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O centenário de Milton Santos 07/05/2026 Djamila Ribeiro
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O centenário de Milton Santos – 07/05/2026 – Djamila Ribeiro

Nascido em 3 de maio de 1926, em Brotas de Macaúbas (BA), Milton Santos construiu uma trajetória intelectual extraordinária em um país que cultiva aversão a intelectuais independentes e exclui populações negras das universidades. Mesmo num envolvente estruturalmente racista, tornou-se um dos maiores geógrafos da história mundial e um dos mais destacados mestres que o Brasil já produziu.

Em 2026, ano do centenário de seu promanação —e particularmente nesta semana de 3 de maio, “Dia de Milton Santos”—, universidades de todo o país realizam eventos para rememorar seu legado de vida e obra sobre globalização, território e espaço social.

Um evento em pessoal merece destaque: o seminário “Milton Santos 100 anos: um geógrafo do século XXI”, organizado pelo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP) e pelo Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), onde lecionou por tantos anos. O fecho acontece nesta sexta, dia 8, das 10h às 19h, com mesas-redondas, conferências e apresentações artísticas. O evento é gratuito, desimpedido ao público presencial e transmitido online pelo meato do IEB-USP no YouTube.

Sobre o IEB, é necessário sobresair o esforço formidável de preservação e catálogo de documentos, fotografias e memórias da vida e da obra do pensador no Pilha Milton Santos. São documentos disponíveis para consulta pública que ajudam a manter em cores vívidas a passagem de um cometa, daqueles que somente surgem de tempos e tempos, raros.

É muito difícil para qualquer pessoa no país transpor os muros que confinam o pensamento pátrio ao solipsismo e importação. Sendo Milton Santos um varão preto, logo podemos declarar sem pavor que se trata de um caso raríssimo na história do Brasil. Ficam cá meus mais entusiasmados cumprimentos ao IEB e à equipe da professora Elisabete Marin Ribas, a “professora Bete”, reconhecida pela Fapesp uma vez que a “guardiã do legado de intelectuais brasileiros”.

No IEB, é provável tomar contato com um pilha fotográfico de Milton Santos de diversos lugares do mundo onde foi convidado a lecionar ou onde recebeu láureas máximas de honoris pretexto. Vale expressar que o intelectual, enquanto professor da USP, foi agraciado, em 1994, com o Prêmio Internacional Vautrin Lud, a mais distinta divisa no campo da geografia. O prêmio é facultado anualmente na cidade de Saint-Dié-des-Vosges, na França, o que, para além do brilhantismo intelectual do pensador brasílico, também nos abre uma janela para olharmos para sua trajetória, ainda que de maneira breve.

Doutor pela Universidade de Estrasburgo, Milton Santos se tornou livre-docente pela Universidade Federalista da Bahia em 1960. Naquele período, foi empossado uma vez que subchefe da Moradia Social do governo Jânio Quadros e, em seguida, também trabalhou uma vez que presidente da Percentagem de Planejamento Econômico do governo da Bahia. Trabalhou uma vez que editor do jornal A Tarde e sua curso seguia um rumo consolidado, até que tudo mudou com o golpe de 64 e a instauração do regime militar, que o prendeu logo nos primeiros meses e o exilou durante 13 longos anos.

No exílio, sua trajetória acadêmica ascendeu e o mundo se encantou. Lecionou em universidades em Toulouse, Bordeaux e Paris, na Sorbonne. Em seguida, foi convidado a lecionar na Universidade de Toronto, no Canadá, até chegar ao Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde escreveu “O Espaço Dividido” (1979), uma de suas mais importantes obras. Passou também por universidades na América Latina e na África e foi consultor em inúmeros organismos nacionais e internacionais.

Quando retornou ao Brasil, passou pela Universidade Federalista do Rio de Janeiro até chegar, em 1984, à USP, onde permaneceu uma vez que professor até sua aposentadoria, em 1997. Milton Santos faleceu em 2001, aos 75 anos, colecionando dezenas de prêmios e honrarias no Brasil e no exterior, além de um sem-número de livros, artigos, cursos, aulas, conferências, orientação de pesquisas.

Uma poste de jornal é muito pouco diante da vastidão de sua obra. Ainda assim, penso ser importante registrar sua trajetória réplica, que se torna ainda mais interessante quando lembramos que Milton Santos era um varão preto que pensava de forma autônoma, sem vinculações nacionais de submissão intelectual a partidos, movimentos sociais ou fundações de qualquer natureza. Por isso, pagou um preço.

Para ele, porém, o papel do intelectual era justamente “trazer o desconforto”. A propósito: será que mudou muito a forma uma vez que intelectuais negras independentes são tratadas dentro do seu próprio país? Fica a reflexão.

Uma vez que uma intelectual que se inspira muito em seu trabalho, digo: muito obrigada, Milton Santos. Que venha um centenário à profundidade de sua imensidão.


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Folha

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