Siri Hustvedt se confunde com Paul Auster em livro de luto – 25/09/2026 – Ilustrada
No livro que acaba de lançar sobre a morte de Paul Auster, seu marido, a escritora Siri Hustvedt dá às vezes a sensação de ser um personagem de Paul Auster, o noticiarista.
Em “Histórias de Fantasma: Memórias”, Hustvedt, hoje com 71 anos, conduz o leitor pela doença infalível de Auster, desde a invenção do cancro de pulmão, passando pelas tentativas de tratamento, a esperança de tratamento, a certeza do pior, e enfim a morte, aos 77 anos, do companheiro de mais de quatro décadas, em 2024.
Hustvedt descreve, em seguida, o que labareda de “a loucura” do luto. “Eu me imaginava andando pela morada sozinha”, ela observa, no início do livro, ao lembrar porquê projetava a perda de Auster ao receber a notícia do cancro.
“Se o seu pai morrer, eu dizia para a nossa filha, Sophie, vou perder meu dia a dia. O que eu não imaginava era que, depois da morte do Paul, o tempo ficaria tão desorganizado que se tornaria irreconhecível. Eu lembro e logo depois esqueço que dia é hoje. Eu lembro que estamos em maio e logo depois esqueço. As horas correm soltas, mas os minutos avançam lentamente.”
Não é muito dissemelhante de pensamentos que vários personagens de Auster têm, em seus livros. Narradores em luto, a que ele costumava recorrer —alguns tão sozinhos e desancorados que chegam a duvidar da própria sanidade.
É o caso de Daniel Quinn, protagonista de uma das histórias de “A Trilogia de Novidade York”, obra de meados da dezena de 1980 que tornou Auster famoso. Ou do próprio responsável, em “A Invenção da Solidão”, livro de não ficção em que buscou restabelecer a história de seu pai recém-falecido.
“Ele escreveu poemas, antes, quando jovem, e estava escrevendo ‘A Invenção da Solidão’, quando eu o conheci”, diz Hustvedt à Folha. “A morte do pai de Paul foi o que deu início à sua prosa, de verdade.”
Essa confusão entre os protagonistas de Auster e a narração de Hustvedt em “Histórias de Fantasma” é apropriada a uma obra que pretende falar em mais de uma voz e confundir, tanto quanto verosímil, Siri e Paul.
A narrativa corre em dois tempos alternados: a contemporaneidade, de um lado, e a história do par, de outro. Em boa medida, a dor e a tristeza pelo término, no presente da narrativa, só existem por razão da enorme alegria conjugal que os dois tiveram, reconstruída desde o primeiro encontro em 1981.
“Eu sinto falta do Paul, mas sinto falta do Paul e da Siri”, diz Hustvedt. “Pessoas que viveram juntas por muito tempo e que se amaram criam uma terceira coisa.”
Siri e Paul liam os livros que estavam escrevendo um para o outro —às vezes descobriam frases involuntariamente roubadas um do outro. Ideias, frases e sensações vividas ao longo de quatro décadas perdiam a fronteira individual e só podiam ser compreendidas no “entre” de que fala a autora.
Um dos efeitos de tanta convívio aparece depois da morte de Auster, no corpo de Hustvedt. Já viúva, ela sentiu, mais de uma vez, o cheiro da cigarrilha que o marido costumava fumar. Houve também a sensação, para ela indubitável, da “presença de Paul” no quarto, depois do enterro.
Era o fantasma que dá nome ao livro. Fantasma que Auster havia dito que queria se tornar, quando morresse.
Tanto a “loucura do luto” quanto o compartilhamento de voz de Hustvedt com Auster aparecem na forma do texto, que é fragmentado, mistura registros e traz lindas cartas que o americano escreveu para o neto, antes de morrer.
Mas o palato pela confusão —do espírito, do corpo e do texto— não impede que a escritora seja capaz de grande transparência analítica.
Um evidente modo de ver a vida aparece com nitidez —e esse é talvez o ponto eminente da obra— quando a mulher se questiona sobre as razões da morte de Auster. Evidente, ele morreu de complicações do cancro. Mas será que poderia ter recebido um tratamento dissemelhante, que evitasse o pior desfecho?
É uma pergunta sobre a morte, mas sobretudo sobre o papel das escolhas e do eventualidade na vida. Um tema dispendioso a Auster.
Ou, mais importante, será que foi por razão do cigarro que ele morreu? Fumar era um prazer comemorado por Auster nos textos e também nos filmes que realizou, em colaboração com o cineasta Wayne Wang: “Cortinado de Fumaça” e “Sem Fôlego”, ambos de 1995.
É um vício que comprovadamente aumenta a verosimilhança de surgimento de células cancerígenas. Mas há quem se dê muito nessa loteria, lembra Hustvedt. E quem garante que foi só o cigarro?
No livro, a autora levanta a hipótese de que uma tragédia familiar, uma dor extraordinária vivida por Auster nos seus últimos anos de vida pudesse ter fragilizado o seu sistema imunológico e contribuído de alguma maneira para o cancro.
A tragédia tem a ver com Daniel, fruto dele com a escritora Lydia Davis, em um casório anterior. Daniel tinha problemas com drogas desde a mocidade, cometeu furtos e sua relação com os pais sempre foi difícil.
Ruby, a filha de Daniel, um bebê de dez meses, morreu em 2021 por ingestão de heroína e fentanil. Daniel foi recluso meses depois, réu de homicídio culposo. Ao ser libertado sob fiança, morreu numa overdose das mesmas substâncias.
Auster passou a invocar essa sequência infernal de fatos de “coisas horríveis”. “Nunca saberei que influência as ‘coisas horríveis’ tiveram no cancro do Paul”, escreve Hustvedt.
O que parece surpreendente no livro é que, apesar de tanta dor, a autora não distribua culpa nem dê muito peso a considerações de remorso.
É verosímil que, se Paul Auster tivesse parado de fumar mais cedo, ele não tivesse tido cancro. “Mas eu não acho que seja útil pensar assim. Eu não olho para trás, para todos aqueles anos em que o Paul fumou, com raiva. Ele adorava fumar! Adorava. E as coisas não são tão simples.”
“Nós vivemos em um mundo em que as pessoas estão o tempo todo julgando a vida umas das outras. Isso é tão neoliberal: culpar as pessoas por seus pequenos vícios pessoais. Eu não quero ser assim, não quero viver nesse mundo. A gente não pode reescrever o pretérito. Não funciona. Tentar refazê-lo só produz amargura.”
Há uma saudável singeleza nessa resposta. Hustvedt não se apresenta porquê irresponsável, mas sabe que tampouco é régio do rumo.
No término, ela diz que conseguiu evitar a amargura e a melancolia, apesar de toda a dor. “Alguma coisa está mudando”, escreve, perto do término do livro. “Não sei porquê as coisas vão ser no tempo que ainda me resta. Não posso prever o que vai ocorrer. A dor do meu luto não vai finalizar, mas vai continuar mudando.”
Também nos livros de Auster, as coisas mudam depois das perdas. “O luto é muitas vezes, na obra de Paul, um catalisador”, diz a autora. “O personagem é de alguma forma privado de pessoas ou de alguns dos aspectos mais importantes de sua vida.”
E é assim, destituindo o protagonista de sua antiga vida, que o luto ajuda uma história novidade a inaugurar.





