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Série que reconta a Copa de 1970 cruza invenção e
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Série que reconta a Copa de 1970 cruza invenção e verdade – 29/05/2026 – Ilustrada

Faltando pouco mais de duas semanas para a estreia da seleção brasileira na Despensa do Mundo, no dia 13 de junho contra Marrocos, nos Estados Unidos, a Netflix põe no ar, nesta sexta-feira (29), uma série diretamente relacionada ao tema, num timing que se assemelha a um chuto perfeito.

O docudrama “Brasil 70 – A Saga do Tri” conta a trajetória do time canarinho, que naufragou miseravelmente na Despensa de 1966, na Inglaterra —eliminação na tempo de grupos posteriormente ter sido vencedor em 1958 e em 1962—, rumo à improvável conquista do tricampeonato mundial, arrebatando a cobiçada Taça Jules Rimet no Mundial de 1970, no México.

Note-se que não é um documentário, segundo enfatizaram os diretores Paulo e Pedro Morelli, pai e rebento, em entrevista à Folha no evento de lançamento da produção, em uma cerimônia no estádio do Palmeiras, em São Paulo. Trata-se de uma ficção baseada em fatos, com atores representando personagens uma vez que Pelé, Carlos Alberto Torres, Tostão, Rivellino, Zagallo, João Saldanha, João Havelange.

Desse modo, à pergunta “diálogos e cenas foram inventados?”, veio esta resposta de Paulo: “Sim, um pouco, sim”.

“A gente não sabe qual era o diálogo original, né?”, prosseguiu um dos fundadores da produtora O2 Filmes. “A gente recriou diálogos, imaginou cenas, mas sempre respeitando a verdade, para chegar o mais perto provável do real.”

Pedro enfatizou que a preparação para “Brasil 70” buscou a máxima proximidade com a verdade por meio de pesquisa, de reportagens e de livros. A geração fantasiosa foi empregada com fins de dramaticidade, permitidos e desejados na confecção da obra.

“É a hora em que você quer aquilo que não há relato [histórico] sobre alguma coisa e falta alguma pecinha para você juntar àquela curva dramática do personagem, ou você conseguir detalhar melhor a sensação que o personagem tinha em um oferecido momento. Você precisa ficcionalizar, você precisa produzir, mas dentro de bases pesquisadas.”

O estudo fica evidente em um observação de Bruno Mazzeo, que interpretou Zagallo na série, quando a reportagem indagou, tendo oferecido uma vez que notório que era ficção, acerca do momento em que o treinador da seleção vê a voz falhando, sumindo aos poucos, na reta final da Despensa. “Ocorreu, ele realmente perdeu a voz. Eu soube pelos roteiristas.”

Ator que viveu Pelé na série, Lucas Agrícola, de espantosa símile com o Rei do Futebol, reforça que o que pode ser visto inicialmente uma vez que ficcional de indumentária aconteceu. Um incidente na puerícia do planeta o marcou profundamente e o afeta emocionalmente em “Brasil 70”. Segundo o ator, que mencionou até o nome do personagem envolvido (“o menino se chamava Tiago”), “foi muito real essa história, sim”.



Existe um Pelé ali [na série] que o público nunca viu, que é a segmento mais humana dele. A galera conhece ele [sic] uma vez que um planeta e tal. Mas os traumas dele, a gente traz todos os traumas dele. No final, ele revela para o Saldanha o que ele sempre carregou

O intercepção entre imaginação e verdade dá resultado. Torna a série de cinco episódios atrativa para quem conhece os acontecimentos e quer revê-los de forma emotiva e acalorada. E fica convidativa para quem sabe pouco deles, ou zero, pois não envolve simplesmente o futebol, mas a relação do futebol com a ditadura militar no termo dos anos 1960 e primícias dos anos 1970. Esse tecido de fundo está bastante presente.

“Brasil 70” lembra uma vez que o governo de Emílio Garrastazu Médici procurou apropriar-se da imagem da seleção brasileira para propagandear o “Brasil que dá notório” e desviar a atenção da população da violência e da repressão vivenciada país afora nos chamados “anos de chumbo”. Tensão política à flor da pele, efeito da austeridade na própria pele.

