“Foi”, disse Wayne Rooney sem rodeios, “uma porcaria”. O ex-jogador da seleção inglesa falava no estádio de Novidade York e Novidade Jersey, durante a final da Despensa do Mundo, em sua função de comentarista da BBC. Mas, em vez de comentar as táticas de chutes nas canelas e cotoveladas nas costas usadas pela Argentina contra a Espanha, “Wazza” falava sobre o show do pausa que acabara de suceder.
O espetáculo de 11 minutos contou com Madonna, Shakira, Justin Bieber e BTS, sob a curadoria de Chris Martin, do Coldplay. O protótipo seguido foi o do show do pausa do Super Bowl. Para os puristas, essa importação do futebol americano foi um exemplo lastimoso da americanização do futebol na Despensa deste ano, juntamente com as pausas para hidratação que lembravam intervalos comerciais e os preços dinâmicos exorbitantes dos ingressos. Isso exigiu que o habitual pausa de 15 minutos fosse ampliado para quase meia hora. Os defensores da tradição ficaram chocados.
Será que o time de estrelas formado por Madonna, Bieber e companhia —comandado por Martin, do Coldplay, o rabino do sentimentalismo de estádio— conseguiria provar que os críticos estavam errados? A rainha do pop deu o pontapé inicial. A câmera saiu do campo e desceu por um túnel até encontrar a cantora apresentando seu sucesso de 2000, “Music”, em uma pista de patinação retrô cenográfica. Madonna parecia muito com uma goleira, se goleiras usassem espartilhos rosa, botas até o joelho e luvas decoradas com cristais Swarovski. “A música une as pessoas”, cantava ela. A frase feita guardava uma semelhança familiar com o slogan da Fifa: “O futebol une o mundo”.
A entidade que comanda o esporte é uma das instituições mais magnificamente pomposas do planeta. Com sua bandeira e hino —cantado antes da partida por Nicole Scherzinger, Laura Pausini e Robbie Williams, sendo que levante último parecia ter levado a sério o cenário de Novidade Jersey ao se vestir porquê um mafioso de Os Sopranos—, a Fifa se comporta porquê seu próprio Estado-nação. Sua pompa e estado beiram o paradoxal imaginoso de um reino imaginário. O show do pausa deu aos seus hábitos cerimoniais a sensação bizarra, mas inegavelmente divertida, de um delírio febril.
Os espectadores esfregavam os olhos enquanto Madonna subia na secção traseira de um buggy, cercada por dançarinos que se divertiam, ao passo que os ex-jogadores brasileiros Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo —levante último com um sorriso histrião no rosto— ocupavam os bancos dianteiros. Eles a ladeavam quando a trupe chegou à beirada do gramado sob aplausos; nesse momento, as atenções se voltaram para Gustavo Dudamel, que regia a Filarmônica de Novidade York e a Orquestra Sinfônica Simón Bolívar da Venezuela em uma versão de “Seven Nation Army”, do The White Stripes —música que se tornou um hino das torcidas de futebol. A margem de rock dos Muppets, a Electric Mayhem, com Bicho na bateria, também estava presente.
O BTS apresentou “Dynamite” vestindo figurinos com temática de futebol antes de Bieber assumir o palco. Ele adotou o papel de trovador sensível, caminhando pelo gramado com um violão e cantando uma versão acústica e bastante encantadora de “Everything Hallelujah”. Em seguida, o espetáculo recuperou a grandiosidade com Shakira —descalça, para satisfazer a exigência de não usar calçados que pudessem danificar o gramado— cantando “Dai Dai”, o hino da Despensa do Mundo deste ano, ao lado de Burna Boy; uma mistura aprazível de pop latino e Afrobeats.
Imagens de registro de Pelé dizendo a vocábulo “paixão” introduziram a secção final, quando a retórica de unidade aprovada pela Fifa ganhou as cores vibrantes e extravagantes típicas de um show do Coldplay em estádios. Martin e sua margem foram acompanhados por um grande coral infantil que cantava, com clarão nos olhos, frases porquê “Temos uns aos outros” e “Acreditamos no paixão”, ao som de uma trilha sonora satisfeito e contagiante. Evidente, Miss Piggy e Caco, o Sapo, dos Muppets, também marcaram presença, cantando junto com os outros bonecos.
Foi uma prova surreal, porém impecavelmente montada, de produção pop de cima orçamento, muito coreografada e filmada com fluidez por Hamish Hamilton, diretor habitual do Super Bowl. Ao contrário da sátira contundente de Rooney, o resultado não foi tão ruim quanto a própria partida. O show do pausa revestiu a grandiloquência do futebol de “unir o mundo” com bom humor e ludicidade —qualidades ausentes na partida tensa e mal-humorada que o cercava.





