Sidarta ganha versão teatral com Angel Ferreira em SP – 29/08/2026 – Mise-en-scène
Angel Ferreira decidiu desacelerar. Ele se afastou dos trabalhos na televisão, adotou um novo nome artístico e foi morar no interno de Goiás, na Chapada dos Veadeiros. Durante cinco anos, viveu no chassi de um ônibus apropriado, cingido pelo mato, sem rede elétrica e sem chuva encanada. Esse tempo de silêncio e escuta virou a matéria-prima para conciliar para o teatro o clássico “Sidarta”, de Hermann Hesse.
No palco, a procura místico vira uma experiência humana, direta e enxurro de frescor. Angel conduz a narrativa com leveza e bom humor, usando uma linguagem descontraída e contemporânea que aproxima o texto do público de hoje. A encenação trata das grandes dúvidas da existência sem solenidade, rindo com o testemunha das nossas próprias vaidades e contradições cotidianas.
A trajetória mostra que a invenção de si mesmo não acontece em risco reta. Sidarta começa rompendo com os privilégios da família para viver porquê asceta na floresta, jejuando e castigando o corpo. Mais tarde, ele encontra o próprio Buda histórico. Embora admire a nitidez daquela filosofia, percebe alguma coisa forçoso: livros e mestres conseguem transmitir unicamente conceitos intelectuais, mas a sabedoria autêntica só nasce daquilo que experimentamos na própria pele.
Com essa certeza, Sidarta mergulha no extremo oposto. Vai para a cidade, descobre a paixão com a cortesã Kamala e enriquece porquê mercante. Ao se apresentar para trabalhar sem ter bens materiais, oferece unicamente os três hábitos aprendidos no retiro: saber pensar com nitidez e manter o foco; saber esperar com paciência a hora certa de agir, sem tormento; e saber jejuar para dominar a impaciência e as necessidades do corpo diante da escassez.
Anos depois, cansado do peso do quantia e das aparências, ele abandona os negócios e vai para a ourela de um rio. Ao lado do barqueiro Vasudeva, aprende a ouvir as águas e compreende que a tranquilidade nasce ao concordar a vida inteira, com seus erros, dores e afetos.
A encenação traduz esse caminho através de escolhas simples e diretas. O palco conta unicamente com um tapete de estilo oriental no meio, delimitando o espaço da ação, enquanto o ilustração de luz criado por João Gioia e Renato Livera alterna sombras de recolhimento com focos quentes nos instantes de revelação. No início da apresentação, Angel veste uma roupa ligeiro, simples. Em um trecho da peça, o ator tira a roupa e fica inteiramente nu pela maior secção das duas horas de sessão, um despojamento oriundo que revela a vulnerabilidade de alguém desmanchado do ego.
Angel transita entre todos os personagens usando unicamente a respiração, o olhar e o alinhamento do corpo. Com destreza, ele dá vida ao companheiro Govinda, ao pai austero, aos trejeitos de Kamala, à calma de Buda e à serenidade do velho barqueiro, construindo um encontro intimista que convida a olhar com afeto para as nossas próprias buscas.
Três perguntas para…
… Angel Ferreira
“Sidarta” trata de iluminação, repúdio e espiritualidade — temas que facilmente caem na insídia do dogma. Uma vez que você construiu essa chave contemporânea, ligeiro e bem-humorada para dialogar diretamente com o público de hoje?
Passei quatro anos lendo e relendo o livro durante o período da pandemia, já duvidando se montaria a peça. Até que uma cigana me disse: “Você não vai montar essa peça enquanto levá-la a sério, com susto dessa santidade e deixando o seu palhaço de lado, enquanto não distrair com ela”. Compreendi exatamente o recado: a vida não é séria. Falar de autoconhecimento, de Buda e de tranquilidade interno não precisa ser alguma coisa sisudo, formal ou erudito.
Essa conversa me libertou para distrair com o trabalho e me colocar no mundo através do humor. As pessoas costumam se surpreender porque esperam um espetáculo solene. Mas o que é a vida senão uma piada cósmica? A folia é a origem de tudo. A moço começa brincando. Antes de entrar em cena, repito uma reza para mim mesmo: “Que essa peça seja uma folia, porque distrair não leva a zero. Quem brinca já chegou.”
Uma vez que a prática do “pensar, esperar e jejuar” saiu do campo da filosofia do livro e se transformou em instrumento concreta no seu dia a dia e no rigor da cena?
Sobre o pensar: medito todos os dias logo ao contratar. A peça reforçou a regularidade dessa prática. Tanto as tradições antigas quanto a neurociência mostram que meditar ajuda na neuroplasticidade, no funcionamento cerebral e na nitidez mental.
A espera traduz-se no encómio ao tédio. Lembro da clássica camiseta do Cazuza que dizia “prefiro Toddy ao tédio”. Naquela era, fazia sentido buscar a libertação pelo prazer, mas hoje transformamos isso em um sábio ao ultraprocessado, à pressa e à dopamina fácil. O tédio, por outro lado, é a porta de ingressão para o silêncio e o campo criativo. Minha forma de esperar é evitar o uso inconsciente das redes sociais e simplesmente me permitir esperar —habitar o vazio sem tentar resolvê-lo imediatamente.
O jejum é o tirocínio de definir quem manda: nossos impulsos e condicionamentos sociais ou nossa própria consciência. O jejum é um compromisso interno profundo. Para conceber a peça, fiz um retiro de 21 dias com silêncio, jejum e reflexão. Foi um processo de muita lucidez e firmeza. Sustentar esse propósito fortalece a resiliência e a capacidade de mourejar com o desconforto. “Sidarta” fortaleceu meu compromisso com essas ferramentas.
Em uma das apresentações no Rio, você encarou uma plateia muito pequena. Para um ator que vem da TV e coloca em cena um texto sobre desapego e vaidade, porquê foi mourejar com esse momento? O solilóquio sobre despir o ego virou um teste prático na hora?
Virou um teste prático na mesma hora. Foi frustrante ver um trabalho pronto ao longo de anos com tanto carinho receber um público reduzido —alguma coisa que virou matéria e até piada na internet. Mas acabou sendo uma bênção. O propósito do trabalho está no próprio fazer, não no número de pessoas na plateia. Estar em cena é a minha reflexão e o momento em que me conecto com a minha origem.
Reconhecimento é ótimo, mas nenhum artista segue na ativa unicamente fazendo sucessos de bilheteria. Quem não é da espaço costuma associar uma sala com dois espectadores ao fracasso, mas o teatro convive o tempo todo com o vitória e o vazio. O sigilo é não levar a sério nenhum dos dois.
Foi um tirocínio direto contra a vaidade que me devolveu ao propósito da peça. No término, foi uma das apresentações mais bonitas da temporada. Já fiz peça para duas pessoas e já estive em teatro onde ninguém apareceu. Fazer cultura exige humildade, resiliência e bom humor. Num dia você atua para 500 pessoas, no outro a sala está vazia. Isso fortalece o caráter e o sacerdócio de estar no palco.
Teatro Estúdio – Rua Mentor Nébias, 891, Campos Elíseos. Sexta, 20h. Sábado e domingo, 17h. Até 27/9. Duração: 120 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. A partir de R$ 50 (meia-entrada e moradores do meio) em sympla.com.br





