Shakira renova feminismo e amor pelo Brasil em Copacabana – 03/05/2026 – Ilustrada
Com pouco mais de uma hora de delonga, drones tomaram o firmamento sobre a praia de Copacabana na noite deste sábado (2), se entrelaçando até formar a silhueta de uma loba –num uivo, suas luzes invocaram Shakira, a mais latina das divas.
Num macacão de brilhantes nas cores verdejante, amarela e azul, a colombiana enfim surgiu no palco para iniciar seu megashow, ovacionada. “Shakira! Shakira!”, ouvia-se da plateia, que até logo estava impaciente com a vagar.
Perdoada, Shakira pôs os primeiros acordes de “La Fuerte” para repercutir nos ouvidos dos 2 milhões de fãs estimados pela Prefeitura do Rio. “Boa noite, Rio”, gritou logo de rostro, emendando a rombo na mais animada “Girl Like Me”.
“Las de la Intuición” antecipou um dos maiores hits de sua curso, “Estoy Aquí”, antecedida por uma saraivada de fogos e acompanhada com vigor, em seu refrão icônico, pelo público ali presente.
“Olá, Brasil! Porquê vocês estão, gente? Eu não posso crer que estou cá com vocês”, disse Shakira, reiterando que é apaixonada pelo brasiliano. “Olha isso, olha isso!”, afirmou eufórica, sem esconder o fulgência de se apresentar num palco tão grande e tão diverso quanto as areias da praia do Rio de Janeiro.
Contrariou o que fizeram as antecessoras Lady Gaga e Madonna, que interagiram com o público protocolarmente. “Não existe melhor coisa pra mim do que quando uma lobinha que nem eu se encontra com sua alcateia brasileira. Hoje e sempre, somos um”, disse sobre o sobrenome que ganhou entre seus fãs.
“Empire” lhe permitiu dar vazão aos ares roqueiros, mesmo que abreviada. Os acordes iniciais emendaram em “Inolvidable” e, empunhando a guitarra, Shakira fez um dueto com o público.
“Te Felicito” foi apresentada em seguida um enlace romântico com um robô humanoide. Enquanto rebolava sobre o parceiro sintético, ela expurgava as frustrações de seu matrimónio com o ex-jogador de futebol Gerard Piqué. “Eu te parabenizo por atuar tão muito”, dizia ela num dos vários momentos de desabafo de seu último disco, que também batiza a turnê, “Las Mujeres Ya No Lloran”.
“A vida tem formas de recompensar a gente. Vocês sabem que a minha vida não tem sido a mais fácil ultimamente, mas das quedas ninguém se salva. O que sei é que nós, as mulheres, cada vez que caímos nos levantamos um pouco mais sábias, mais fortes, mais resilientes. Porque as mulheres já não choram. Por isso, esse show vai ser devotado a nós”, disse.
Ao longo de todo o show, Shakira reforçou o tom feminista de sua turnê mais recente, ampliando o escopo das apresentações de Gaga e Madonna, mais voltadas ao seu leal público LGBTQIA+ –que também esteve em Copacabana, mas que neste sábado não era o meio das atenções.
“Don’t Bother”, “Acróstico” e “Despensa Vacía” seguiram. O copo vazio terminou encharcando o palco com a projeção de uma inundação, que mergulhou o show em sua segmento mais morna. “La Bicicleta” e “La Tortura” vieram em seguida.
Shakira logo mostrou o gingado para trovar o hit mais icônico de sua curso, “Hips Don’t Lie”. Os quadris realmente não mentem, e Shakira fez dessa porção a mais dançante do show. Se Madonna e Gaga se ancoravam na estranheza e na teatralidade de suas performances, Shakira optou com uma apresentação mais pessoal e crua.
A colombiana desfilou pelo palco –maior que os das americanas– com os pés descalços e furiosos, capturando o foco da câmera com seus quadris malemolentes e o carisma habitual, que deixava transparecer a alegria de estar ali.
“Chantaje” foi cantada dos bastidores, enquanto uma câmera a flagrava em mais uma das várias trocas de roupa da noite, quase sempre destacando as cores da bandeira brasileira.
Shakira abraçou sua latinidade, aumentando a voltagem colombiana da cantiga com passos acelerados que retomavam a cúmbia, lembrando a todos ali que muito antes de o mercado fonográfico se interessar por leste lado da América, a cantora abria caminhos num cenário hostil para quem não tinha o inglês uma vez que língua materna.
Depois de “Lora”, ela mandou um recado para as mães solo do Brasil –são 20 milhões, lembrou. “Eu sou uma delas”, brincou a mãe de Sasha e Milan, filhos que teve com Piqué. “Soltera” foi logo entoada com vigor.
Anitta surgiu na sequência com “Choka Choka”, fita recém-lançada. “Obrigada, linda, eu te senhor”, disse a dona da noite. “Quem patroa a Shaki dá um grito. Isso é um presente, você merece tudo isso, você é maravilhosa”, respondeu a carioca.
“Can’t Remember to Forget You”, sua parceria com Rihanna, antecedeu sua famosa dança do ventre. “Ojos Así”, “Pies Descalzos, Sueños Blancos” e “Antología” vieram. “Obrigada, Brasil, por todo o carinho que recebi de vocês nos últimos 30 anos. Uma vida inteira”, disse, sempre no português.
A renovação dos votos de paixão com o Brasil veio acompanhada de outras participações especiais. “Não posso crer, sou sua fã”, disse Shakira ao “rabino” Caetano Veloso, depois de chamá-lo ao palco.
Emocionada, disse trovar sempre “Leãozinho” para os filhos, e dividiu a cantiga com o brasiliano. Depois foi a vez de trovar “O Que É o Que É?” com Maria Bethânia, em passos de samba acompanhados da bateria da Unidos da Tijuca.
Foi o auge inteiro de um show que pode ter parecido distante para a tamanho que lotou as areias em sua primeira segmento, mais voltada aos fãs de longa data. Foi ao deixar a setlist previamente conhecida, porém, que Shakira encantou o brasiliano e se deixou encantar novamente por ele.
É até estranho pensar que a colombiana parecia mais à vontade ao fugir do protocolo e abraçar a espontaneidade com a qual conduziu os duetos com artistas nacionais. Depois de “Objection (Tango)”, veio ainda Ivete Sangalo.
Com passinhos e figurinos sincronizados, elas dividiram o microfone com “País Tropical”. A colombiana estava à vontade, num país que sempre lhe abriu os braços e num “Carnaval de Shakira”, uma vez que disse Ivete.
“Whenever, Wherever” a pôs de volta nos trilhos da turnê internacional, com a vontade nas alturas. “Waka Waka”, logo, deu um falso final apoteótico ao evento, com Shakira compartilhando o palco com dançarinos do Multíplice da Maré.
Ela saiu, mas logo voltou com seu manifesto das lobas, uma vez que labareda os ensinamentos feministas repetidos a cada show desta era. “She Wolf” e “Bzrp Music Sessions, Vol. 53/66”, seu grito de liberdade feminista, encerraram a noite lá no cumeeira, num terceiro ato catártico e envolvente.
“Eu nunca vou olvidar essa noite. Obrigada, Brasil”, disse a mais brasileira das divas internacionais da música, encerrando um espetáculo de duas horas com a sensação de que faltou coisa –às vezes esquecemos, mas Shakira é uma verdadeira máquina de hits.
Nem todos couberam em Copacabana, mas os que apareceram fizeram uma bela resguardo do talento e do poder estelar que a cantora mantém há mais de três décadas.