Em um dos episódios, João Saldanha, vivido por Rodrigo Santoro, alardeia ironicamente: “Melhor 100 milénio no estádio do que 100 milénio nas ruas”. Jornalista e comunista, o treinador assumiu a equipe em situação de profunda crise esportiva. Determinado a mudar o quadro, convocou as “feras do Saldanha” e, com campanha perfeita, classificou o Brasil para a Despensa.

Uma vez que pode um comunista na chefia da seleção em um país sob uma ditadura? Nem Saldanha sabia explicar a antítese. Versões relatam que o regime, colocando-o na função, amorteceria a língua afiada direcionada aos militares. Também amainaria a fúria da prensa —pois Saldanha era do meio— contra um escrete que não rendia. Não amorteceu, e o técnico foi retirado três meses antes da Despensa, dando lugar a Zagallo.

Santoro, um ator já consagrado, arrasa uma vez que o João Sem Susto, avalia Marcelo Adnet, que, no papel do locutor ficcional Eusébio Teixeira, faz dupla no percurso de “Brasil 70”, com o dissidente e inveterado fumante Saldanha. Um narra, o outro comenta, no estádio, as partidas do Brasil no México.

“Não era o Rodrigo Santoro. O Rodrigo incorporou o João Saldanha, virou o João Saldanha, um dos meus ídolos. E eu estive ao lado dele de verdade. Narrei a Despensa de 70 de verdade” afirmou o também comediante Adnet, que, quando muchacho, tinha o sonho de ser narrador de futebol.

Adnet salientou a dificuldade de personificar um locutor de TV na Despensa de 1970. Faltou material de estudo, pois era estação da transição do rádio para a televisão. Ou por outra, o narrador fala aos espectadores vendo o jogo. Não no caso dele. “Eu tinha que narrar sem ter um jogo na minha frente. Logo eu decorava a jogada na minha cabeça e olhava para onde eu tinha que olhar, com aquela jogada passando na minha cabeça.”

As jogadas, narradas por Eusébio Teixeira, são um dos pontos fortes de “Brasil 70”, que teve gravações no Brasil e no México. Com ângulos nunca vistos, som ultrarrealista e efeito bem-sucedido da câmera lenta que congela e depois prossegue, os Morellis conseguiram vangloriar o realismo delas.

“A gente colocou a câmera dentro do campo, ao lado do jogador, correndo com o jogador e sentindo a respiração dele, sentindo o diálogo do jogador dentro do campo, colocando o testemunha dentro do campo e não do ponto de vista distante que a gente está habituado a ver no ângulo de uma televisão que transmite de longe”, disse Paulo Morelli.

Os gols que Pelé por pouco não fez –contra Tchecoslováquia, Inglaterra e Uruguai– são de eriçar, assim uma vez que a jogada do último gol do Brasil, do “capita” Carlos Alberto, na final diante da Itália.

Sim, o Brasil ganhou, é sabido, e os participantes de “Brasil 70” afirmam esperar que a atual seleção, desacreditada uma vez que a pós-66, assista à saga do tri para se inspirar na procura do hexa.

“A série traz uma coisa da origem do futebol, da psique do futebol e do prazer de jogar futebol. É o que aqueles caras [do time de 1970] tinham”, diz Mazzeo.

Outra expectativa, nas palavras de Pedro Morelli, é o país poder torcer uno por Vinicius Junior, Casemiro, Neymar e companhia.

“A camisa amarela, de oito anos para cá, vem sendo usada por um grupo e perdeu o seu significado. Essa Despensa é o momento, provavelmente, que o Brasil inteiro, todas as pessoas, independentemente de posição política, vão se reapropriar da camiseta, ter orgulho de vestir essa camiseta. Acho que a série está fazendo segmento dessa história.”

Se o Brasil não se unir e não triunfar, restará, em murmúrio pesaroso ou em sobranceiro brado, a famosa frase de Saldanha: “Vida que segue”.

Folha

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