depois teria oito CDs “O Chico entrou no meu escritório com seu CD ‘A Feitiçeira’, que tem a música dele, e disse que quer você no songbook”, disparou Chediak.

Vid entrou no projeto em parceria com o guitarrista Victor Biglione, que fez o remendo para “Hino de Duran”, da “Ópera do Malandro”. Portanto, com duas canções de Chico Buarque em versão rock, Vid deu vazão a uma propriedade poderoso em sua curso.

“Eu sempre compus minhas músicas em português e inglês. Portanto passei ‘Partido Elevado’ para o inglês, em 1999. Aí peguei todas as músicas do ‘MPB’ para o inglês, e virou ‘BPM: Brazilian Power Music’. Inédito até hoje, mas me inspirou para botar Chico em rock and roll.”

Ele levou três anos para fazer as seis primeiras versões, ouvindo todos os discos do Chico à procura das canções rock, E , segundo Vid, ele tem muitas. “Levei a ele ‘Mulheres de Atenas’, ‘Olhos nos Olhos’ e algumas outras. Ele disse: ‘Está ótimo. Autenticado!’. Bom, com meio disco guiado, fui gravando.”

Chico Buarque ter gostado foi um pouco incrível, mas Vid precisou mourejar com o vestuário de três das dez canções escolhidas serem parcerias. Aprovou “Mulheres de Atenas” com Augusto Boal antes da morte do dramaturgo, em 2009. Para “Cálice”, nem precisou de muita negociação com Gilberto Gil. Enviou a versão à produtora do baiano e a legalização foi tranquila.

Portanto ele tinha nove músicas e meia aprovadas. Faltava metade de “Retrato em Branco e Preto”, de 1967. “E para assinar com a família do Tom Jobim? Com pandemia e tudo! Demorou cinco anos, era difícil desenredar quem poderia determinar por ele. A Ana Jobim acabou aprovando.”

“Rockin’ Chico” é uma seleção afetiva. Sem preocupação de incluir hits. “Brejo da Cruz” e “Milénio Perdões’ são admiradas pelos seguidores de Chico, mas não estão na mesma prateleira de popularidade ocupada por hinos da MPB uma vez que “Cálice” e “Olhos nos Olhos”. Assim uma vez que “Morro Dois Irmãos”, que fecha o álbum.

A música foi a última a entrar no repertório do disco, e chegou até Vid de um a maneira inesperada. “Estava com nove canções quando a secretária do Chico, Márcia, me disse que ele adorava ‘Morro Dois Irmãos’. Cheguei a assustar com a responsabilidade de recriar uma das favoritas dele, mas fui em frente,”

Produzido por Vid e pelo baixista Paulo Henrique Castanheira, “Rockin’ Chico” traz na capote a imagem do Morro Dois Irmãos, no Rio de Janeiro, de autoria de Ricardo Pimentel, fotógrafo e camarada de Vid. E o cantor espera vê-la em lojas de LPs. “Eu preciso do físico! Eu sou da idade do vinil. Já tive contatos com quem faz vinil, mas eu quero lançar em CD também.”

Folha

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