Seu Jorge revela sofisticação no álbum ‘The Other Side’ – 07/05/2026 – Ilustrada
O título não poderia ser mais adequado. O álbum “The Other Side” traz realmente um lado de Seu Jorge que muitos poucos conheciam. Num projeto que atravessou 16 anos de gravações esporádicas, tira a tira, ele apresenta suas versões para canções notadamente “sofisticadas”, brasileiras e estrangeiras, no que parece ser uma enunciação ambiciosa. Ele clama que pode mostrar mais do que suas músicas sacudidas, dançantes o suficiente para animar shows em arenas.
Entre suas 11 faixas, muitas são entregues em pacotes intimistas, suaves a ponto de originar estranheza. É evidente que Seu Jorge buscou uma sonoridade mais calma, e a tira de brecha faz isso ao extremo. A regravação de “Crença”, do álbum de estreia de Milton Promanação, de 1967, tem um instrumental esquálido, que parece querer deixar toda a força para a voz do cantor. E ele tem um vozeirão.
Seu Jorge começou a gravar essas canções em 2009, em registros possíveis encaixados em sua agenda. Mas há uma unidade sonora irretocável no álbum, provavelmente porque tem parceiros constantes no projeto. Um deles é o músico e arranjador Miguel Atwood-Ferguson, nome com uma rodagem impressionante nos estúdios americanos.
Outro “parça” das antigas é o produtor Mario Caldato Jr., brasiliano com curso nos Estados Unidos. Eles se conheceram em Los Angeles, em 1998, e Caldato já estava detrás das mesas no álbum de estreia de Seu Jorge, “Samba Esporte Fino”, em 2001. E foi ele quem aproximou Atwood-Ferguson do trabalho.
Embora o repertório tenha clássicos brasileiros e americanos, mesmo que alguns não tão conhecidos de um grande público, é compreensível que a maior curiosidade de quem vai ouvir o álbum recaia sobre “Quando Chego”. Finalmente, é uma inédita com vocais divididos com Marisa Monte.
Composta por Seu Jorge, Marisa e Arnaldo Antunes, essa tira, que poderia entrar harmoniosamente em um álbum dos Tribalistas, é um samba de levada solar e letra esperta. Em versos porquê “Por cá a vida anda/ de… va… gar…”, brincando com as pausas.
Outra cantiga que pode invadir um público maior é um dos hinos da rapaziada do Clube da Esquina. “Vento de Maio”, de Márcio Borges e Telo Borges, ganha uma versão de intrincada simetria vocal entre Seu Jorge e Maria Rita. Uma vez que uma das mais conhecidas do repertório do disco, deve emocionar nos shows.
Embora essas duas canções tenham essa irrecusável faceta de hit, há outra tira que talvez represente perfeitamente a proposta de Seu Jorge no disco.
Trata-se de “Girl You Move Me”, regravação de uma cantiga do octeto de soul psicodélico quase funk Cane and Able, de Los Angeles, que lançou seus dois únicos álbuns, magistrais, ambos em 1972: “Relating a Message to You” e “Cane and Able”. A música abre o segundo disco, e em seus oito minutos começa porquê uma balada esquisita e passa a um batidão funk.
Seu Jorge a adaptou porquê uma balada mesmo, e fez com essa música alguma coisa que é recorrente no álbum. Ele deu uma “desidratada” em algumas canções, porquê se a procura por uma simplicidade e uma singeleza em músicas tão fortes passasse por uma transformação para um instrumental rarefeito. Há uma procura por alguns vazios.
É necessário elogiar Seu Jorge, Caldato e Atwood-Ferguson, porque isso não foi feito de maneira bruta, simplesmente limando o instrumental. Porque o álbum incorpora orquestrações, às vezes delicadas, às vezes mais vigorosas, que criam uma espécie de trilha sonora cinematográfica, que percorre as canções.
Para a parcela mais pop de seus fãs, Seu Jorge entrega outro grande momento com “River Man”, tirada do repertório do cantor e compositor britânico Nick Drake, morto precocemente em 1974, aos 26 anos.
Seu Jorge respeita o registro original baladeiro de Drake e labareda para trovar essa música com ele o americano Beck. O invitação a um músico inventivo contribui para o caráter de sofisticação que o álbum procura provar.
O disco expõe algumas predileções musicais de Seu Jorge, de muito bom paladar. São duas de Capinam e Cezar Mendes, “Luz na Trevas” e “Flor de Laranjeira”, sempre belíssima em qualquer emendo, e “Mestiço”, de Arthur Verocai e Vitor Martins.
Entre boas propostas e arranjos alternativos que quase sempre funcionam muito, a única coisa a reclamar de “The Other Side” é que Seu Jorge demorou muito para encontrar brechas na agenda para ir ao estúdio de Caldato em Los Angeles para gravar. É um disco fora da trajetória do cantor, e vale a pena ouvir esse outro lado.





